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Os valores deônticos são instaurados por diferentes tipos de fontes em nosso contexto de sala de aula de língua inglesa como língua estrangeira, seja pelo professor, pelo aluno, pelo autor/livro51 ou pela língua na forma de restrições estruturais. A identificação do tipo de fonte está relacionada, de um modo geral, ao tipo de enunciador. No gráfico 2 a seguir, temos a porcentagem correspondente a cada tipo de fonte.

Gráfico 2: tipo de fonte no enunciado do professor.

Em relação à variável fonte deôntica, acreditávamos que haveria uma incidência maior do professor como fonte. Os resultados confirmam tal hipótese, uma vez que é o professor quem se destaca nesse papel, com 78,0%. O aluno aparece em segundo lugar, com 11,5%. A língua é fonte em 10,0% dos casos. Por último, o autor/livro, com 0,5%, aparece nesse papel. As ocorrências que se seguem ilustram o que mencionamos acerca da

51 Os livros não constituíram parte do corpus, mas quando referidos pelo professor, são um tipo de fonte deôntica.

101 incidência do professor como fonte. Vejamos os trechos do corpus (100-103) ilustrativos do que acabamos de asseverar.

(100) P: Você tem que perguntar a pessoa certa. No presente, nós temos três formas do “to be”, que é “am, are, is”. (PR273).

(101) P: Mais alguma dúvida antes de começar? A3: Não.

P: Então, agora eu quero todo mundo fazendo a tarefa. (T623).

(102) P: Não quero nada sobre a carteira. Vamo! (PR216).

(103) A: Outra questão! Disse que era só duas, macho!

P: Só mais essa. A gente vai só completar aqui não é isso, com o futuro imediato ... Aqui nessa segunda, a gente pega essas frases aqui e passa para a interrogativa e negativa, okay? (T815 e T816)

Em (100), a fonte é o professor, que instaura uma obrigação por meio do auxiliar ter que. Assim, o professor exerce seu papel na liderança, no direcionamento de condutas por ocasião do aprendizado da língua inglesa. E, embora o professor não modalize na fala seguinte, notamos que ele usa o pronome nós na seqüência, incluindo-se indiretamente na obrigação.

No exemplo (101), encontramos a marca da subjetividade do professor quando da utilização da primeira pessoa do singular eu + o verbo querer na forma quero. O desejo do professor ganha ainda o reforço na expressão do alvo - o pronome indefinido todo mundo, que abriga todos os alunos na expectativa criada pelo professor em relação à atitude prescrita; ou seja, a tarefa deve ser feita por todos.

Ao analisarmos o exemplo (102), confirmamos a fonte centrada naquele que comanda a interação. Dessa vez, a subjetividade do professor se dá por meio da utilização do verbo querer na forma quero, antecedida pelo advérbio de negação não. Evidenciamos também o exortativo (vamo!) que incita o aluno a fazer algo; que tire tudo de cima da carteira.

De acordo com o excerto (103), consideramos que o professor é fonte deôntica mas é fonte incluída no alvo deôntico do valor de obrigação, fato notório por meio de a gente.

102 E, mesmo sendo o aluno aquele que responderá a questão, o professor se coloca no lugar do discípulo, participando do processo de aprendizagem também. Entendemos que, embora não estejamos diante de modalizadores padrão, pega e passa desempenham a função modal de procedimento ou instrução na qual a noção de obrigação é instaurada pelo professor.

Passemos a um outro grupo, o do aluno como fonte de instauração do valor deôntico. Seguem alguns exemplos.

(104) P: Pronto! Pessoal a forma negativa, vamo lá! Podemos ir? P'ra fazer a negativa nós também vamos usar o ... auxiliar. (T759).

(105) P: Qual a dúvida? A7: A dois!

P: Nessa dois? Pessoal vamos aqui! Podemos corrigir pessoal? (T698).

Em (104), embora seja o professor o enunciador, a fonte é o aluno, haja vista que é ele quem autoriza o professor a passar para outro tópico, a negativa. No referido contexto, ao empregar podemos ir na interrogativa, o professor consulta os alunos sobre a permissão para prosseguir. Cabe, ao aluno, permitir ou não a mudança do assunto marcando, assim, o ritmo da aula.

O que se apresenta em (105) reflete o professor como enunciador, mas o enunciador não corresponde, nesse caso, à fonte da instauração da permissão. É o professor, com a pergunta dirigida aos alunos, que os institui como fonte autorizada a permitir ou não a realização de uma ação por ele próprio – o professor. E uma vez que o aluno se instaura como fonte do valor deôntico (permissão), é a ele que cabe decidir se o momento é adequado à correção ou não. Na realidade, depende da habilidade do aluno em realizar as tarefas com rapidez ou não ou, até mesmo, de seu desejo em concluí-las. Portanto, o aluno é, sem dúvida, a fonte assim instituída pelo professor.

Retomando os exemplos (96) e (97), em que encontramos os enunciados cala a

boca abestado e pára a conversa aí, proferidos por um aluno, evidenciamos que o aluno é

fonte, só que, dessa vez, por iniciativa própria; ou seja, ele não foi instituído pelo professor como fonte.

103 Vejamos casos em que a fonte é o autor/livro.

(106) P: Tá tudo aí na apostila! É só procurar!... (Minutos depois).

P: Com quem eu ia fazer o item seis? A1: Eu fiz professora!

P: Pois vamo tentar fazer agora! Vamo lá pessoal! Item seis. Porque ele pede agora ... Ai minha Nossa Senhora! Vocês estão .... (PR329).

(107) P: Entendeu? É “were”. ”Nine!” A7: É “were”.

P: Isso! Tem nove não? TODOS: Não, b.

P: Então é o item b. Que que ele pede no b? A8: P’ra passar p’ro passado.

P: Vamo ver! ”Change to the past tense”. (PR834 e PR831).

Em (106), o verbo pedir na forma verbal pede encontra-se em um exercício da apostila. Assim, quando o professor diz ele pede, na realidade, está se referindo ao que o autor do material impresso está pedindo no enunciado da questão, precisamente no item seis. O enunciado é da apostila e não do professor. O professor apenas faz menção ao enunciado. Por isso, nessa circunstância, tomamos apostila por livro e, conseqüentemente, entendemos o autor/livro (apostila) como fonte deôntica.

Confirmamos, por meio de (107), que o verbo pedir, que confere polidez se comparado a um verbo como exigir, é empregado novamente, para se referir a um item do material usado na aula. Ao indagar sobre a questão nove (“nine”), o professor é informado que não há tal questão, mas que existe o item b. O item b é o responsável pelo que o grupo deve fazer em sala, que é passar as frases para o passado. Então, é o item do exercício do livro ou da apostila que dá o comando a ser seguido. Tal aspecto é reforçado pela fala do professor, que usa o exortativo Vamo ver! e o próprio enunciado em inglês “Change to the past” que, por sua vez, contém um imperativo (change) para levar os alunos a fazer o que é pedido. Portanto, a fonte não é o professor e, sim, o item b; e, como já dito, entendendo o exercício como parte de um livro ou apostila, a fonte é o livro.

104 A seguir, ilustraremos a língua como fonte de valores deônticos.

(108) P: ... Nós temos também em inglês os verbos que terminam em y. E esse y é antecedido por uma consoante. Como é que a gente faz com esse verbo?

A4: Tira o e e acrescenta –ied.

P: Tira o y e acrescenta o quê? O i, o e e o d, tá certo? ... (T632, T633, T634 e T635).

(109) P: Então, meu povo, dobra-se, repete-se a última consoante e acrescenta ... -ed. “Permit”, “permitted”. (T828, T829 e T671).

Entendendo haver dois tipos de autoridade: a do professor e a da língua, o que observamos, em (108), por meio de tirar na forma tira e acrescentar na forma acrescenta, é que o professor apenas enuncia uma regra da própria língua; ou seja, informa o que é exigido pela estrutura da língua inglesa, em sua variedade padrão. Dessa maneira, é por referência à estrutura da língua que o aluno é conduzido à proficiência da língua inglesa como língua estrangeira, orientado para o uso considerado gramaticalmente correto. Quando o professor diz tira o e, por exemplo, e acrescenta –ied, tem-se a língua em paralelo com o que é admitido socialmente no aprendizado de uma língua estrangeira. Por esse motivo, julgamos conveniente considerar a língua como fonte, mais uma vez, na forma como o professor enuncia uma regra. Da mesma forma como o professor institui o aluno como fonte (104-105), ele também apresenta a língua (em suas regras estruturais imanentes) como fonte dos valores deônticos instaurados, sobretudo nas explicações (regras). Ao fazer uso das formas tira e

acrescenta, o professor se baseia na língua ou, por assim dizer, nas convenções implícitas da

língua. Procedimento semelhante ocorre em (109). E o professor reforça cada letra.