1 Innledning
4.3 Transtekstualitet
4.3.1 Språklige og tematiske forbindelser i forfatterskapene
Paralelamente ao mito de origem “milagre das flores” e às motivações pessoais para participar da festa por promessa, encontramos também diversas narrativas sobre São Benedito atreladas ao que chamam do lado “vingativo” do santo. Ao falar sobre a falta de comprometimento do devoto que não cumpre sua promessa, Betolaca descreve o que acontece.
Betolaca: (…) Ele não castiga mas dá um aperto ‘olha camarada, tu tá me devendo!!’ (risos).
EK: Tem histórias assim?
Betolaca: Olha, que não cumpriu eu nunca soube. Bom, eu cumpri com a minha, por enquanto tô cumprindo. Só deixei esse ano por motivo dessa cirurgia que não me deixou, aqui, sei lá o que o médico achou [mostra a cicatriz que vai do peito até o umbigo].
[Betolaca. Rei da Congada. Pré-entrevista Sobre a Congada de Ilhabela, 06/2005] A devoção e o temor ao santo são muito fortes. O atual Rei da Congada não demonstra lembrar promessas não-cumpridas. Mas esse temor também é associado a determinado passado no qual
170
os participantes da Festa pareciam estar mais ligados às coisas de São Benedito e, segundo dizem, havia mais respeito.
Betolaca: (…) Mas você sabe essa molecada de hoje não coisa mais, antigamente quando passava a procissão de São Benedito ou outro santo qualquer em frente um armazém, a porta era arriada.
Eu: De medo?
Betolaca: Não! Respeito. O dono arriava as porta e depois que passava ele abria a porta, agora não. Teve um ano que tavam bebendo e batendo tambaque, ‘ei, ei, que é isso, batendo tambaque? Depois que vocês sair daqui tudo bem’ Mas eu não sei, eu sinto que a congada, (...) Quando eu começei na congada de rei, eu saí daqui pra fazer ensaio lá, ‘dá pra vir fazer um ensaio aqui?’, então eu fui. Do jeito que fui, foi o jeito que voltei [risos], as pessoas parece que não se interessam, não sei, principalmente se tiver um jogo de futebol, aí esquece.
[Grifos nossos. Betolaca. Rei da Congada. Pré-entrevista Sobre a Congada de Ilhabela, 06/2005.]
A devoção a São Benedito esteve sempre atrelada ao medo e ao respeito. Mesmo que as narrativas associem frequentemente as histórias de vida a um passado mais supostamente “mais devoto”, observa-se que o tom utilizado pelos mais velhos para falar de São Benedito e suas histórias demonstram um poder e uma influência talvez esgarçados no presente. A São Benedito são associadas qualidades muitas vezes contraditórias. Visto de um lado como o protetor dos negros, dos escravos e dos humildes, de outro, como alguém que possuía poderes luciferinos.
Conheço histórias desse lado vingativo de São Benedito. Porque no dia da congada, chovendo, chuva e vento, tinha muito devoto que pedia pra São Benedito pra acalmar aquele vento e fazer sol e ele fazia. Isso? Deus não obedece, deus é deus. E São Benedito não, ele faz um pedido, de coisa absurda, coisa que é impossível ele faz. Por que? É diabólico!
[Grifos nossos. Bengesio. Ex-Rei da Congada de 1978 a 1981. Segunda pré- entrevista Sobre a Congada de Ilhabela, 06/2006.]
Nas narrativas, o passado é descrito pelos mais velhos como um tempo em que havia mais consideração a São Benedito, mais respeito e mais devoção, ao mesmo tempo também se tinha mais medo das possíveis ações do santo. Sua associação com o diabo, apesar de serem menos frequentes, também acabam mostrando um componente contraditório ligado a São Benedito. Em geral, os participantes da Festa se referem ao santo tornando positiva suas qualidades. Enganar a autoridade por algo nobre é uma ação positivada na medida em que há empatia com
um sujeito oculto nessas narrativas sobre o “milagre das flores”: o humilde, pobre e faminto. Talvez a necessidade em se cumprir as promessas ao santo estejam associadas também ao comprometimento com as necessidades dos mais pobres, ao mesmo tempo em que supõe-se também que as flores enquanto metáfora se tornem novamente o alimento, um alimento espiritual.
Tem que cumprir sim [a promessa], agora outro dia lá igreja eu falei assim, tava conversando, ‘São Benedito, o senhor está muito devagar [risos], tá muito devagar, porque ele mostra o castigo mas antes não, ele mostrava mas era na hora, sabe? Ele era mais bravo. Tem coisas que ele está devagar, tinha que ser na hora como antes, mas não é, mas ele dá o castigo.
[Grifos nossos. Isalva. Irmã do ex-Rei Mané, Chefe da Ucharia de São Benedito. Pré-entrevista Sobre a Congada de Ilhabela, 06/2006]
O não cumprimento da promessa poderia deflagrar a ira do santo e assim despertar seus poderes “diabólicos”, daí o temor. Na dúvida, a devoção parece ser mais segura. Supõe-se que o santo tem poderes para realizar os pedidos dos devotos, daí os pedidos. A promessa do cumprimento é a contrapartida necessária: um processo de troca, dádiva. Na Ucharia de São Benedito, as cozinheiras também estão intrincadas nessa cadeia de trocas.
Tudo vai o nome dele. Os dois que estão ali na cozinha, tudo vai o nome dele pra não deixar faltar feijão e não se sabe quantas pessoas vem comer e então agora está perto, né, então já pode pedir que ele escuta.
[Grifos nossos. Isalva. Irmã do ex-Rei Mané, Chefe da Ucharia de São Benedito. Pré-entrevista Sobre a Congada de Ilhabela, 06/2006.]
Portanto, todas as ações são, de certa maneira, determinadas pela ação de São Benedito. Pelas ações ou pelas possibilidades de ações. Por isso, tudo leva seu nome. Outras narrativas salientam as dimensões da Festa e da devoção, qualidades do santo, sua capacidade de operar milagres, de proteger e curar.
Era uma festa muito enorme e tinha muita devoção e tudo era assim, o que se pedia a São Benedito era aquilo mesmo, não adiantava sair daquilo. Quer dizer que agora ele faz, mas de primeiro ele mostrava o milagre na hora, na hora mesmo, não deixava pra depois e conforme fizesse já recebia.
[…]
Atende [os pedidos]. É um santo que faz milagre demais, milagre demais e todos tem fé nele, eu tenho fé nele até hoje. E antes do dia que aconteceu isso na festa, né, então teve a festa e no dia foram todos os congos, e tem congos que de primeiro tinha padre que achava que não devia entrar fantasiado na igreja, então
172
foram parados pelo pessoal da Vila, aqueles mais velhos, mas ah, se não tiver então não vai, não tem missa, nem procissão, nem festa nenhuma, daí então eles aceitaram. Tinha um delegado que meu pai [Panilo] chegou (…) aí falou que depois que foram pegar São Benedito ele soltou o menino Jesus no chão e quase caía, daí vai e tal, arruma, arruma, outra vez, ‘como é que pode’, puseram direitinho, quando pegaram pra carregar, o menino quase caía de novo, aí meu irmão [Mané] falou, ‘ isso aí é coisa que vai haver, pode ficar sabendo’, aí na terceira vez ele quase jogou mesmo. ‘São Benedito [aqui] tem a vossa festa, sabe, a gente não é culpado do que vai haver, e tal, pode ser que seja uma coisa, perdoe’, começaram assim, aí colocaram e a procissão não saiu mais. Quando chegou na volta esse negócio já tava abrindo pra tirar. Tudo é assim, parece uma coisa avisada que havia alguma coisa, mas a festa é uma coisa muito enorme.
[Grifos nossos. Anespia. Irmã do ex-Rei Mané e organizadora da Ucharia de São Benedito. Pré-entrevista Sobre a Congada de Ilhabela, 06/2005]
No ano de 1945, o frei Antonino Zimmermann, vigário das três paróquias de Ilhabela, São Sebastião e Caraguatatuba proibe a entrada dos congueiros na igreja matriz. Segundo as narrativas de participantes da Festa, este ato teria desagrado São Benedito. Certos ocorridos são interpretados pelos devotos como sinais. O santo demonstra ativamente o seu descontentamento. O ato de São Benedito largar o menino Jesus foi interpretado como um desses sinais: desamparo, falta de proteção. Em outra narrativa o Rei Panilo também é protagonista, um beija-flor é o portador de alguma mensagem.
Naquela época eu lembro que dancei um ano só com ele [Panilo], como cacique de baixo, eu era cacique, teve um momento que nós fomos pra igreja, tinha a missa, dentro da igreja, depois da missa a gente fazia a meia lua e me aparece um beija-flor. Esse beija-flor corre, dá a volta na igreja e pousou na cabeça dele, do seu [Panilo], esse beija-flor, todo mundo olhou (…) e o beija-flor some. Na hora de nóis sair, pegar o andor, a porta da igreja é alta, a gente com o andor nas costas, a gente abaixava o andor no chão e a coroa batia em cima, não passou. Pô, aquilo me deu um troço esquisito, nunca vi, não cabia as coisas. Será que o mundo vai acabar? A mulher [Espersia] do seu [Panilo] caiu. Desmaiou, (…) levaram ela pr’uma casa, de Maria de Chico, do lado, deram perfume, antigamente davam essas coisas pra acordar, pegavam pena de galinha, né, faz aquele cheiro forte, queimavam pra ela cheirar, foi indo, foi indo. Depois que aconteceu tudo isso a gente saiu tranquilo com o andor, a porta tava bem alta. Eu não sei se a porta baixou ou se São Benedito cresceu, não sei. Aí, veio o temor. Era um sinal. Que coisa, né? O povo começou a respeitar melhor, se foi isso ou não foi, ninguém sabe até hoje, então… e eu era cacique.
[Grifos nossos. Bengesio. Ex-Rei da Congada de 1978 a 1981. Pré-entrevista Sobre a Congada de Ilhabela, 06/2005.]
Estas duas narrativas protagonizadas pelo antigo Rei Panilo evidenciam os poderes de cura e de influência na ordem das coisas. Quando o santo se desagrada com alguma coisa, isso não é bom
sinal. Muitas das narrativas salientam fatos ocorridos na época do Rei Mané e antes dele, seu pai Rei Panilo. Estes reis protagonizaram juntamente com o Rei Bedé (irmão de Mané) com maior frequência as narrativas dos mais velhos sobre o passado.