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Stability of the 79NG ice tongue

4.2 Ice-Tethered Mooring and Tidal Analysis

4.4.4 Stability of the 79NG ice tongue

Em primeiro lugar, já demonstramos no capítulo anterior que a objetividade da racionalidade instrumental, com a qual foi realizado o esclarecimento e a ideia de civilização, meramente reprime a natureza no homem, tornando-o incapaz de uma experiência plena, uma vez que aquilo que era propriamente parte de seu ser deixa de ser levado em conta, o que é considerado por Adorno e Horkheimer como uma “traição” do homem, que não se vê mais como parte da natureza – o que por si só, já é o suficiente para notarmos a importância de uma teoria de uma racionalidade diversa da instrumental.

Agora, passamos a demonstrar outras consequências, apontadas pelos filósofos, para essa repressão da natureza no homem.

Em Elementos do Anti-semitismo: limites do esclarecimento, capítulo da

Dialética do Esclarecimento, de Adorno e Horkheimer, os autores tratam,

através de sete teses da relação entre a racionalidade instrumental e as origens do antissemitismo e de todo o massacre realizado pelos nazistas, guiados por Adolf Hitler. É um capítulo central, portanto, e com uma pretensão muito alta já que, além de buscar na racionalidade as causas para o antissemitismo, ainda buscar demonstrar que este não se trata de um fenômeno isolado, mas de uma tendência universal do esclarecimento unilateral. Isso foi alcançado graças a uma série de estudos anteriores realizados no Instituto de Pesquisa Social. Como dizem no prefácio da Dialética

do Esclarecimento:

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A discussão dos “Elementos do anti-semitismo” através de teses trata do retorno efetivo da civilização esclarecida à barbárie. A tendência não apenas ideal, mas também prática, à autodestruição, caracteriza a racionalidade desde o início e de modo nenhum apenas a fase em que essa tendência evidencia-se sem disfarces. Nesse sentido, esboçamos uma pré-história filosófica do anti-semitismo. Seu “irracionalismo” é derivado da essência da própria razão dominante e do mundo correspondente a sua imagem. Os “Elementos” estão diretamente ligados a pesquisas empíricas do Instituto para Pesquisa Social, a fundação instituída e mantida por Felix Weil, sem a qual não teriam sido possíveis, não apenas nossos estudos, mas uma boa parte do trabalho teórico dos emigrantes alemães que teve prosseguimento apenas de Hitler (DE, p. 15-16).

As teses são fruto, pois, de uma articulação radical entre o referencial teórico freudiano e marxista que formam a base do Instituto, além de pesquisas empíricas e a reflexão filosófica a respeito do esclarecimento, da origem da razão, do homem e da civilização e a respeito da natureza humana – o que talvez ocorra aqui muito mais do que nos outros estudos de Adorno e Horkheimer.

De Freud a referência mais aparente são seus estudos sobre a paranoia, que os autores encontram na personalidade do antissemita e seus estudos sobre a infância que ajudam a entender o porquê “o pequeno burguês ou o burguês podem vir a desejar profundamente o fascismo e a procurar a alienação” (HABER, 2001, p. 52). De Marx, percebem um entrelaçamento entre a base econômica do capitalismo monopolista (ALVES JR, 2003, p. 52) e o desaparecimento da consciência moral26.

Para buscarmos compreender como o antissemitismo decorre de algo que está presente desde o início do esclarecimento na racionalidade instrumental, buscaremos nos concentrar especialmente na tese V e ainda na tese VI – seguindo os passos de ALVES JR. no capítulo I de seu Depois de

Auschwitz –, nas quais os autores tratam “do anti-semitismo como fenômeno típico da fase mais avançada do esclarecimento, compreendido em termos de mecanismos antropológicos fundamentais: a mímese racionalizada (tese V) e a

projeção pática (tese VI)” (ALVES JUNIOR, 2003, p. 42).

Na verdade ambas as teses estão interligadas entre si e com o próprio caminho tomado pelo esclarecimento descrito no primeiro capítulo da Dialética

26 Ainda que, segundo Haber, haja na análise de Adorno certo distanciamento do marxismo, uma que vez

esse via como neutra a influência da divisão de classe quanto às estruturas psíquicas autoritárias e assim acabou dando mais ênfase aos preconceitos e apegos às falsas crenças que à estrutura econômica, deixando de recorrer, por isso, ao conceito de ideologia de Marx. (Cf. HABER, 2001, p. 64).

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do Esclarecimento, já que a repressão da mímese acompanha a formação do

sujeito e da racionalidade em todas as suas fases, e a projeção pática é somente uma decorrência dela, assim como a mímese racionalizada:

Adorno e Horkheimer descrevem a gênese da “mímese racionalizada” como resultado de um processo que se confunde com o esclarecimento, no qual distinguem três fases: a primeira corresponde à mímese originária, o puro adaptar-se do organismo a outro organismo; a segunda sendo correspondente a uma manipulação organizada dessa mímese pelo rito mágico e, por último, a mímese substituída pelo trabalho, como práxis racional. A mímese racionalizada do anti-semita seria uma recuperação regressiva daquela mímese incontrolada, que havia sido proscrita pela civilização (ALVES JUNIOR, 2003, p. 42).

Assim, na mesma medida em que os impulsos miméticos vão se tornando cada vez mais controlados, a mímese incontrolada permanece e, na verdade, ainda molda o sujeito, tanto na medida em que o homem civilizado ainda é o retrato do rigor com que precisou tratar a natureza para dela se proteger, se assemelhando a ela, e ainda na forma da idiossincrasia presente em qualquer sujeito, isto é, aquilo que chamamos temperamento, mas que decorre muito mais de impulsos reprimidos do que propriamente de uma pretensa natureza, não obstante toda a repressão dessa natureza:

Na idiossincrasia, determinados órgãos escapam de novo ao domínio do sujeito; independentes, obedecem a estímulos biológicos fundamentais. O ego que se apreende em reações como as contrações da pele, dos músculos e dos membros não tem um domínio total delas. (...) Quando o humano quer se tornar como a natureza, ele se enrijece contra ela. A proteção pelo susto é uma forma de mimetismo. Essas reações de contração no homem são esquemas arcaicos da autoconservação (DE, p. 149).

Essa articulação entre a mímese da repressão, que por sua vez é a própria repressão, a qual Gagnebin (1993, p. 74) chama “mímesis segunda” e a mímese originária é o que volta com toda violência no antissemitismo e é explorada pelo antissemita através da mímese racionalizada.

Esta, se trata da forma organizada que os antissemitas tratavam a mímese: seja na forma de seus rituais repletos de simbologia, que lembram aqueles rituais mágicos da antiguidade, e que exerce forte apelo estético para a identificação das massas, seja na forma como desperta aqueles impulsos regressivos e os dirige a um alvo: no caso, os judeus.

55 O primeiro formato de mímese racionalizada é chamado por Adorno e Horkheimer de mimese da mimese, pois para além de toda disciplina ritual nos congressos nazistas, com “símbolos engenhosamente arquitetados, próprios a todo movimento contra-revolucionário, as caveiras e mascaradas, o bárbaro rufar dos tambores, a monótona repetição das palavras e gestos” (DE, p 152), que são imitações das práticas mágicas, há ainda a mímese caricatural feita pelo antissemita daquilo que mais odiavam nos judeus: seu comportamento mimético, gestual, a entonação de sua voz, considerados como natureza a ser reprimida pelo civilizado.

O Führer, com sua cara de canastrão e o carisma da histeria orquestrada puxa a roda. Sua representação realiza substitutivamente e em imagem o que é vedado a todos os demais na realidade. Hitler pode gesticular como um palhaço; Mussolini pode arriscar notas erradas como um tenor da província; Goebbels pode falar com a fluência do representante comercial judeu que ele exorta a assassinar; Coughlin pode pregar com a fé do Salvador, cuja crucifixão ele descreve a fim de que se volte sempre a derramar o sangue. (DE, p. 152).

O sentido das formulas fascistas seria assim, além de exercer forte poder de atração por sobre as massas27, o de possibilitar o comportamento mimético, pois, segundo Adorno e Horkheimer, o civilizado só poderia se entregar ao prazer da mímese quando “o interdito é suspenso por uma racionalização a serviço de fins real ou aparentemente práticos” (Ibidem, idem), quais sejam esses fins: neste caso, destruir aquilo próprio que é imitado.

Entretanto, tais celebrações que visam dar um sentido de comunidade ao nazismo, só conseguem atingir seu objeto por se dirigirem justamente aos desejos mais secretos da humanidade reprimida, isto é, suas idiossincrasias.

A idiossincrasia na fase mais avançada do esclarecimento corresponde ao ódio do civilizado por tudo aquilo que seja traço da natureza reprimida: desde os gestos que incluem contato direto como o tocar, passando pelo cheiro, até modos de vida que recordem um modo de viver mais livre e natural, como o de povos nômades, saltimbancos e ciganos 28. Isso “provoca a fúria porque, em face das novas relações de produção, ela põe amostra o antigo medo que foi preciso esquecer para nelas poder sobreviver” (Ibidem, p. 150).

27 Algo também explorado pela indústria cultural, como veremos a frente. 28 Cf. DE, respectivamente p., 150, 152, 151 e 149.

56 “A mera existência do outro é motivo de irritação. Todos os outros são ‘muito espaçosos’ e devem ser colocados em seus limites” (Ibidem, p. 151). Ou seja, esse ódio idiossincrático é justamente um impulso mimético correspondente ao ódio pela civilização causado pela repressão da natureza que se projeta sobre o outro uma vez que:

Os homens obcecados pela civilização só se apercebem de seus próprios traços miméticos, que se tornaram tabus, em certos gestos e comportamentos que encontram nos outros e que se destacam em seu mundo racionalizado como resíduos isolados e traços rudimentares verdadeiramente vergonhosos. O que repele por sua estranheza é, na verdade, demasiado familiar (DE, p. 150).

Ora, além do fato de que tais impulsos de ódio se apontam ao judeu – e esta é a segunda forma de mímese racionalizada que depende da anterior para dirigi-la a um “alvo” e da idiossincrasia para ser dirigida –, qual é a especificidade do antissemitismo uma vez que tal tendência se trata de algo universal?

A questão é que o antissemita é o sujeito idiossincrático que não faz mais o balanço de seus atos, perdendo a consciência da realidade – o que caracteriza uma projeção pática. Adorno e Horkheimer definem “projeção pática” da seguinte forma:

Segundo a teoria psicanalítica, a projeção patológica consiste substancialmente na transferência para o objeto dos impulsos socialmente condenados do sujeito. Sob a pressão do superego, o ego projeta no mundo exterior, como intenções más, os impulsos agressivos que provêm do id e que, por causa de sua força, consistem em ameaça para ele próprio. Deste modo, consegue livrar-se deles como uma reação a esse mundo exterior, seja imaginariamente pela identificação com o pretenso vilão, seja na realidade sob o pretexto de uma legítima defesa (DE, p. 158).

Portanto, o fenômeno do antissemitismo é o fenômeno da idiossincrasia generalizada e de um retorno do reprimido.

Enquanto que, segundo Adorno e Horkheimer, aludindo à teoria de Freud, projetar é algo natural, estando isto intrincado no ato da percepção e do planejamento racional, o antissemita é o que simplesmente projeta para o exterior aqueles impulsos que condena em si mesmo. De acordo com Alves Jr. (2003, p. 52), isso é o que define a teoria psicanalítica da paranoia, à qual os

57 autores têm em mente, o que significa, em linhas gerais, que o antissemita é um sujeito reprimido e que projeta um mundo à sua imagem e semelhança no qual realmente acredita – o que caracteriza um delírio paranoico, no qual o sujeito não tem mais a percepção de si e do mundo.

Portanto, o que diferencia a projeção pática do antissemita da projeção “saudável” é a ausência da reflexão: “como não reflete mais o objeto, ele não reflete mais sobre si e perde a capacidade de diferenciar. (...) Ele dota ilimitadamente o mundo exterior de tudo aquilo que está nele mesmo” (DE, p. 156). E aqui a ausência de reflexão coincide com a ausência de consciência moral decorrente da fase avançada do esclarecimento unilateral da racionalidade instrumental. Conforme diz Alves Jr.:

O anti-semita é aquele indivíduo deformado pelas tendências objetivantes do esclarecimento de uma maneira tão extrema que não realiza mais o balanço de suas demandas pulsionais e a (perdida) consciência moral, percebendo o mundo em torno como seu campo- de-caça, dotando-o das qualidades de sua própria vida interior, indiferenciada e violenta (ALVES JUNIOR, 2003, p. 49).

Desta forma, o “judeu” que é imitado de forma caricatural, mas também caçado e exterminado em massa é uma ficção inventada pelos chefes nazistas, consciente ou inconscientemente, com vistas a torna-lo responsável por toda a ameaça à civilização (sob o formato da racionalidade instrumental) e, no caso, à sociedade ariana alemã, quando na verdade, sob a repressão que o ego ou o sujeito confere sobre os impulsos, é o próprio antissemita que projeta um judeu dotado de tais impulsos e é, por isso, considerado “reles”, “sujo”, “animalesco”. Ou seja, trata-se de uma espécie de revolta da natureza, conforme tratamos no primeiro capítulo, entretanto desta vez totalmente controlada e dirigida por todo um aparato estético que visa coloca-la a serviço de determinados fins sob os mais diversos pretextos imaginados pelos nazistas – isto é, um aparato estético que serve de instrumento racionalmente pensado como forma mimética de manipulação mimética dos indivíduos.

Não que, de fato, Adorno e Horkheimer não apontem características essenciais dos judeus que os tornaram a vitima escolhida pela projeção nazista:

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Sua imagem, na medida em que é a imagem do que já foi superado, exibe traços da felicidade sem poder, da remuneração sem trabalho, da pátria sem fronteira, da religião sem mito. Esses traços são condenados pela dominação porque são a aspiração secreta dos dominados (DE, p. 164).

Entretanto, ainda há uma causa, além de todo o esplendor da formula nazista para adesão em massa à sua causa, que causa uma espécie de paranoia coletiva racionalmente manipulada, e as características odiadas nos judeus. Adorno e Horkheimer assinalam que:

As formas de consciência paranoides tendem à formação de alianças, frondas e quadrilhas. Seus adeptos têm medo de acreditar sozinhos em seu delírio. Projetando, eles vêem por toda parte conjuração e proselitismo. Os grupos estabelecidos sempre se comportaram paranoicamente com relação aos outros (DE, p. 162).

Isto é, o antissemitismo e o nazismo que o explora e o desenvolve nos indivíduos, surge como um ideal de reconciliação com a natureza (ainda que, isso possa oferecer forte atração inconscientemente), no sentido de um ideal de comunidade – ao qual remetem os comícios do Führer e o fato de todos servirem a uma causa comum –, na possibilidade imaginada pelo antissemita de dar vazão aos impulsos reprimidos, e assim, uma esperança de liberdade.

Se pudermos aqui nos livrar da repulsa que o nazismo, o genocídio de milhões de pessoas, o arianismo e a ideia de uma “raça” superior qualquer que seja ela e o etnocentrismo causam até hoje, podemos perguntar se o antissemita alcançou a tão almejada liberdade e reconciliação com a natureza.

Ora, sob tal ponto de vista, o antissemitismo não realiza muito mais do que o imediatismo do qual tratamos no capitulo anterior: trata-se novamente do retorno dos impulsos sob a forma regredida, e aqui, da pior forma possível, e de uma passividade do sujeito perante uma manipulação tanto externa – realizada pelo aparato estético nazista, ainda que de forma “racional- instrumental” –, quanto pelos próprios impulsos tornados patologias.

Portanto, ainda que pensássemos, por um motivo sombrio qualquer, que o nazismo foi uma boa política nacionalista de Estado e que a matança dos judeus era justificada, ainda assim, do ponto de vista do problema tratado aqui,

59 poderíamos questionar a falsa reconciliação, a dominação e a manipulação dela decorrente.

Para concluir esse subcapítulo e darmos prosseguimento a analise de mais uma tentativa ou promessa de reconciliação, adiantamos a saída para tal situação, conforme apontada por Adorno e Horkheimer:

A emancipação da sociedade relativamente ao anti-semitismo depende da possibilidade de elevar ao conceito o conteúdo da idiossincrasia e de tomar consciência de seu absurdo (DE, p. 148).

Relembrando que precisamos entender o antissemitismo não como um fenômeno isolado espaço-temporalmente, e o judeu não como um determinado grupo, mas sim o antissemitismo como uma tendência universal decorrente do próprio retorno do reprimido pela civilização da racionalidade instrumental, isto é, a sociedade administrada, e o judeu como qualquer pessoa, objeto ou grupo que tenha certa proximidade com o que foi reprimido, mas que ainda assim, escape parcialmente à dominação.

Tendências de reações semelhantes às do antissemita são perceptíveis ainda no até hoje corriqueiro ódio do “civilizado” pelos proscritos pela sociedade e por aqueles que buscam modos alternativos de vida, como os, cada vez mais raros ciganos e, ainda, os artesões hippies, e nas politicas de “higienização” muito populares entre os burgueses das grandes cidades.

2.3 – Reconciliação às avessas – A Indústria Cultural como