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1 Innledning

6.1 Oppsummering og diskusjon

Muitas pessoas participam da Festa, algumas de maneira ativa, produzindo, organizando, angariando donativos, dançando, cantando e tocando. São as pessoas que expressam sua devoção a São Benedito através da organização desta Festa, da doação, do empenho e do desempenho, do capricho, enfim, do trabalho.

A Festa de São Benedito se realiza atualmente no fim de semana mais próximo de meados do mês de maio. No entanto, os preparativos começam meses antes. Isso porque a Festa é realizada quase que totalmente com os donativos dos devotos do santo. Atualmente a arrecadação é organizada por Milardia, que é a responsável pelo recebimento das doações, ao mesmo tempo em que organiza o contato com os comerciantes locais. Essa parte do trabalho é muito importante pois dela depende grande parte do êxito e beleza da festa. A grandiosidade e beleza da Festa se mostra indissociável da demonstração de devoção ao São Benedito. A ele a Festa é feita e em sua honra e glória as belezas se mostram como uma expressão de gratidão pelas graças alcançadas.

Milardia trabalha como coordenadora da Associação Centro de Triagem de Materiais Recicláveis de Ilhabela, funcionária pública pela Secretaria de Meio Ambiente. Paralelamente ao trabalho de conscientização e educação sobre o descarte adequado e reutilização dos materiais recicláveis, Milardia realiza o contato direto com hotéis e pousadas, comerciantes locais e poder público. Certamente uma das maiores redes de relações entre todos os interlocutores que tomei contato, indo desde pessoas mais humildes e “anônimas” até secretários e autoridades locais. Essa rede não se faz em pouco tempo. Mulher de aproximadamente 57 anos, negra, nascida em Bebedouro e habitante de Ilhabela há mais 25 anos, Milardia foi candidata a vereadora nos anos

1990. Sempre muito simpática, bastante conhecida na Ilha, por onde passa encontra alguém conhecido e faz questão de parar para conversar.

Na arrecadação das doações Milardia tem um papel fundamental. Mas isso é apenas uma parte do trabalho. A organização geral da Ucharia de São Benedito, nos anos em que acompanhamos a festa – de 2004 a 2012 – outras duas pessoas são de fundamental importância. Jodelie e Isalva. Jodelie é certamente a pessoa mais importante no que diz respeito à feitura da comida em geral, ocupa o cargo de Chefe da Cozinha, enquanto Isalva, a grande herdeira da tradição dos antigos reis da Congada de Ilhabela, fica encarregada da organização geral do banquete e recepção dos convidados. Estas três pessoas juntamente com Lisa e sua família extensa, Anfivia, família dos Reis, famíla Cruz, famíla dos Santos, da Silva, Corrêia e tantas outras famílias e pessoas que participam, com maior ou menor afinco, mas sempre com a mesma dedicação a São Benedito e à memória dos antigos que faziam a Festa.

Jodelie, o Chefe da Cozinha da Ucharia é também Zelador de Santo do Terreiro Rancho Velho em Ilhabela. Baiano, vindo para São Paulo ainda criança, Jodelie teria sido feito no santo em Santos, descendente das águas do Bate Folha, tradicional candomblé de Salvador (Bahia). Abriu sua casa na Ilhabela no início dos anos 1980 quando já era envolvido com a Ucharia de São Benedito.

Dona Isalva é a filha mais nova ainda viva de Panilo e Dona Espersia. A mãe de Isalva foi parteira muito conhecida na Ilhabela, família antiga de ex-escravos de fazendas da própria Ilha, hoje em seu nome é dedicada uma Escola Municipal. O pai de Isalva foi Rei da Congada por muitos anos no início do século XX e responsável por passar ao filho Mané e seu irmão Bedé os segredos dos antigos a respeito da Congada na Festa de São Benedito. Na época do início de nossa pesquisa tivemos contato com Isalva e com sua irmã mais velha Anespia, que veio a falecer em 2008 durante nossos trabalhos com mais de noventa anos de idade, outra detentora de grande conhecimento e memória. Ambas eram as duas únicas irmãs ainda vivas do casal Panilo e Espersia. Desde os trabalhos como parteira feitos por Dona Espersia, a família lida com os ofícios da cura. Até hoje muitos filhos, sobrinhas e netas trabalham em clínicas ou hospitais da região.

Filha de Bendita, Dona Espersia nasceu provavelmente em 1882 e faleceu em 1977. Teria se casado com Panilo em 1898 tendo sido mãe de 26 filhos próprios e 4 adotivos. Segundo contam, esta que teria sido uma das principais responsáveis por boa parte dos partos realizados em Ilhabela desde o século XIX, não via obstáculos para realizar seu trabalho se locomovendo a pé ou de canoa para socorrer as pessoas.

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Dona Lisa é sobrinha de Dona Isalva e uma participante também muito ativa da cozinha da Ucharia, bem como suas filhas, netos e sobrinhas. Dona Lisa é casada com Seu Josam, ambos completaram Bodas de Ouro em 2006. A despeito de uma completa entrega para a Ucharia por parte de Dona Lisa, Seu Josam não tem papel protagonista na Festa.

De grande importância para a Festa é a participação de Ajocruz. Em 2004 quando iniciamos nossos contatos em Ilhabela, Ajocruz nos foi apresentado por Seu Jolício. Marinheiro de uma embarcação particular, Ajocruz realizava o papel de Embaixador de Luanda na Congada, cargo que lhe havia sido passado por Bengesio. Ajocruz é de família tradicional de caiçaras de Ilhabela muito devotos de São Benedito. É o caso de sua irmã Dona Memardes, que trabalha na Ucharia e também como costureira das fardas dos congos. Aprendeu a costurar sozinha as roupas com sua madrinha também devota de São Benedito. A atividade do Giro da Folia era muito acompanhada por sua família e também por isso que ambos desde pequenos se interessaram em acompanhar a Bandeira de São Benedito pelas fazendas. Igualmente devotas do santo são as filhas de Memardes, Maia e Miercasia. Ambas foram Rainhas da Congada quando tinham seus 14 anos de idade.

Betolaca é o atual Rei da Congada. Exercendo a função desde o final dos anos 1980 quando o cargo lhe foi passado por Bengesio. Senhor octogenário, negro, filho e sobrinho de congueiros, vive na cidade de Santos há quase três décadas quando para lá se mudou a fim de trabalhar na Petrobrás, empresa da qual hoje é aposentado. A despeito da idade avançada e uma doença cardíaca, Betolaca retorna para Ilhabela todos os anos por ocasião da Festa de São Benedito que participa com muito afinco.

Bengesio teve significativa importância para a Congada passando por diversos “papéis” ao longo de sua vida. Senhor muito simpático e falador, adorava recitar versos tirados de um enorme repertório que misturava rezas, cantos, martírios, alvoradas, folias, embaixadas e outras falas da Congada. Devido ao fato de ter passado por todos os papéis importantes da encenação, Bengesio conhecia de memória praticamente todo o “texto” da Congada. Seu Bengesio faleceu em 2008 quando ainda estávamos finalizando o documentário e em plena pesquisa de campo deste trabalho. Quando o conhecemos estava afastado da Congada mas muitas pessoas nos indicavam vivamente conversar com “o senhor que mais sabe sobre a congada”. Filho de pai caucasiano com mãe caiçara, se tornou Rei da Congada em 1978 quando se deu a intervenção que culmina na saída do Rei Mané. Além de grande narrador, versista e músico, este experiente marinheiro também fazia a Folia de São Benedito, o Martírio e a Alvorada. O motivo de seu afastamento da Congada foi um assunto mal explicado e mal entendido por alguns anos. Em suas primeiras entrevistas, Bengesio mencionava que havia saído por questões políticas.

Posteriormente disse que além de um suposto motivo político, sua esposa e seus filhos haviam se convertido para a Igreja “Deus é Amor”. Com a família convertida, Bengesio teria sido obrigado a largar a Congada.

Memas, senhor também octogenário e negro, filho e sobrinho de congueiros antigos, foi pescador, peixeiro e estivador no porto de Santos. Memas é mais um caso dos que saíram de Ilhabela para trabalhar em Santos, atualmente vive em São Vicente junto de sua companheira e seu filho, onde trabalha recolhendo materiais recicláveis. Congo de baixo, Memas é sempre muito aplaudido quando dança Congada, certamente por seus passos diferenciados e seus volteios que não vemos nos participantes mais novos. Memas é também marimbeiro e tocador de atabaque, no entanto hoje em dia toca apenas esporadicamente ficando mais no baile e nos cantos.

Outros marimbeiros respeitados são Flamares, seu tio Sonares, Mardi e Gebipa. Todos tocam frequentemente tendo sempre um dos quatro empunhando a marimba, principalmente no bailes dos adultos. Filho de um importante marimbeiro já falecido, Flamares que toca marimba e atabaques tem aproximadamente vinte e cinco anos. Já esteve à frente da Congada Mirim e é herdeiro da Barraca do Samba, local tradicional de encontro da boemia de sambistas e compositores de Ihabela. Sonares, negro com aproximadamente sessenta anos de idade, marimbeiro e congo de baixo, filho de Dona Siesara e tio de Flamares. Dança na Congada desde seus 4 anos de idade. Coveiro do cemitério municipal. Também toca surdo nos sambas e pagodes frequentes em Ilhabela

Mardi tem aproximadamente cinquenta anos de idade, branco, atual proprietário de um restaurante na Vila. Mardi toca marimba, atabaques, ajuda na organização da Congada Mirim, além de ser o atual presidente da Associação Cultural dos Congueiros de Ilhabela. Gebipa tem aproximadamente sessenta anos, branco, de família tradicional da elite ilhabelense. Artista plástico também reconhecido e premiado. Já fez exposições em São Paulo e outras cidades do mundo, tendo diversas obras suas em praças públicas da Itália, Portugal, Suíça e Espanha. Fez uma grande exposição no Memorial da América Latina em 2006 homenageando grandes personalidades que lutaram pela paz. Este tocador de marimba, que muitos dizem ser um dos melhores que atualmente existem na Congada, foi nomeado pela Câmara Municipal como Embaixador Cultural de Ilhabela e é o pai do atual Embaixador de Luanda que também é congueiro muito devoto e engajado na Festa.

Gapiba, congo de baixo, 65 anos, branco, irmão de Gebipa. Artista plástico reconhecido em Ilhabela e premiado fora dela. Atualmente vive em Fortaleza para onde se mudou para acompanhar seu filho também artista plástico. Sujeito muito conhecer das tradições da Ilha. Era dele a pintura da Bandeira de São Benedito em 2004. Gapiba e Gebipa são irmãos de Gegopi que

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também é um participante da Festa e cuja principal atuação é tocar o atabaque. Adrale também é um congueiro importante. Aproximadamente quarenta anos de idade, branco, descendente de caiçaras, professor do ensino municipal, congo de cima. Foi o idealizador, criador e fundador da Congada Mirim em 2000, ideia que foi prontamente abraçada pelos congueiros mais velhos e que continua em plena atividade. Pessoa muito devota a São Benedito e bastante integrada na vida cultural de Ilhabela tendo escrito livros e encenado peças teatrais no município tematizando a cultura caiçara.

Outra pessoa bastante importante no contexto da Ilhabela foi a falecida Ilocora. Autora do primeiro e provavelmente mais importante documento publicado em 1981 sobre a Congada, obra que se tornou uma leitura obrigatória para congueiros e pesquisadores interessados no tema (Correa, 1981). Nascida em 1912 na cidade de São José dos Campos, branca, filha de um delegado paulista que exerce o cargo na Ilha com uma mãe de tradicional família de caiçaras, Ilocora foi secretária de cultura do município por aproximadamente dez anos, cargo que, dado sua inexistência, exerceu extra-oficialmente. Aluna do professor Rossini Tavares de Lima, Ilocora se tornou uma “folclorista” muito respeitada na Ilhabela. Seu livro, a despeito da excessiva descrição em detrimento de momentos mais interpretativos ou analíticos, representou durante anos a única referência sobre o assunto. Sua pesquisa se iniciou na década de 70 e se estendeu por mais de uma década. Nos anos 1980, além de pesquisadora, Ilocora exerce também um papel de organizadora dos ensaios, das roupas e diversos outros aspectos referentes à Congada. Nesse período surgiram as principais mudanças e transformações no contexto tradicional da Congada.

Atualmente os participantes da Festa de São Benedito vivem a expectativa de mais uma sucessão da coroa do Rei da Congada. Muitos rumores de apresentam. Em meio aos boatos, dois nomes ganham importância pela ascendência, são eles Perisano e Resil. Ambos negros com aproximadamente 65 anos de idade, Perisano é o filho do falecido Rei da Congada Mané, que lhe teria confiado a incumbência de retomar a coroa. Já Resil é filho do irmão de Mané – Bedé – portanto ambos são primos entre si e netos de Panilo. Ambos possuem histórias de vida bastante diferenciadas mas com um interessante ponto em comum. Nenhum dos dois permaneceu na Congada, ambos tiveram que se deslocar da Ilha para conseguir uma colocação no mercado de trabalho e agora, já aposentados, voltam para Ilhabela. Perisano sempre esteve mais presente pois viveu e vive em Santos, município relativamente próximo. Resil retornou para a Congada após um afastamento de aproximadamente 50 anos quando esteve morando em Foz do Iguaçú. A despeito das articulações em torno de possíveis nomes para o próximo Rei da Congada, estes dois personagens são representativos dentro do quadro de possibilidades.

Estas são algumas das pessoas que participam da Festa de São Benedito e que nos ofereceram sua interlocução em algum momento. Obviamente aqui consta apenas uma pequena parcela das pessoas que estão todos os anos demonstrando sua devoção através da Festa. Além das pessoas que trabalham na Ucharia e os dançantes e tocadores da Congada, também notável é a presença da audiência. Atualmente essa audiência é constituída por familiares dos dançantes, parentes de ex-congueiros, visitantes dessas pessoas, turistas e turistas proprietários. Novamente, segundo narrativas dos mais idosos antigamente a audiência era constituída exclusivamente por devotos de São Benedito, da Ilha e de fora dela, familiares dos congos e pagadores de promessas. A despeito das práticas que não deixam desaparecer esse traço devocional, observamos hoje uma maior heterogeneidade no que diz respeito à constituição dessa audiência. Encontra-se tanto pessoas notáveis no município por suas famílias tradicionais, políticos, empresários que colhem as vantagens do crescimento do turismo local, proprietários de imóveis e iates que enchem as marinas, quanto os descendentes das famílias que há gerações vêm se dedicando humildemente à devoção ao santo através da Festa.

Entre uns e outros, uma enorme gama de interessados (e interesseiros). Jornalistas, fotógrafos, estudantes, pesquisadores, antropólogos, documentaristas, produtores culturais, músicos, professores, arquitetos, gente do terceiro setor, outros devotos, outros videomakers, etc, etc. Ou seja, a audiência é bastante heterogênea. A princípio pode-se observar cinco categorias de pessoas que se apresentam na Festa de São Benedito: 1) uma “elite” uma formada por políticos, secretários, vereadores e outros ilustres locais; 2) outra “elite” formada pelos integrantes das famílias que tradicionalmente são gestoras da Festa; 3) um grupo formado por “moradores caiçaras” nascidos na Ilha, “moradores não-caiçaras”, ou seja, pessoas vindas de São Paulo, Minas Gerais ou outras cidades e que se tornam proprietários de imóveis e moradores da Ilha; 4) outro grupo formado por “não-moradores”, entre esses os que têm muito interesse na produção de imagens, textos e matérias sobre a Congada porém sem maiores envolvimentos; 5) e por fim, os turistas em geral que, não raro, presenciam por acaso a Festa de São Benedito. Muito comum, por exemplo, pessoas que estão na Ilha por outros motivos cujas datas coincidem com a ocasião da Festa de São Benedito.

Entre essas breves caracterizações de pessoas que encontramos na Festa, pode-se dizer que existem dois núcleos para os quais a audiência tem grande importância. Para os congueiros o público que realmente é importante são os devotos e familiares, e para as cozinheiras e cozinheiros da Ucharia são os que matam sua fome com a comida do santo. Para ambos os núcleos – Congada e Ucharia – o expectador mais importante é o próprio São Benedito.

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