4.2 Ice-Tethered Mooring and Tidal Analysis
5.4.4 Stability of the 79NG Ice Tongue
Em primeiro lugar, é importante dizer que Adorno acreditava que a reflexão a respeito do belo natural não somente era central na estética como disciplina, mas “inalienável na teoria da arte” (TE, p. 101), uma vez que a natureza e a obra de arte são antíteses puras, que “referem-se uma à outra: a natureza à experiência de um mundo mediatizado, objetivado; a obra de arte à natureza, ao representante mediatizado da imediatidade” (Ibidem, Idem). Então, se trata de um assunto de suma importância aqui. Além do mais, a respeito de sua relevância para o tema da liberdade, Adorno diz que “o belo natural desapareceu da estética através da dominação crescente do conceito de liberdade e de dignidade humana” (Ibidem, Idem), isto também torna o inseparável da discussão que travamos aqui.
Adorno pensava o belo natural “é o vestígio do não-idêntico nas coisas, sob o sortilégio da identidade universal” (Ibidem, p. 117) e que a sua existência – de algo que “aparece como algo mais do que o que existe literalmente no seu lugar” (Ibidem, p. 114) – aponta para uma instância ainda não completamente dominada e demonstra a possibilidade de uma experiência de primado do
objeto45 e isto, em última instância, se relaciona com a ideia de uma relação
81 diversificada com o sensível, diferente daquela dada pelos princípios utilitários da racionalidade instrumental.
A experiência da natureza, enquanto experiência estética do belo natural aparece como aquilo que há de mais imediato46, indecifrável, impreciso,
indeterminado, e que se subtrai à identidade conceitual. É, assim, a experiência daquilo que no objeto (natureza) transcende a sua mera adequação com o conceito. Desta forma, a experiência do belo natural é a “rememoração” de um estado isento de dominação, anterior à separação entre humanidade e natureza. É experiência não reduzida e que escapa aos princípios da mera identidade, portanto. O belo natural comunica, assim, a impossibilidade da total identidade entre o objeto e o pensamento e que algo escapa a este em sua pretensão de abarcar a totalidade do objeto. Por isso, diz Adorno, perante ele a própria expressão “‘Que belo’ (...) fere a sua linguagem muda e diminui a sua beleza” (Ibidem, p. 111)47.
Porém, embora essa “rememoração” de uma porção de natureza não completamente dominada seja importante para a tomada de consciência do não-idêntico, da rememoração da natureza no sujeito e do estado não livre em relação ao sensível, ainda não se pode tirar daí a possibilidade de uma reconciliação com a natureza, nem tampouco a ideia de liberdade: falta-lhe a mediação necessária para se elevar do estado originário de total passividade em relação à natureza. Portanto, a experiência do belo natural é ambígua. Diz Adorno:
O facto de a experiência do belo natural, pelo menos segundo a sua consciência subjetiva, se manter aquém da dominação da natureza como se ela fosse originalmente dada, parafraseia a sua força e a sua fraqueza. A sua força, porque ela relembra o estado de não- dominação, que provavelmente nunca existiu; a sua fraqueza, porque ela se dissolve precisamente assim no amorfo de onde se elevou o gênio que só podia caber em sorte àquela idéia de liberdade realizada num estado de não-dominação. A anamnese da liberdade no belo natural induz em erro porque espera a liberdade da servidão antiga (Ibidem, p. 107).
É por isso que Adorno retirará da experiência estética da arte, e não da do belo natural, sua noção de um contato não-distorcido com o não-idêntico. A
46Neste ponto há certa semelhança com a “coisa em si” kantiana. Cf. DUARTE, 1993, p. 147. 47 Isto se relaciona ao caráter de mutismo da obra de arte, o qual citaremos no item 2.3.
82 arte, pensa o filósofo, busca imitar o belo natural e recriar as condições de sua experiência estética, especialmente recuperando o caráter de enigma48 e de
expressão do primado do objeto presentes naquele. Isto é, a arte busca manter a imediaticidade, a espontaneidade e o caráter mimético presentes na natureza, mas por haver nela uma intencionalidade humana, envolve um elemento racional, mediado.
Isto torna possível, que a arte mantenha uma relação não violenta com o não-idêntico, porém sem que recaia em um “ingênuo, pretenso, retorno à natureza” (DUARTE, 1993, p. 145).
Assim, a arte se assemelha ao belo natural por ser também experiência de imagens, na qual há uma renúncia aos fins da autoconservação (TE, p. 106). Se a natureza, enquanto bela, não é tomada pelo sujeito como objeto de ação, como matéria para qualquer uso, como algo a ser conceituado (mesmo porque isto seria impossível se se quisesse manter a experiência estética), a arte procura também ser uma “expressão que não incluiria intenção humana” (Ibidem, p. 125) e se coloca como algo “sem utilidade”, algo que não tem um sentido previamente expresso e que não é idêntica a si mesma.
Por outro lado, ao contrário do belo natural, a arte não carece de mediação. Se assim não fosse, ela levaria a uma passividade ingênua diante do objeto. O trabalho artístico é o próprio modelo dialético adorniano, compatível com a liberdade do sujeito, mas sem que essa se torne rigidez perante a natureza, nem pura imediacidade irracional.
A pura imediaticidade não é suficiente para a experiência estética. Além da espontaneidade, necessita também da intencionalidade, da concentração da consciência; não se pode eliminar a concentração (Ibidem, p. 112).
Trata-se mesmo do primado de objeto. Que significa que o sujeito se relacionará com o objeto (e isto inclui seus próprios impulsos) abrindo-se sim àquilo que há de não-idêntico, às suas inúmeras facetas, em uma relação assimétrica a favor do objeto (DUARTE, 1993, p. 147), porém de forma ativa, em um trabalho reflexivo e diretivo – veículo para a expressão artística (TE, p. 125).
83 Isto é, o trabalho estético será dialético49, feito de momentos em que o
sujeito reflexivamente conduz e se deixa levar. Isso significa que o artista não fechará sua obra às mais diversas possibilidades interpretativas. Nesta medida, tanto a experiência estética da obra, quanto o juízo estético a respeito da arte – atividade notadamente conceitual –, serão sempre uma experiência da distância entre o real e o que aquilo que o conceito promete, ou seja, uma experiência do não-idêntico, do natural: não se pode abarcar a totalidade da obra de arte.
Aqui a ideia de reconciliação não se dá mais a partir da imagem de liberdade advinda de uma natureza selvagem, anterior à razão, mas a partir desta, em um para além da ordem atual. Se do belo natural se origina a expressão de um possível estado reconciliado e livre, retomado pela arte, a relação entre esta e a liberdade se dá em uma afinidade dialética entre a razão e a natureza. Sendo que somente a razão pode desembaraçar o sujeito da total passividade em relação a esta.
É clara, portanto, a importância da experiência do não-idêntico, tal como a arte a torna possível, para a possibilidade da experiência de liberdade, como experiência não reduzida pela racionalidade instrumental à simples tarefa de buscar compreender, isto é, dominar o objeto, bem como de sua necessária tomada de consciência da situação em que se encontra o sujeito.
A obrigação de pensar a distância que separa o conceito de uma humanidade realizada do estado de coisas atual apenas é possível através daquela esperança liberada pela experiência do contato com aquilo que, no objeto, transcende a sua mera adequação ao conceito (ALVES JÚNIOR, 2003, p. 153).