2. METODE
2.2 V ALG AV METODE
Entre o tempo que iniciei a pesquisa – em 2006 – e o que estou escrevendo (julho de 2009), uma diferença fundamental: no rio Acaraú, um canoeiro a menos. Quando cheguei ao Rio, nada percebi: agora só restam duas canoas. A notícia foi dada pelo próprio. Estávamos eu, Coco e aquele que pra mim ainda era canoeiro. A última vez que tínhamos nos encontrado – não muito tempo atrás – falei com Valécio, o canoeiro que acorda às 5 da manhã para estar no Rio bem cedinho. Lembro que nas minhas primeiras idas ao rio Acaraú, em 2006, aquele senhor alto e magro deslocando sua canoa foi uma das imagens que mais despertaram para o campo que se desvendava para mim. Hoje, mais de três anos se passaram, e esse mesmo senhor me informava em curtas e seguras palavras que não bota mais canoa: operou-se, o médico o proibiu – isso não é novidade – e ele já vendeu a canoa. Na mesma hora, na mesma travessia, ele mais o Coco conversaram sobre as últimas chuvas; ele de saída, ia cortar o cabelo e marcamos de conversar amanhã. (Diário de campo, 27 de junho de 2009)
Neste tópico, tratarei de aspectos importantes sobre o ofício de canoeiro, como alguns traços de sua história em Sobral, os antigos canoeiros, os feitores de canoa – que assim como seu Valécio, estão se extinguindo.
Quando narra, seu Valécio não lembra de qualquer lugar, mas de um lugar ocupado apenas por ele: do único homem a chegar aos 80 anos ainda canoeiro. Pode parecer arriscado redigir tal informação, mas se minha principal fonte são os testemunhos orais dos canoeiros, eles informam que ninguém passou mais tempo e, até essa idade, todos os vivos, na ativa e aposentados me confirmaram. Só tem eu pra contar história! (Entrevista realizada com Valécio em 30 de junho de 2009).
E não vou procurar a morte, ela é quem venha atrás de mim. Eu não tenho medo de morrer, espero todo dia por ela. (Entrevista realizada com Valécio em 11 de fevereiro de 2008). Parar de trabalhar sempre foi algo que rondava a vida de seu Valécio, seja pelas exigências médicas ou insistência da família. Ao mesmo tempo, ele não queria parar de trabalhar. Escutei repetidas vezes ele afirmar que, se parasse, ficaria entrevado.
Como que antecipando sua aposentadoria ele evocava o tema da morte, gratuitamente, parecendo algo que o estava rondando. Em 2008, traduziu-me seu sentimento em torno da morte e este ano – 2009, agora aposentado da canoa –, ela invadiu seus pensamentos e os meus. Nesse momento, conversávamos à beira-rio sem a presença do gravador – depois da travessia que fazia todo dia, agora só ajudando a remar – e os trechos que seguem são da primeira conversa que tive com ele logo após saber que tinha parado as atividades:
“Rapaz, cê sabe de uma coisa? Eu quase não batia foto quando era mais novo. Só pra identidade. Só depois de botar canoa é que vim fazer”, falou-me espontaneamente e rindo, no momento em que entreguei fotos suas - feitas por mim na última viagem.
“(...) Eu vou tirar uma foto bem feita, todo arrumado pra deixar pra quando eu morrer”. Fiquei admirado por duas coisas: pelo próprio desejo e por esse comentário ter saído inusitadamente, sem a menor intenção da minha parte. Estávamos até falando de outros assuntos enquanto eu mostrava fotos antigas. Ele disse que ia se arrumar todo e ir ao Centro bater esta foto para a posteridade. Ele aceitou quando perguntado se eu poderia fazer essa foto. (Diário de campo, 28 de junho de 2009)
Com o tema da morte, seu Valécio me propiciou falar dos canoeiros antigos, que se foram, mas estão inscritos na memória da canoagem no rio Acaraú.
Rubens – Mas seu Valécio, por que o senhor acha que foi só o senhor que foi até os
80 anos? Por que outros não foram?
Valécio – Porque não queriam mesmo. Uns morreram logo, né? O Chico Preto
morreu novo, esse negão31; aqui morreu eu acho que ele não tinha 50 ano. Ferro Véi era um homem que morreu com 30 e poucos anos, da bebida. O Paquim morreu com uns 50 anos, morreu também da bebida. O Chico Cafage era um canoeiro indo e voltando, morreu com uns 30 ano, era um grande canoeiro. Chico Dutra era canoeiro e morreu também. E assim por tanto.
Olha, é tanto que, dos canoeiro véi mesmo, de antigamente, só tem eu mesmo. O resto morreram tudim. Só tem eu contando a história! Mas o resto acabou-se tudim. O derradeiro que tinha era o Chico Gavião. Morreu. Era o Chico Gavião lá em cima e eu aqui embaixo. Era o mais velho. Eu vim botar a canoa com 15 anos de idade. (Entrevista realizada com Valécio em 30 de junho de 2009)
Seu Valécio identifica Chico Preto como este que segura a vara, à direita, durante a cheia do rio Acaraú em 1974 (Foto: Arquivo Nirez).
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A quantidade de canoeiros apresentados nessa pesquisa é fruto direto da lembrança. Os que estão citados ao longo do texto e no apêndice foram colhidos durante as entrevistas e a grande maioria é identificada pelo apelido ou primeiro nome – os próprios canoeiros que citam outros pelos apelidos não os reconhecem pelo nome de batismo.
Ao mesmo tempo, essa profusão de apelidos não diminui a credibilidade da existência deles, tendo em vista a regularidade com que aparecem nas narrativas de vários canoeiros – de seu Chico Gavião a Chiquim. Eram muitos...Tonhão, Cafage, Cabôco, Dutra, era um bocado, morreu tudo, num tem ninguém. O Pedro morreu, Tonhão foi-se embora. Agora me disseram que tem três canoa no Rio (Entrevista realizada com Chico Gavião em 13 de fevereiro de 2008).
É difícil precisar o número exato, porque o registro oscila entre a lembrança e o esquecimento da memória dos canoeiros; informações como essas não existem em outro local, tendo que perguntar a todos os canoeiros a que tive acesso, como Ivan, que lembra empolgado: Eram 11 canoeiros, os conhecido mesmo, os daqui, é o Coco, o Valécio, Fernandes, Chico Preto, Mestre Dé, o Quinca, Chico Dutra, Cafage, Mauro, Chaga, tinha o Cabôco e o Furtuoso (Entrevista realizada com Ivan em 22 de janeiro de 2008).
Quando Ivan fala os daqui é uma referência ao trecho do rio em que trabalhou com a maioria dos outros canoeiros. Tinha o trecho conhecido como Gavião e outro chamado Marreca, onde trabalhavam outros canoeiros fazendo rotas distintas, que também estão citados no trabalho e que fazem parte desse mapeamento da canoagem no rio Acaraú – volto mais adiante ao assunto quando falar das rotas das canoas no próximo capítulo.
Numa época em que as estradas eram poucas e os rios eram a principal alternativa, não é difícil imaginar a presença de homens que trabalhavam nessas ribeiras se encarregando do transporte por essas rodagens de água: canoeiros, balseiros e outros profissionais que faziam o trabalho de atravessador, fosse de mercadoria ou de gente, fosse de uma margem à outra ou seguindo o percurso do rio. Assim raciocinei com Coco, no meio da travessia:
Rubens – Se for juntar, por exemplo, o tempo do seu Gavião, com o do pai, e com
o do avô, dá mais de 100 anos de canoa aqui em Sobral?
Coco – Dá quase 200. Tá com 20 anos que ele parou Rubens – Ele tem mais de 90.
Coco – 90 menos vinte anos? O pai dele durou o mesmo tanto. E o avô dele? Dá
Rubens – Tu acha que chega a 200? Coco – Chega! Só aí deu 200.
(Entrevista realizada com Coco em 11 de maio de 2008)
O canoeiro Coco, chegando à margem direita (Foto: Rubens Venâncio)
À altura de seus 95 anos incompletos, seu Chico Gavião recorda:
Aí as canoas...eu trabalhei muito lá embaixo, muito. Novo, com 16 anos, 17 ano eu trabalhava lá embaixo. Eu casei com 17 anos, vim pra casa, pegava a canoa, trabalhei num sei quantos anos. Eu tô é com saudade de canoa. O Valécio é antigo, mas é mais novo que eu, eu sou mais véi, canoeiro mais véi. Eu acho que não tem nenhum canoeiro com a minha idade por aí. (Entrevista realizada com Chico Gavião em 13 de fevereiro de 2008)
Considerando o tempo de seu Chico Gavião e de seu pai e avô – que, segundo ele, foram canoeiros – podemos chegar a 200 anos. Ao mesmo tempo relativizo este dado pelos seguintes motivos: esse tempo diz respeito aos canoeiros que trabalharam entre as margens do Rio, em mais de um trecho. E, como considerei no primeiro momento, pela dificuldade das estradas na época em que o Ceará ainda era colônia, é possível imaginar que a necessidade do transporte criasse a figura do atravessador. Assim, essa informação é válida para situar no tempo a memória dos canoeiros com quem trabalho.