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3. DELTAKERNES OPPLEVELSER OG ERFARINGER

3.2 O PPLEGG FOR FYSISK AKTIVITET

3.2.1 Spinning

Entre o real e a imagem sempre se interpõe uma série infinita de outras imagens, invisíveis porem operantes. (ROUILLÉ, 2009: 19)

Quando Pollak (1989) fala que os objetos materiais são rastros do trabalho de enquadramento da memória, é criada uma relação entre a fotografia a partir das lembranças de dona Graça, seu Cocia, Coco, seu Valécio e Roberto.

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Enquanto eu explicava minha pesquisa, antes de começar a entrevista, dona Graça pegou o retrato de seu Chagas e começou a falar antes mesmo de ser interpelada pela primeira pergunta, como se aquele retrato a ajudasse a recordar.

Provavelmente, quando seu Chagas foi fotografado no passado, não se imaginava que aquela foto ajudaria, no futuro, a lembrar histórias do Rio ou dos canoeiros - um objeto que parece estar vivo ao detonar as lembranças de dona Graça, longe da ideia de algo congelado, estado normalmente atribuído à fotografia. Se a fotografia aparentemente “congela” um momento, sociologicamente, de fato, “descongela” esse momento ao remetê-lo para a dimensão da história, da cultura e das relações sociais (MARTINS, 2008: 65). Assim, revelando a dimensão sociológica e antropológica do que foi fotografado (MARTINS, 2008: 65).

Ao conversar com Roberto sobre as exposições35 das fotografias que fiz dos canoeiros, ele se admirou pelos locais por onde suas imagens tinham passado e contou o inusitado destino de uma fotografia de seu Chagas: uma foto batida pouco tempo antes de sua morte e que a cada aniversário seus filhos a levam ao cemitério.

Mais uma vez, esta significação para a família foi elaborada depois da captura da imagem. São sentidos atribuídos pela vivência, de quem não participou do ato fotográfico, nem fotografou e nem foi fotografado. Usos e sentidos que apontam para o fato de que a comunicação estabelecida pela fotografia não passa apenas pela produção, mas pela recepção da imagem. Vejo nos sentidos aqui evocados uma aproximação com a imagem-ato, pensada por Dubois (1993: 15): (...) Com a fotografia não nos é mais possível pensar a imagem fora do ato que a faz ser. (...) A fotografia, em suma, como inseparável de toda enunciação, como experiência da imagem.

Na mesma época Roberto me pediu uma foto dele na canoa para mostrar aos amigos do trabalho que se admiram com o trabalho na canoa ou simplesmente não acreditam.

Coco, um dos canoeiros mais antigos de Sobral, observa atentamente várias fotos. Entre elas, a sua. Enquanto o passageiro não solicita uma travessia, seu olhar continuar a percorrer as imagens que têm seu cenário de trabalho como tema. Ele olha como se fosse algo       

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O ensaio sobre os canoeiros já foi exposto na 26º Reunião Brasileira de Antropologia (26º RBA / Porto Seguro, 2008); no 13º CISO e II AVAL (Maceió, 2007); no Encontro Regional dos Estudantes de Ciências Sociais (ERECS / Fortaleza, 2007); e no II Encontro de Ciências Sociais do Estado do Ceará (Sobral, 2007).

novo, ou ainda, diferente do que está a ver todo dia, indo e vindo em sua canoa. Novo não é, pois aquele cenário é palco de sua vida há décadas. Diferente? Na medida em que o passar do tempo muda algumas coisas.

Roberto embarcando passageiros na margem esquerda. Ao fundo, está o atracadouro, boiando após ser retirando do seu lugar pela força das águas da enchente desse ano de 2009 (Foto: Rubens Venâncio).

O que lhe causa curiosidade não é o espaço em si, familiar. É a maneira como estão dispostas formas, cores – ou a ausência delas –, ângulos diferentes, texturas ou um detalhe que lhe passa despercebido. Enfim, um cotidiano visto pelo relevo da fotografia e que se apresenta para Coco interpretado pela linguagem fotográfica. Tema provavelmente estranho a seus saberes, mas que consegue a atenção do seu olhar e fazer com que ele perceba de outra forma o ambiente do seu dia-a-dia, mesmo que por alguns instantes.

Pois, se a fotografia é a “conquista fundamental de uma sociedade onde a experiência declina”, isto é, uma sociedade submetida ao choque e ao mesmo tempo indiferente dos ritmos industriais, uma sociedade, portanto, que se torna cada vez mais instantânea, a recuperação dessa experiência – como experiência do tempo – só pode se dar em um instante particular, destacado de uma série supostamente homogênea, e no qual toda temporalidade está subitamente implicada. (LISSOVSKY, 1998: 25).

Ao ser avisado pela esposa do Bubu da minha presença e do meu interesse, a caixa com velhas fotografias de seu Cocia virou logo personagem. Quando disse que buscava informações antigas de Sobral e sobre os canoeiros, ele pediu licença e voltou com uma caixa preta. Sentado ao meu lado, seu Cocia balbucia poucas palavras e logo começa a remexer a sua história visual de Sobral (uma história que cabe numa caixa) e, à medida que vai encontrando algo, tece algum comentário – aquelas imagens captadas ao acaso constroem a tessitura da narrativa, me falando o que consta na foto e/ou o que cada imagem sugere; e o que pergunto está em segundo plano, figurante em meio aos fotogramas da memória daquele arquivista.

Homem que é conhecido pelas fotos que guarda e histórias que conta, seu Cocia também é vítima dos descasos daqueles que não valorizam sua condição de colecionador. Vendo por cinco reais (Entrevista realizada com Cocia em 29 de maio de 2009), destacando sua condição de colecionador e, ao mesmo tempo, esclarecendo que pouco vale uma fotografia antiga: ninguém dá mais do que isso. Vários lhe procuram em busca de uma imagem para pôr em casa, exibir em estabelecimentos comercias (como no Café Jaibaras – localizado no Beco do Cotovelo, movimentado corredor do Centro de Sobral - que exibe fotografias antigas do time de futebol Guarani de Sobral em suas paredes) e mal fazem referência a quem forneceu a imagem.

Entretido e admirado pela narrativa peculiar de seu Cocia, passo a ver fotografias da década de 40 e 50 do Guarani de Sobral, e algumas dos canoeiros que aparecem aqui e acolá, segundo a ordem assimétrica das lembranças e das minhas perguntas, que cada vez mais ficam desnecessárias e se diluem diante as fotos saídas da caixa.

Seu Cocia é um daqueles arquivistas que muitos solicitam e que não possui ajuda alguma na organização do arquivo. Muito menos na devolução de fotos cedidas para reprodução que, não raro, não lhe são devolvidas. Ao dizer que daria minhas fotos reproduzidas de Sobral, seu Cocia agradeceu e disse que receberia com muito gosto, inclusive para trocar por outras.

Seu Valécio, ao ver uma foto feita durante a pesquisa na qual, ao fundo, aparecia a moderna biblioteca (Biblioteca Municipal Lustosa da Costa), disse que ali funcionava a antiga fábrica de algodão onde trabalhou durante o período em que o rio Acaraú secava.

Ao ver outra foto, esta da década de 20 (mais precisamente uma imagem onde figura a grande cheia do rio Acaraú de 1924), descreveu-me como era trabalhar em épocas de enchentes, quando canoas chegavam a trafegar pelo Centro da cidade. Mesmo que seu Valécio ainda não tivesse nascido naquela época, a foto solicitou sua memória, relatando, por exemplo, que seu tio trabalhou naquela enchente e lhe narrava as muitas dificuldades de trabalhar em épocas assim. Arquivos de imagens e imagens contemporâneas coletadas em pesquisa de campo podem e devem ser utilizadas como fontes que conectam os dados à tradição oral e à memória dos grupos estudados (NOVAES, 2005: 110).

Esses momentos – ou essas fotografias – são apenas algumas numa série de investidas no sentido de lidar com a fotografia durante o trabalho de campo e na própria produção do conhecimento. Muito dos sentidos revelados por elas não surgiram à primeira vista, nem ao intelecto (punctum) nem ao afeto (studium) - numa distinção de Barthes (1984), esclarecida por Samain:

Trata-se da distinção entre a fotografia enquanto algo que se apresenta ao meu intelecto como campo e objeto de estudo, como terreno de um saber e de uma cultura que posso compreender, desvendar e enunciar nos moldes da ciência (o óbvio da fotografia) e, por outro lado, a fotografia enquanto algo que se oferece ao meu afeto como um detalhe que me transpassa existencialmente, me fere, me comove ou me anima, como um silêncio que me fascina e me perturba ao mesmo tempo (o obtuso da fotografia).(SAMAIN, 2001: 1).

São momentos captados que ajudam a interpretar e a melhor observar o campo de pesquisa, não pelo reflexo direto da realidade, já que o verossímil não é necessariamente o verdadeiro e, certamente, não é o concreto, embora seja o real (MARTINS, 2008: 64). Mas pelo que essa fotografias sugerem, pelo que os pesquisados e pesquisadores imaginam, num movimento que vai da imaginação sociológica à imaginação fotográfica:

Por seu lado, ao fotografar, o fotógrafo imagina. Também o sociólogo e o antropólogo, ao fotografar, imaginam, do mesmo modo que imaginam quando fazem suas outras formas de registro, mesmo que se possa e até se deva pensar numa imaginação fotográfica (ou numa imaginação sociológica, como propõe C. Wright Mills) (MARTINS, 2008:64)