2 Modelling career choices
2.1 States and choices
Após assinar o kit de distribuição e, principalmente, depois de comprar a quantidade de produtos exigidos para se tornar um supervisor da empresa, o próximo passo é a sugestão, por parte do patrocinador, de que o distribuidor passe a consumir todos os produtos. É ensinado, em todos os treinamentos, que “você vende aquilo que você consome”, ou seja, quem consome todos os produtos vende todos os produtos. A princípio, essa relação com os produtos é também relatada por eles como uma experiência vivida com certa resistência, pois se trata de alterar hábitos alimentares e de cuidados pessoais.
Com o produto eu fui mais resistente, porque eu não entrei pelo produto, eu entrei pelo negócio. A princípio, eu usei por obrigação, com o tempo, eu entendi que o produto era o diferencial. No início, as pessoas compravam só os que eu usava, que eram poucos produtos. Na XP, isso é muito claro: você vende o que você usa. Então passei a usar todos os produtos. (Bruno)
Em geral, o supervisor que patrocina outro supervisor abaixo dele tem por costume fazer uma brincadeira com cada novo supervisor, para que este passe a usar todos os produtos.
Essa brincadeira consiste em visitar a casa do novo supervisor assim que este receber todos os produtos, já que, conforme explicamos antes, para se tornar um supervisor, o distribuidor deve comprar um volume grande de mercadorias da empresa. Ao chegar à casa do novo supervisor, o patrocinador pede que ele pegue um produto de cada tipo e coloque na mesa, ou seja, um
shake, uma embalagem de cápsulas de fibra, uma da de cálcio, uma de ômega 3, uma de proteína em pó, barra de proteínas, etc. Em seguida, ele abre todas as embalagens e faz o seguinte comentário: bem, agora que estão todos abertos, não tem como você vender, vai ter de usar. Dessa forma, o supervisor é induzido a consumir todos os artigos, o que é justificado pelo patrocinador como uma forma de conhecer, no próprio corpo, os benefícios:
Quando os meus produtos chegaram, eu passei pela “calourada”, e, na hora que ele abriu todos os produtos e disse que agora eu ia ter de usar, eu achei curioso, não me senti agredido, eu achei só que era uma pegadinha. (Plínio)
Além dos produtos de nutrição interna, ou seja, suplementos nutricionais, o supervisor deve começar a usar todos os artigos de nutrição externa, voltados para a pele, em torno de dez diferentes. Para a maioria das mulheres, significa mudar ou acrescentar os produtos da XP àqueles que já tinham o hábito de usar. Mas, para os homens, quase a maioria absoluta, significa passar a ter um hábito diário de cuidados pessoais com a própria pele, com o qual nunca foram acostumados. Eles devem incluir novos hábitos à sua rotina. No entanto, entendem essa mudança como parte do aprendizado necessário para o trabalho:
Eu nunca tive resistência de usar nada. Eu perdi 10 quilos em 30 dias, então o que ele me mandava usar, eu usava. E depois que eu diminuí o peso, os meus exames estavam todos melhores, aí, eu quis usar. E eu fui ao primeiro treinamento em São Paulo para produtos externos, então, comecei a usar. Entendi como falam nos treinamentos, que um homem vaidoso, não é duvidoso. (Plínio)
Precisar tomar o produto diante de potenciais clientes, como uma estratégia de venda, ou mesmo mostrar a própria pele e descrever as alterações obtidas com os artigos, e ainda subir ao palco três vezes por semana para depoimentos sobre o uso dos itens, tudo isso faz com que os distribuidores, de tanto repetir o que sentem quando usam as mercadorias, passem a supervalorizar as vantagens sentidas em decorrência de seu consumo:
As pessoas, quando estão dentro da XP, relatam um benefício com os produtos muito exagerado. Eu ainda uso e acho que vou usar para o resto da vida, mas não a quantidade que eles me falavam para usar. E eu nunca senti nada do jeito que é falado no palco. (Márcio)
Dessa forma, em decorrência da repetição diária feita pelo distribuidor sobre sua experiência com o uso dos produtos, este passa a acreditar e a defendê-los como uma verdade inquestionável:
As coisas negativas que eu escutava sobre os produtos, como que não funciona ou que faz mal, ou que não se deve emagrecer com produtos artificiais e sim com uma boa alimentação, mesmo vindo de pessoas queridas, nunca me abalaram nestes anos todos. (Bruno)
Como consequência dessa idolatria em relação à mercadoria, muitos relatam já ter tido discussões e brigas entre amigos ou familiares por não acreditarem nos seus benefícios:
Quando alguém fala mal dos produtos, eu tenho vontade de matar. É inaceitável! Não dá para entender como uma pessoa ignora, no sentido de não conhecer, e prejulga. No início, tive muito desgaste com os familiares porque eu defendia os produtos agressivamente. (Plínio)
Essa relação com os produtos da empresa é construída de uma maneira tão sólida que, mesmo aqueles que já saíram dela, relatam a confiança adquirida e que permanece inquestionável:
Todo mundo precisa do produto, da qualidade do produto, que realmente é indiscutível, tanto que eu uso até hoje. Tem dois anos que eu saí da XP e uso tudo até hoje. Acho que vou usar o resto da vida. (Ana Paula)
Mesmo sem pretender entrar no mérito da qualidade dos produtos da XP, consideramos relevante chamar a atenção para mais um aspecto da relação do distribuidor com seu trabalho, sob parâmetros similares aos religiosos. Assim como os seguidores de algumas religiões incorporam a hóstia ou algo que ocupe esse lugar como uma parte do ritual para incluir-se naquele grupo, sendo que aquilo que ingerem os torna melhores do que os outros, aqui também o fato de tomarem ou não o produto faz parte dos rituais necessários para a construção da relação com a empresa. Usar o artigo diariamente se dá devido a uma confiança absoluta no que é dito pela empresa e, em nenhum momento, nos foi relatado qualquer questionamento a respeito da real necessidade de se adotar suplementos nutricionais, já que, de acordo com os nutricionistas (Oliveira, 2004; Silvestre, 2009), as substâncias devem ser usadas de acordo com a análise das carências detectadas da dieta de cada um:
Eu vou, com certeza, usar para o resto da vida. Eu e minha família. Se eu não uso, eu sinto falta, sinto menos disposição. Se eu acordar e comer um café com leite e pão com manteiga, eu vou pirar. (Plínio)
Assim, a devoção ao produto é tamanha, que o uso ou não dele passa a ser um novo critério de julgamento das pessoas em seu meio social, levando muitos distribuidores a relatarem como, a partir daí, foram reduzindo e alterando suas relações diante da decepção com aqueles que não se interessaram pelos produtos:
O problema é que as pessoas da sua lista de amigos nem sempre querem o produto ou dão importância. Nem sempre elas querem ouvir o que você está falando. Eu me decepcionei com algumas pessoas por não querer me ouvir e não quererem o produto. Acabei me afastando de algumas amizades que eu tinha antes. (Ana Paula)
Vimos, com isso, como a relação com os produtos da empresa vai paulatinamente influenciando os distribuidores na sua aproximação ou afastamento em relação às pessoas, afetando suas relações sociais como um todo.