Os enunciados do professor (comandos e explicações) precisam ser claros e objetivos para que o aluno possa participar de forma efetiva. Assim, os enunciados, de natureza prescritiva (que apresentam instruções) na fala do professor servirão de base para a aprendizagem da língua inglesa em contextos como o ensino de língua estrangeira. O ensino de tal língua prioriza o uso eficaz da língua inglesa nas interações. Nesse contexto, o referido ensino depende da clareza e precisão dos enunciados do professor. Daí, a maioria dos enunciados manifestarem-se por meio do uso de imperativos, verbos auxiliares modais, adjetivos em posição predicativa, dentre outros, que carregam, na sua semântica, o componente “obrigação”.
Ocorre, algumas vezes, que o enunciador se distancia do que enuncia. Uma evidência disso acontece envolvendo imperativos, que, por compreenderem a noção semântica de “obrigação”, de caráter autoritário, traduzem a noção semântica de “permissão”, o que acaba por “suavizar” a intenção que está implícita. Tentamos, pois, entender, em nosso estudo, como se dá esse contraste entre o caráter autoritário e a atenuação da força ilocucionária, como forma de mitigar a assimetria característica do discurso pedagógico.
Segundo Lyons (1977), as sentenças imperativas, embora mais usadas para expressar ordens, podem ser usadas para a concessão de permissão. Quando dizemos “come in!”43 (Entre!) em resposta a alguém na porta, nós estamos concedendo permissão, haja vista que a batida na porta, por convenção, é um pedido para entrar. Se lemos uma instrução “Go!”44 (Siga!) tendo em mente o sinal no trânsito, não estamos impondo ao pedestre ou ao motorista uma obrigação. Ao contrário, estamos criando a permissibilidade de uma ação por remover uma proibição.
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LYONS, 1977,p. 838. 44 Idem, 1977, p. 838.
71 Contudo, no contexto de sala de aula, instância de nossa investigação, além da idéia de que uma tarefa foi dada ao ouvinte, via enunciado, o imperativo também é usado para indicar que a execução do ato será realizada no futuro, imediatamente após o enunciado ser dito.
Assim, nos enunciados do professor no ensino da língua inglesa como língua estrangeira (EFL), o imperativo parece manifestar a superioridade do mestre, haja vista que ele é quem detém o conhecimento da regra a ser prescrita como também é ele quem fornece os comandos ao estudante, atuando como orientador com uma intenção.
A expressão da modalidade deôntica se dá por meio da fala do professor e dos alunos em relação às convenções da interação entre eles. Nesse contexto de aula de língua inglesa como língua estrangeira, as regras de correção sobre como a língua inglesa deve ser usada (abordagem prescritiva) são freqüentemente transmitidas por meio de modalizadores deônticos.
É freqüente o uso desses modalizadores tal como observamos nas aulas práticas de ensino dadas pelos estagiários, do curso de graduação em língua inglesa da Universidade Federal do Ceará. As aulas envolviam inglês para fins específicos (ESP), portanto ministradas em português, além do desenvolvimento de estratégias leitoras.
Assim, uma vez que nossa investigação objetiva avaliar as formas de expressão da modalidade deôntica nos comandos e explicações do professor no ensino da língua inglesa com ministração de aulas em português, é conveniente mencionar a descrição já relacionada, como a de Leite (2003), que destaca alguns usos de modalizadores deônticos identificados no discurso jurídico. Nesse estudo, observamos que, por meio do verbo, há dois tipos:45 a) verbo auxiliar modal (58) e b) verbo de significação plena (59).
(58) poderão, entretanto, sempre que necessário, dirigir a palavra a mim. (J1:1)
(59) concedo ao réu a suspensão condicional da pena por um prazo de dois anos nos termos da fundamentação observada no artigo 72 do código penal. (J1:28)
No que diz respeito a adjetivos, a manifestação se dá em posição predicativa como ilustrado em Menezes (2006).
72 (60) Mesmo admitindo a veracidade do dado, é preciso contar a verdade por inteiro. [ba]Disc.46
Contudo, um caso bastante comum que pode envolver o nome ou modalizador substantivo vemos em (61) e (62). 47
(61) Olha as testemunhas são os amigos, porque a polícia não foi buscar no inquérito policial, que é obrigação dela, ir buscar as testemunhas. (D2:16).
(62) em situações como essa aqui, e a sociedade se esquece, e a sociedade de que todos nós temos aí, pelo menos o dever de prestar serviço e delatar os crimes (A2:18)
A modalidade deôntica também se manifesta por meio das próprias categorias gramaticais como tempo, aspecto e modo do verbo da proposição.
Esse tipo de modalidade se situa no eixo da conduta, concerne à linguagem das normas, no domínio do dever, obrigação e permissão e se liga à volição e à ordem. Palmer (1986) destaca que a modalidade, diferentemente do modo, não é uma categoria expressa somente na morfologia verbal, pois os marcadores formais de modalidade, encontrados na gramática de todas as línguas, nem sempre se expressam por meio do verbo.
Se consideramos a língua portuguesa, por exemplo, são vários os modos de lexicalização da modalidade. Koch (1986) aponta, entre outros, os auxiliares modais, as formas verbais perifrásticas, as orações ou proposições modalizadoras, os verbos de atitude proposicional, os advérbios de modalidade, alguns modos e tempos verbais além dos verbos, advérbios, substantivos e as categorias gramaticais de tempo, aspecto e modo.
Uma vez que a investigação trata de enunciados em língua portuguesa também destacamos os trabalhos sobre modalidade em Mateus et al. (1992), Nogueira & Moreira (2006), Nogueira (2006 e 2007) e Lopes (2008).
Como vimos no capítulo anterior, é sobretudo no uso dos verbos modais que se registram os casos envolvendo polissemia. Ora podem expressar permissão deôntica, ora podem expressar possibilidade epistêmica. Os verbos poder e dever, por exemplo, são freqüentemente associados a essa ambigüidade.
46 MENEZES, 2006, p.70. 47 LEITE, 2003, p. 64.
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