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Em virtude de tratar-se de uma investigação de base funcionalista, que prioriza o estudo da linguagem em uso, a pesquisa analisa dados efetivamente reais. O objetivo aqui é investigar como os professores da rede pública instruem os alunos no que concerne ao uso da língua inglesa. A idéia surgiu da necessidade de se entender como ocorre esse direcionamento no ensino de uma língua estrangeira, particularmente, o inglês.

Cabe salientar que nem todos os professores da rede pública adotam especificamente um livro. Alguns professores lançam mão de compilações e/ou atividades criadas com base nos livros existentes sobre os tópicos dos programas das disciplinas. Outro ponto importante a ser mencionado diz respeito ao fato de a aula ser basicamente ministrada em português.

Assim compreendido o contexto no qual iremos atuar, focalizaremos nossa atenção nos enunciados instrucionais e/ou explicativos da fala do professor e nos enunciados do(s) aluno (s) na aula de inglês. Nas ocorrências apresentadas nesta tese, o professor é identificado por P, o aluno por A, e todos os alunos por TODOS, sendo a expressão da modalidade nos enunciados destacada em negrito.

A escolha das escolas se deu por termos encontrado em tais escolas os professores que aceitaram colaborar com a pesquisa. Inicialmente, os professores preencheram um questionário de treze perguntas. Tal questionário contemplava três partes: I. Formação (titulação, tempo de ensino, contato com pessoas de origem de língua inglesa, ter morado ou não em país de língua inglesa, ter feito curso no exterior, ter feito curso no país dado por nativo); II. Informação do curso (sobre os mecanismos que o professor leva os conhecimentos aos alunos, tipo de aula, tipo de diálogo estabelecido) e III. Análise do material didático ou correspondente (análise das estruturas gramaticais, razão das escolhas, atividades, explora forma, uso, qual a ênfase?).

O questionário revelou que três dos professores possuem formação em Letras e três em Planejamento Educacional. Dois dos professores já fizeram curso no Brasil com

83 americano ou inglês, mas de curta duração (seis meses). E nenhum professor nunca morou em país de língua inglesa. Cinco professores possuem menos de nove anos de ensino e o mínimo de três, sendo que um professor leciona há vinte e três anos. No que diz respeito às aulas, três professores responderam que são dialogadas e três professores responderam centrada no aluno. Em se tratando dos professores do grupo da aula dialogada, estes, provocam o interesse dos alunos por meio da discussão de textos ou tópicos. Já no segundo grupo, um dos três professores marcou a opção de que o professor algumas vezes é quem explica e corrige e responde.

O questionário nos proporcionou um grupo com características semelhantes como pouquíssima (curso de curta duração) ou nenhuma exposição imersiva à língua (nunca ter morado no exterior). Ter um grupo com características similares evitou um corpus muito diferente se colhido de um outro grupo uma vez que fatores como a experiência do professor, a exposição freqüente à outra cultura, o nível de conhecimento elevado e a total imersão na língua afetam a forma de ministrar a aula, e conseqüentemente o que se diz e como se diz.

Quanto aos alunos, são todos das três séries do ensino médio da escola pública de Fortaleza que estudam inglês como língua estrangeira.

Os dados, nesse estudo, consistem de interações entre professor e aluno gravadas em áudio na sala de aula de ensino de língua inglesa como língua estrangeira em 3 escolas públicas na cidade de Fortaleza, CE, Brasil totalizando interações de seis aulas de cada um dos seis professores. A fim de obtermos uma melhor qualidade no som, procedeu-se a cópia digitalizada em CD-Rom. Em seguida, as gravações em CD foram transformadas em ondas por meio do programa computacional “wave” com o qual obtivemos a qualidade esperada para se proceder à transcrição. A transcrição se deu, então, por meio do programa computacional “voice walker”. Ambos os programas “wave” e “voice walker” nos foram disponibilizados no laboratório da Pós-Graduação da Universidade do Novo México (UNM), em Albuquerque, nos Estados Unidos, durante estágio na Instituição. Ao todo 1.620 minutos de aula foram gravados, sendo que 540 minutos representam, em cada uma das três séries, a fala dos seis professores que em interagem com seus alunos.

Salientamos que as aulas não somente foram gravadas, mas também observadas no intuito de prover o contexto das ocorrências com mais precisão.

Para a constituição do corpus, fizemos a gravação de três aulas geminadas de seis professores, do ensino médio da escola pública. E, por se tratar de aula dupla, cada aula corresponde à 90 minutos.

84 O quadro de constituição e delimitação do corpus oral (discurso do professor em interação com o aluno) a seguir melhor apresenta a idéia que expomos.

AULA DE INGLÊS NO ENSINO MÉDIO (Série/Duração/Ocorrência).

1ª. Série 2ª. Série 3ª. Série TOTAL

Duração Ocorrência Duração Ocorrência Duração Ocorrência Duração Ocorrência

540 366 540 172 540 298 1.620 836

Quadro 4. Constituição e delimitação do corpus.

4.2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Tendo em vista que a modalidade deôntica se manifesta por meio de recursos prosódicos, lexicais e recursos gramaticais, optamos por analisar os enunciados qualificados exclusivamente por meio de itens lexicais, gramaticais ou em curso de gramaticalização. Contudo, as estratégias de atenuação e asseveração da força ilocucionária que se manifestam por outros meios foram também consideradas apenas na análise qualitativa.

Com o propósito de atingir nosso objetivo, procedemos a análise qualitativa e quantitativa da manifestação da modalidade deôntica nos enunciados da aula de língua inglesa por meio de uma caracterização pormenorizada das ocorrências encontradas.

No que concerne à análise qualitativa, adotamos a abordagem funcionalista, pois comungamos com a idéia de que a expressão lingüística é mediadora da relação que se estabelece entre falante e ouvinte. Dentro desse contexto, e considerando a linguagem como ação intersubjetiva, a expressão lingüística produzida pelo falante se faz em função de uma expressão lingüística, de sua informação pragmática e de como ele reconstrói a intenção do falante (DIK, 1997).

85 Apresentamos, abaixo, uma síntese dos procedimentos metodológicos adotados:

a) constituição do corpus de ocorrência dos diferentes usos e/ou sentidos da modalidade deôntica na aula de língua inglesa;

b) caracterização dos diferentes usos da modalidade deôntica por meio da aplicação das categorias de análises discutidas na fundamentação teórica;

c) descricão e explicação do uso dos modalizadores deônticos nos enunciados instrucionais e explicativos, considerando, de um modo integrado, os aspectos sócio-interacionais.

d) verificação de freqüência por meio do pacote computacional SPSS.

4.3 PACOTE COMPUTACIONAL SPSS

A fim de que pudéssemos empreender uma análise quantitativa da modalidade deôntica, optamos pelo uso do pacote computacional SPSS - CROSTAB. O primeiro é responsável pelos cálculos percentuais de freqüência relativa a cada variável; o segundo, pelo cruzamento das mesmas. O pacote computacional SPSS nos foi disponibilizado pelo GEF (Grupo de Estudos em Funcionalismo) da Universidade Federal do Ceará.

A fim de que possamos analisar em que medida a modalidade deôntica está a serviço dos enunciados do professor em interação com o aluno, o primeiro passo, no que diz respeito à rodagem dos programas, é o estabelecimento de parâmetros para a análise da modalidade deôntica. Assim, cada variável recebeu uma codificação.

No intuito de facilitar a identificação, as variáveis foram codificadas por meio de um número e sob o título de acordo com o tipo. Na seqüência expomos toda a codificação utilizada:

Quanto ao modo de expressão (expres): 1 (verbo pleno); 2 (auxiliar); 3 (adj.pos.pr.); 4 (substantivo);

Quanto à série (série): 1 (1oº. ano); 2 (2º. ano); 3 (3º. ano);

Quanto ao modo (modo): 1 (indicativo); 2 (subjuntivo); 3 (imperativo);

Quanto ao valor deôntico instaurado (tipomoda): 1 (necessidade); 2 (habilidade); 3 (volição); 4 ( obrigação); 5 (permissão); 6 (proibição);

86 Tipo de fonte (fonte): 1 (professor); 2 (aluno); 3 (autor/livro); 4 (não especificado); 5 (língua);

Alvo deôntico (alvo): 1 (professor); 2 (aluno); 3 (não-especificado);

Comportamento do enunciador no alvo (inclusão): sim (inclusão); não (não-inclusão); Enunciador (enundor): 1 (professor); 2 (aluno);

Tipo de obrigação (tipobrig): 1 (obrigação interna); 2 (obrigação externa); 3 (não se aplica);

Tipo de proibição (tipoproi): 1 (proibição interna); 2 (proibição externa); 3 (não se aplica);

Tipo de permissão (tipoperm): 1 (autorização); 2 (concessão); 3 (sugestão); 4 (não se aplica);

Comportamento do enunciador (inclusão): sim (inclusão); não (não-inclusão);

Marcas da atenuação e asseveração (marcas): 1 (atenuação); 2 (asseveração); 3 (não se aplica).