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A partir da atividade exploratória, congregando também as informações levantadas e as reflexões teóricas precedentes, estabelecemos as principais diretrizes para o levantamento de dados, realizado diretamente nos assentamentos e acampamentos da Mesorregião Geográfica do Leste Rondoniense. É preciso ressaltar, entretanto, como diz Kayser (2006, p. 96), que “[...] se esse levantamento deseja atingir o cerne da realidade para coletar elementos necessários à análise e à explicação, ele deverá penetrar nas forças e nas relações de produção,

explorar os níveis ideológicos, político e cultural da dinâmica social”. Essa foi, de forma geral, a postura construída durante o período de investigação direta nas áreas pesquisadas.

Entendemos, assim, que a compreensão da luta pela terra e da territorialização dos assentamentos rurais, após o processo de redemocratização do país, necessitava de uma imersão mais focalizada e profunda, o que foi possibilitado pela realização de entrevistas

semi-estruturadas, entrevistas com informantes-chave10 e história oral11. De acordo com as

exigências da investigação proposta, esses três instrumentos metodológicos se complementaram em uma busca pela dinâmica social, política, econômica, cultural e ambiental dos acampamentos e assentamentos pesquisados.

De acordo com Gil (1999), a utilização da entrevista possibilita vantagens como: obtenção de dados referentes aos mais diversos aspectos da vida social, os dados obtidos são

susceptíveis de classificação e quantificação, oferece flexibilidadequanto à compreensão das

perguntas pelo entrevistado, possibilita captar a expressão corporal do entrevistado, bem como a tonalidade da voz e a ênfase nas respostas.

Alguns cuidados foram tomados para que a entrevista representasse, de fato, um instrumento útil para a pesquisa proposta. O primeiro dos cuidados foi a gravação das entrevistas, fator que permitiu alcançar uma maior qualidade tanto do processo quanto do resultado. As entrevistas com informantes-chave e as histórias orais foram todas gravadas e as entrevistas semi-estruturas o foram parcialmente. Em alguns casos específicos, não foi possível utilizar o gravador, sendo às vezes pela recusa do entrevistado e, outras vezes, pela incompatibilidade do gravador com o ambiente. Mas, de forma geral, o processo de gravação possibilitou o acesso a uma larga quantidade de informações, muitas delas presentes nas entrelinhas dos diálogos.

Outros cuidados foram dispensados à forma de condução da entrevista. Optamos por não controlar rigidamente a fala do entrevistado a partir da estrutura pré-estabelecida do roteiro. Algumas entrevistas foram realizadas em movimento, enquanto observávamos o terreno, a plantação ou os animais do entrevistado. Em outros momentos, as entrevistas foram realizadas após reuniões de cooperativas, associações ou grupos produtivos. Destacamos,

10 Consideramos aqui como informantes-chave: Coordenadores estaduais do MST, Coordenadores de

Acampamentos e Assentamentos, Líderes de cooperativas, grupos coletivos, associações, etc., assim como, lideranças, atuais ou fora de atividade, que participaram de momentos relevantes da luta pela terra no estado de Rondônia.

11 As entrevistas realizadas para este trabalho foram, em vários casos, gravadas e sua utilização autorizada pelos

ainda, que algumas das entrevistas com informantes-chave foram realizadas de forma coletiva, com grupos e não com indivíduos.

Além das entrevistas com informantes-chave e semi-estruturadas, utilizamos, também, em algumas ocasiões, a história oral, no sentido de captar significados mais amplos da luta pela terra e da territorialização camponesa na mesorregião estudada. No que se refere à

história oral, entendemos, acompanhando a colocação de Freitas (2002, p. 15), que “[...]

existem ainda dificuldades no sentido de circunscrever, mais precisamente, os liames e

particularidades dessa metodologia de trabalho”. Nesse sentido, diversas têm sido as

conceituações dispensadas à metodologia e, por isso, requer uma maior atenção em sua utilização.

Freitas (2002, p. 18), por exemplo, conceitua essa metodologia da seguinte forma: “História Oral é um método de pesquisa que utiliza a técnica da entrevista e outros

procedimentos articulados entre si, no registro de narrativas da experiência humana”. Esta

autora subdivide, ainda, a história oral em três gêneros distintos, a saber, a tradição oral, a história de vida e a história temática. A tradição oral seria o testemunho transmitido verbalmente entre gerações. Na história de vida seria feita a reconstituição do passado pelo próprio indivíduo, sobre o próprio indivíduo, podendo abranger a totalidade existencial do informante. A história oral temática, por sua vez, tem caráter de depoimento, não abrangendo necessariamente a existência total do entrevistado (FREITAS, 2002).

Também no sentido de esclarecer as diferentes interpretações que encerra a história oral, Meihy (2005) destaca algumas definições desta metodologia. De forma geral, o autor ressalta que: “História Oral é um processo sistêmico de uso de depoimentos gravados, vertidos do oral para o escrito, com o fim de promover o registro e o uso de entrevistas” (MEIHY, 2005, p. 18). O autor procura, ao mesmo tempo, diferenciar a história oral de outras metodologias/técnicas, como a oralidade, que seriam manifestações espontâneas, sem intenção de registro; e a fonte oral que representaria somente “fonte” por ter sido registrada mecanicamente.

Nesse contexto, entendemos que a história oral compreende uma metodologia mais ampla que, em seu arcabouço engloba diferentes técnicas de pesquisa. Seu uso permite não somente o registro mecânico da história, mas sim, a realização de entrevistas qualificadas com informantes importantes para a investigação pretendida. A utilização da história oral fornece um novo caráter para a construção dos trabalhos acadêmicos, pois valoriza o depoimento dos sujeitos da investigação.

A presença do passado no presente imediato das pessoas é a razão de ser da história oral. Nessa medida, a história oral não só oferece uma mudança do conceito de história, mas, mais do que isso, garante sentido social à vida de depoentes e leitores, que passam a entender a sequência histórica e se sentir parte do contexto em que vivem. (MEIHY, 2005, p. 19).

Entendemos a história oral como uma metodologia de apreensão ampla do passado, tendo este uma continuidade na atualidade. As entrevistas realizadas não estiveram restritas à vida da pessoa, mas representariam o contexto sócio-histórico de convivência. A partir desta concepção utilizamos a história oral com dois acampados e três assentados, assim como, com três informantes importantes para a compreensão da questão agrária, sendo estes uma das

lideranças do acampamento onde ocorreu o Massacre de Corumbiara, Sr. Cícero12, o ex-

coordenador da Associação dos Seringueiros de Rondônia (Sr. José Maria) e um ex- seringueiro de Ariquemes/RO (Sr. Anésio). Destacamos que, no caso específico de nossa investigação, a metodologia foi utilizada para acessar informações que consolidassem e/ou confirmassem o contexto geral visualizado a partir da pesquisa, sendo que foram realizadas, no total, oito entrevistas enquadradas nos preceitos metodológicos da história oral.

O objetivo principal com o trabalho de campo nos acampamentos e assentamentos, por meio das diferentes formas de entrevista, foi o de buscar elementos empíricos da experiência dos sujeitos da pesquisa com relação ao atual processo de luta, pela terra e na terra, na Mesorregião Geográfica do Leste Rondoniense, em especial, aquela organizada pelo MST. As áreas pesquisadas foram dois acampamentos e três assentamentos ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), compondo, conjuntamente, um universo de 870 famílias camponesas, sendo 364 acampadas e 506 assentadas. As áreas são as seguintes: Acampamento Silvio Rodrigues (180 famílias), Acampamento Che (184 famílias), PA 25 de Julho (280 famílias), PA Padre Ezequiel (200 famílias) e PA 14 de Agosto II (26 famílias). A localização das áreas pode ser observada no mapa 3.

Inicialmente, quanto aos acampamentos selecionados para nossa investigação, destacamos que são eles as únicas áreas atualmente ocupadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) no estado de Rondônia. Os demais acampamentos foram desfeitos e as famílias transferidas para estas duas áreas. Nas áreas de acampamento, foram realizadas apenas entrevistas com informantes-chave e história oral, sem uma preocupação com o estabelecimento de um perfil numérico determinado.

12 Cícero Pereira nos concedeu uma entrevista com três horas de duração. Este camponês foi uma liderança

histórica da luta pela terra no estado de Rondônia. Foi um dos fundadores e coordenador do MST até o inicio da década de 1990. Posteriormente, participou na organização do acampamento da Fazenda Santa Elina, onde ocorreu, em 1995, o Massacre de Corumbiara.

No Acampamento Silvio Rodrigues, no município de Alvorada do Oeste/RO, entrevistamos oito pessoas, entre camponeses acampados, integrantes de equipes organizacionais internas e coordenadores do acampamento. Desses ouvimos histórias e, principalmente, relatos sobre a situação da luta pela terra das famílias acampadas. Focamos as informações sobre a caminhada das famílias que integram o acampamento. Ou seja, queríamos entender que processo de vida contribuiu na formação do acampamento. Também buscamos informações e reflexões sobre a organização atual e as perspectivas para o assentamento das famílias.

No Acampamento Che, localizado no município de Alto Alegre dos Parecis/RO, onde estão acampadas 184 famílias, realizamos dois tipos de entrevistas. Considerando que o acampamento é resultado da união de outros três grupos de acampados, optamos por realizar entrevistas com informantes-chave de cada um dos acampamentos, que hoje compõem o Acampamento Che. Assim, foram quatro entrevistas-chave com grupos compostos por três a oito pessoas. Cada grupo relatou o processo de formação do acampamento de origem, assim como sua história de luta pela terra. Além das entrevistas coletivas, realizamos também entrevistas com mais dez produtores acampados, com os quais buscamos dialogar sobre sua trajetória de vida e sua inserção no MST e no processo de luta pela terra.

Quanto aos três Projetos de Assentamento (PA) selecionados para a pesquisa, sua escolha seguiu uma perspectiva, ao mesmo tempo, espacial e temporal. Procuramos determinar assentamentos que representassem, espacialmente, diferentes dinâmicas de inserção regional e local, o que fortalece a discussão sobre a territorialização camponesa na mesorregião estudada, desde que estão localizados em regiões onde a luta contra o latifúndio ocorreu em seu espaço privilegiado, como observamos no mapa 3. E, temporalmente, selecionamos assentamentos implantados com diferença de, aproximadamente, uma década. Isto, certamente, nos passou um retrato da luta pela terra e da territorialização dos assentamentos em cada momento histórico englobado pela pesquisa.

O primeiro assentamento onde realizamos a pesquisa foi o Projeto de Assentamento 25

de Julho, localizado no município de Espigão do Oeste/RO, com 302 parcelas, porém somente 280 famílias assentadas atualmente. Esse assentamento, instalado em 1990, representa a consolidação da luta do MST no estado, pois foi a conquista inicial do movimento. Entrevistamos 35 pessoas nessa área, focalizando nas questões organizativas e produtivas. Entrevistamos, ainda, no assentamento, algumas lideranças que participaram da formação do MST rondoniense, como o atual presidente do Sindicato dos Trabalhadores

Rurais de Espigão do Oeste, que participou da conquista do assentamento desde a primeira ocupação. Além das entrevistas semi-estruturadas, destacamos que foram relevantes também as informações acessadas em momentos informais, como reuniões, festas, atividades produtivas, entre outros momentos.

No Projeto de Assentamento Padre Ezequiel, criado em 2001, estão assentadas 200 famílias. Aí entrevistamos 33 pessoas. Esse assentamento, implantado durante o Governo FHC, está situado no município de Mirante da Serra/RO, sendo fruto de um processo de luta bastante intenso. A organização espacial desta área valoriza a comunidade local, pois cada gleba [conjunto regional de parcelas] está voltada para uma área social, onde escolas, postos de saúde, cooperativas, Igrejas, entre outras estruturas comunitárias, estão, normalmente, situadas. Nesse sentido, buscamos organizar as entrevistas a partir de cada gleba do assentamento, valorizando esta forma de distribuição político-espacial.

No Projeto de Assentamento 14 de Agosto II, criado no município de Ariquemes/RO, no ano de 2009, ocorreu um processo diferenciado de parcelamento. Entre as 26 famílias acampadas no período da criação do assentamento, algumas optaram pela organização coletiva, enquanto outras, pela parcela individual. Assim, 20 famílias estão em uma área única, utilizada de forma coletiva e os outros seis em lotes individuais. Por isso, entrevistamos famílias que optaram pelas duas diferentes formas de organização territorial. Foram três entrevistas com aquelas famílias que foram assentadas em lotes individuais e oito com aqueles inseridos na proposta coletiva de parcelamento.

Foram realizadas, nos acampamentos, 22 entrevistas e, nas três áreas de assentamento, realizamos 79 entrevistas, num total de 101 entrevistas. Nos assentamentos, de forma específica, a população total congrega 506 famílias assentadas, das quais entrevistamos um perfil de 15,6%, considerado representativo para os elementos que objetivamos estudar. Lembramos que exploramos esses dados, principalmente, de forma qualitativa. As informações coletadas por meio dos roteiros de entrevista semi-estruturados foram organizadas e utilizadas de acordo com as exigências do trabalho. As entrevistas de história oral e/ou com informantes-chave foram transcritas e utilizadas na composição do texto da tese. Com essas informações, esperamos ter alcançado a compreensão necessária sobre a área investigada para relacionar as discussões teóricas estudadas. No quadro 2, podemos observar com mais objetividade a quantidade e os tipos de entrevistas realizadas nos acampamentos e assentamentos objetos de estudo na pesquisa, como também aquelas entrevistas realizadas com outros informantes importantes para a investigação.

Quadro 2 - Número e especificação das entrevistas realizadas durante trabalho de campo em áreas de acampamentos e assentamentos, Rondônia – 2009.

Local Número total de

acampados/assentados Entrevistados Número de Utilizada Técnica

Acampamento Silvio

Rodrigues 180 8 Entrevista-chave História Oral

Acampamento Che 184 14 * Entrevista-Chave com Grupos História Oral PA 25 de Julho 280 35 Entrevista Semi- estruturada Entrevista-Chave PA Padre Ezequiel 200 33 Entrevista Semi- estruturada Entrevista-Chave História Oral PA 14 de Agosto II 26 11 Entrevista Semi- estruturada Entrevista-Chave História Oral

Outros informantes - 5 Entrevista-Chave História Oral

Total 870 106 -

Org.: Murilo M. O. Souza, 2011.

*Neste caso específico, 10 entrevistas foram realizadas individualmente, com acampados; e 4 entrevistas foram realizadas com grupos de acampados, lideranças dos diferentes acampamentos que compuseram o atual Acampamento Che. Portanto, estas quatro entrevistas referem-se ao número de entrevistas e não de entrevistados.