3.3 R ESEARCH U NIVERSE
3.3.2 Stakeholders
Essas atividades tiveram como objetivo receber os espectadores, dando-lhes “boas- vindas”, com o intuito de nos aproximarmos enquanto grupo, ganhar confiança para sensibilizá- los em relação à linguagem teatral e à temática da leitura dramática.
Durante o memorial oral coletivo, procurei abrir a escuta para os relatos dos espectadores sobre as suas próprias experiências, indo ao encontro do que diz John Dewey: “A experiência, nesse sentido vital, define-se pelas situações e episódios a que nos referimos espontaneamente como ‘experiência reais’ – aquelas coisas de que dizemos, ao recordá-las: ‘isto é que foi experiência’” (DEWEY, 2010, p. 110). A partir dessa escuta, elaborei três atividades de aquecimento, antes mesmo de começar a tecer relações com a leitura dramática A
ascensorista. Muitos espectadores chegaram a contar na roda de conversa do último encontro
que estavam apreensivos para começar o processo de mediação teatral, como nos conta a espectadora:
A gente chegou meio temeroso do que ia acontecer, mas vocês deixaram a gente ficar à vontade.28
Ou também em forma de relato escrito do processo de mediação teatral, como a fala de outra espectadora:
Fui deixando um pouco de lado a minha timidez.29
28 Fala obtida via registro em áudio da roda de conversa sobre as experiências do processo de mediação
teatral em 22 fev. 2017.
Começamos a nos apresentar ressignificando o primeiro nome por meio da retirada das consoantes, utilizando apenas vogais. Depois de cada um se apresentar, todos pronunciaram seus nomes simultaneamente e, em seguida, realizaram graduações de intensidade e volume, brincando com a sonoridade do “novo” nome. Por fim, todos deveriam somar a sonoridade que estavam produzindo com a dos seus pares e o som resultante foi o que chamo de “nome do grupo”, uma identidade sonora única naquele momento.
Aos poucos, fui pedindo que diminuíssem o volume da sonoridade, chegando a um possível silêncio. Permanecemos em roda e seguimos com o jogo das palmas, no qual um jogador deve “lançar” corporalmente um movimento que apontasse para outro, sendo essa “passagem” de movimento vinculada à direção do olhar voltada para quem receber esse movimento e o irá lançar um terceiro jogador, e assim sucessivamente.
Esses jogos são como os que Oliveira aponta nas oficinas dramático-pedagógicas, propostas por Luiz Marfuz sempre nas ações pré-peça do Projeto Cuida bem de Mim para os professores e representantes estudantis nas escolas que eram realizado. De acordo com Oliveira, “O aquecimento é a fase de preparação, de sensibilização física, muscular e psíquica dos participantes; uma espécie de mobilização sensorial para que as tensões apareçam e sejam liberadas através de exercícios, jogos e dinâmicas” (OLIVEIRA, 2011, p. 61). E essas tensões foram sendo dissipadas, gradativamente, como vejo nessa fala da espectadora C.M.S.S.:
Inicialmente fiquei nervosa, com medo das oficinas, mas ao decorrer delas fui me soltando ficando tranquila e perdendo esse medo.30
Prosseguindo, solicitei que desfizessem a roda e caminhassem pelo espaço da plateia do auditório com ritmos diferentes e caminhadas alternadas, olhares atentos aos outros. Eu os estimulava dizendo frases como: “Não estamos sozinhos!”; “Respirem!”; “Se olhem!”; “Percebam-se!”; “Como está meu corpo na caminhada?”; “Olhem para o espaço em volta!”.
Pedi para exercitarem outras maneiras de andar, diferentes das do cotidiano. Andar ora com “pernas de elefante”, ora com “braços de ave”, ora com “pés de formiga”, e assim fomos
conseguindo sair das limitações de um corpo moldado pelas convenções sociais e descobrindo um corpo mais propício para a expressão teatral.
Esse jogo propiciou uma reflexão sobre o corpo cotidiano, os nossos automatismos e a possibilidade de irmos além deles, por meio de exercícios lúdicos. Essa abordagem inicial nos impulsionou a pensar no coletivo, precisávamos ir estabelecendo confiança mútua, condição primeira para podermos nos lançar em um processo de mediação teatral em torno da leitura dramática A ascensorista.
Antes de irmos para a próxima atividade, recorro novamente a Pupo, que analisou modalidades de mediação teatral em projetos implantados dedicados à formação de espectadores na França, Bélgica e Brasil. Em relação ao projeto brasileiro, já mencionado e citado anteriormente, Projeto Formação de Público, a autora chama atenção para as modificações nas intervenções dos monitores, antes e depois da ida ao teatro:
A natureza da intervenção dos monitores antes e depois da ida ao teatro também sofreu modificações significativas, tendo passado de um tom quase livresco – considerações sobre o tema, ação e personagens do texto, sua inserção histórica e assim por diante – a uma focalização mais nítida em questões ligadas à linguagem teatral. A abordagem de cunho sensorial que se buscava muitas vezes se apoiava em jogos ou na presença de materiais de algum modo vinculados à própria cena. (PUPO, 2015, p. 345)
Essa citação de Pupo faz-se importante, pois reitera a passagem que Desgranges (2006) discorre sobre as intervenções dos monitores nos “ensaios de desmontagem”, que foram sendo modificadas durante os anos 2001 a 2004. As palavras “livresco” e “sensorial” indicam essa modificação conceitual e procedimental que foi gradativamente conquistada nas abordagens das intervenções do projeto. Considero que me apropriei dessas informações para iniciar a mediação teatral, na medida em que lancei mão de atividades mais corporais, vocais, imagéticas e sonoras do que de exposições orais sobre o que iria acontecer.
A próxima atividade, a atividade da engrenagem, estava voltada para o “ângulo de ataque” (DESGRANGES, 2006) escolhido por mim: elementos do texto dramático A
ascensorista. O texto foi um impulso a partir do qual eu defini diversas atividades de mediação
prévia e de atividades de mediação posterior. O objetivo dessa atividade específica era começar a ativar a imaginação e a familiarização dos espectadores a respeito do título da peça e a partir de então a proposta seria criar uma imagem corporal da palavra “ascensorista”. A escolha por
começar com o título A ascensorista deu-se justamente porque, no contexto das cidades de Ouro Preto - MG e Mariana - MG, essa profissão, característico das grandes metrópoles com seus grandes edifícios, não se faz representativo. Uma vez que as próprias características arquitetônicas e as restrições quanto a edificações que modificam a área de tombamento não comportam elevadores, assim, a palavra “ascensorista” suscitaria, a meu ver, a imaginação dos espectadores, conhecendo ou não o significado da palavra ou reconhecendo a profissão.
A partir de uma breve conversa sobre a palavra, deu-se a instauração do corpo no espaço, demarcado com uma linha imaginária no chão em forma de um retângulo, que remetesse ao lugar de um elevador. Cada espectador entrava no espaço e se instalava corporalmente, congelando-se em uma imagem corporal. Os demais observavam durante alguns instantes. A cada entrada, os demais completariam essa primeira imagem corporal até fazerem parte dela todos os espectadores presentes. Em seguida, a imagem ia se desfazendo e ganhando outras formas sob os olhares de quem saía para observar, um de cada vez. O primeiro jogador que entrou no espaço, sai para observar os demais, na ordem inversa da entrada, e ficando, ao final, a última pessoa que se posicionou na área demarcada. A Figura 3 ilustra a atividade da engrenagem:
FIGURA 3 - Atividade da engrenagem com a turma 2016/2 em 08 fev. 2017 FONTE: Acevesmoreno Flores Piegaz.
A imagem, em minha leitura, indica a maior parte dos espectadores em atividade, concretizando na imagem corporal coletiva os primeiros sentimento e pensamentos em torno
da palavra “ascensorista”. Um detalhe: todos os espectadores estão com o corpo ereto, estando somente um no plano médio.
O depoimento do espectador A. S. S., expresso no relato escrito solicitado ao final do processo realizado, evidencia a dificuldade inicial que a maioria dos espectadores parece ter tido em fazer a ligação das ações de mediação com o objeto de fruição, a leitura dramática, mas que depois essa relação foi-se revelando a todos.
[...] aos poucos as dinâmicas foram se ligando, sobre tudo ligadas ao tema ascensorista e elevador. No começo não vi muita ligação, mas próximo ao fim do processo consigo ver melhor como realmente tudo está relacionado.31
O espectador A. S. S., no início das atividades, parece não ver “muita ligação” das ações mediadoras desenvolvidas em relação ao objeto de fruição, a leitura dramática, porém gradativamente vai construindo suas interpretações sobre as relações que vai tecendo com o desenvolvimento do processo. Como foi realizada uma atividade específica voltada para o ângulo de ataque, um elemento dramatúrgico, no caso, o título da peça, com o intuito de ir preparando-os para o encontro com a leitura dramática, me parece que a fala citada acima que as compreensões foram se construindo aos poucos, através do percurso na experiência do jogar com um dos elementos da leitura dramática. Por outro lado, avalio que eu poderia ter explorado mais atividades voltadas para o ângulo de ataque nas atividades de mediação prévia.
De todo modo, propor estabelecer uma confiança mútua através das atividades de mediação prévia, foi sem dúvida necessário para um entrosamento enquanto grupo. Precisávamos “quebrar o gelo”.