4. Data
4.3 How to Splice the Data Series into one Continuous Series?
Na leitura dos requerimentos apresentados à Câmara Municipal pela própria função destes, esperávamos encontrar algum delineamento do distrito através de demandas cotidianas, pensando assim as possibilidades de configuração destes requerimentos em vetores de diálogo entre o distrito e o restante da municipalidade.
O encontrado nas justificativas, tanto dos requerimentos quanto das devolutivas que tivemos acesso, aponta a questões do distrito que sugerem uma interconexão viciosa e ao que parece, indicar ainda timidamente para que uma ausência legitime outra nas composições discursivas e adoção de práticas tanto dos moradores quanto dos representantes do poder executivo e legislativo local.
Desta forma no distrito podemos estabelecer, dentro de um exercício de raciocínio amparado em uma lógica perversa e não necessariamente em constatações de fato, conexões entre a falta de policiamento inviabilizar a existência de postos bancários e expansão de telefonia fixa, enquanto que a ausência de postos bancários em conjunto com as condições locais de acesso a saúde exigem redimensionamento nos horários e itinerários do transporte coletivo. Em sentido inverso e em extensões ao absurdo, poderíamos seguir e grafar na resolução das condições de transporte do distrito à sede do município, ou no seu policiamento, as suas grandes panaceias.
O apontado nos requerimentos em seus grupos, salvo o sexto grupo, é a reincidência das solicitações. Uma mesma questão percorre praticamente todo o nosso recorte, dando condições inclusive de reaproveitamento de texto em “facsímile” na apresentação dos requerimentos.
Somado a permanência ou longa duração das demandas do distrito junto ao poder legislativo local, seja por peculiaridades das próprias demandas ou “grosso modo”, da morosidade da municipalidade em seu atendimento, há a dificuldade de encontro de registros sobre o distrito.
O poder executivo não dispõe ou ao menos disponibiliza referências seguras de cunho estatístico ou histórico sobre o local, exceto as obtidas junto ao cadastro imobiliário.
Os autores reconhecidos localmente como tradutores da história de Mococa registram os 156 anos de Igaraí em seus trabalhos, respeitados os momentos de produção destes, em tinta breve e arredia ou ainda, como ausência pura e simples.
Distante de querer enveredar sobre aspectos de concepção e produção historiográfica no município, o que fica latente é certa preocupação sobre a produção de registros da malha urbana da sede do município e suas figuras ilustres, como se isto pairasse destacado e isolado acima de qualquer outro elemento do município ou exterior a ele.
A conformação das ausências ou morosidades registradas nos requerimentos apresentadas na Câmara Municipal ou ainda na história “oficial” do município podem municiar elementos de legitimação a prováveis marcas de abandono.
Neste sentido, principalmente a ausência de policiamento ostensivo, de posto ou distrito policial na localidade, amplia espaços de re-significação da insegurança em abandono e de abandono em possibilidade de descaso do poder público, em geral, a população do distrito.
Neste panorama de busca a elementos e marcas à leitura e percepção do distrito frente ao até então registrado ou ausente, há a possibilidade da grafia imaginária do distrito manter- se, contraditoriamente, sob bases de desamparo.
Cabe destacar que o imaginário aqui é tomado em acordo com Castoriadis (1995), quando este propõe que:
O imaginário de que falo não é imagem de. É criação incessante e essencialmente indeterminada (social-histórica e psíquica) de figuras / formas / imagens a partir das quais somente é possível falar-se de “alguma coisa.” Aquilo que denominamos “realidade” e “racionalidade” são seus produtos (CASTORIADIS, 1995, p. 13). A ausência de indicativos a discussões mais claras sobre a autonomia do distrito, salvo as constantes nos requerimentos de nº 1423 a 1426/2011, ou ainda a proposição em qualquer documento visitado, projetos de lei ou requerimentos, que versem sobre o incremento ou desenvolvimento econômico do distrito sugerem que os elementos de desamparo deflagrados conotariam também anseio por tutela remontando a rascunhos de autoridade paternal.
O termo rascunhos é aqui marcado à autoridade paternal por não ser evidenciado nos discursos compostos nas justificativas dos requerimentos o desejo de controle, mas sim a condição de ajuda na maior presença física e simbólica do poder público.
O amparo aqui apontaria outras formas de visibilidade e conciliação entre o distrito e o poder público municipal, grafaria outras marcas e regras ao jogo de relacionamento entre ambos, caracterizando-o como, em acordo com Sennett (2011):
(...) uma constante nas questões humanas; as modernas burocracias ocidentais não o transcenderam, mas o enterraram, de tal sorte que ele se torna mais cômodo quando é impessoal, e negociado cara a cara, não por declarações como “Você precisa me ajudar”, mas por jogos mais velados no qual os subalternos esperam conseguir a proteção dos superiores (SENNETT, 2001, p. 237).
A posse destes indicativos não nos autoriza, pelo objeto da pesquisa, a caracterizar o distrito como um corpo cívico, espaço de destinos compartilhados (SENNETT 2001, p. 371 e 372), atrelando o fado da vida dos habitantes ao futuro do distrito. Mesmo os requerimentos que comportam a solicitação de emancipação do distrito não figuram, como já mencionado, como reflexo de um imaginário partilhado e instituinte de práticas e ações cotidianas.
Da mesma forma, a possibilidade de caracterizar o distrito como comunidade ou gueto nos é cerceada. Mesmo considerando, em acordo com Bauman (2003), que
O “comunitarismo” ocorre mais naturalmente às pessoas que tiveram negado o direito à assimilação. Tiveram negada a escolha – procurar escolha na suposta “fraternidade” do grupo é a sua única opção (BAUMAN 2003, p. 87).
a população do distrito sofre cisões entre os habitantes de sua malha urbana e zona rural. As condições de desamparo, se efetivas, não se constituem como negação a assimilação ou em vínculo, a tal ponto, da fraternidade tornar-se a única escolha desta população.
Podemos grafar como hipótese e exercício para a reflexão da possibilidade de um ressentimento acomodado contra as injustiças padecidas, pontuando momentos de solidarização e distensão entre os habitantes. Neste aspecto as prováveis injustiças padecidas não catalisariam rebeliões na população em razão de suas condições anteriores (BAUMAN 2003, p. 75), mas sim a sobremarcariam caracteristicamente em distinção “invejosa” do seu entorno.
Aqui cabe a retomada da proposição de Castoriadis (1985, p.159) sobre a instituição constituir-se como “uma rede simbólica, socialmente sancionada, onde se combinam em
proporções e em relações variáveis um componente funcional e um componente imaginário”.
Tal retomada nos remeteria a pensar a ausência como vetor e elemento condicionante a funcionalidades no distrito. Mesmo distante da possibilidade de sua caracterização como
substância primeira à elaboração de práticas coletivas ou até mesmo individuais, grafa-se na ausência como vetor a funcionalidades, componente instituinte contraditório.
Em relação ao poder público local, aqui genericamente, a instituição faz-se presente como falta.
Para esta ponderação cabe o cuidado sobre as especificidades de parcela dos próprios documentos observados, grafando a ausência como elemento inerente a sua própria natureza.
Observada a cautela na ponderação ou proposição da ausência / falta como base à arquitetura de pragmáticas coletivas e ou individuais existentes, a impressão forte mantém-se na sua existência ao menos em pragmáticas de superfície, recorrente como agente discursivo e legitimador de parcela, indefinida quantitativamente, de ações.
Rascunhados estes breves indicadores, o que nos cabe é partir à investigação se estes elementos incidem e são refletidos pela escola objeto de nossa pesquisa. Buscar observar se significativos na instituição de sua utilidade / funcionalidade aos atores direta e indiretamente envolvidos na vida cotidiana escolar, visando observar se esta, existente também como corpo físico presente legitima-se funcionalmente sob quadros integrais ou parciais de ausência.
CAPÍTULO 2 - A ESCOLA EM DOCUMENTOS