5.2 Speditørens plikter
5.2.2 Speditørens instruksjonsplikt
Ecologia profunda é um termo criado por Arne Naess (1912-2009), no início da década de 70, cujo significado original designa, em termos gerais, as diretrizes teóricas e uma postura de enfrentamento das questões ambientais guiadas por um holismo biocêntrico.
Rothenberg assevera, na apresentação da obra Ecology, community and lifestyle, que Naess, o autor da mesma, ao supor a existência de um mundo em crise que se estende drasticamente ao nível ecológico, acredita que uma filosofia (enquanto uma sabedoria voltada
146 “Presa à ecologia de seu tempo, a ética de Leopold estará hoje ultrapassada? Se o equilíbrio já não é o princípio regulador dos sistemas ecológicos, se as comunidades bióticas têm fronteiras incertas, se a sua estruturação resulta das perturbações que sofreram, se a diversidade já não é garantia de estabilidade, ainda poderemos falar em “preservar a integridade, a estabilidade e a beleza da comunidade biótica”?” (LARRÈRE, 2000, p.315).
para a ação) pode ajudar a traçar um caminho para o enfrentamento do referido caos (Rothenberg in: NAESS, 1989, p.01) por meio de uma nova ontologia na qual a humanidade é vista como inseparável da natureza. Nessa perspectiva, o primeiro passo, rumo a uma nova mentalidade ecológica, depende de intuições holísticas desenvolvidas ao longo da vida que revelem o valor do simples e essencial, da auto-suficiência, do apego sensual pela vida, da modéstia. Isso pode contribuir para a constituição de uma ecofilosofia entendida como um campo de conhecimento e de ação que se utiliza “de conceitos básicos da ecologia – como a complexidade, a diversidade e a simbiose – para esclarecer o lugar de nossa espécie na natureza através do processo de elaboração de uma visão total” (Rothenberg in: NAESS, 1989, p.03), visando ao desenvolvimento de uma filosofia ecológica profunda que propõe uma crítica em larga escala de nossa civilização por intermédio de medidas que vão além de soluções técnicas.
O livro Ecologia profunda (1985), de Bill Devall e George Sessions, representa uma síntese dos princípios básicos e das práticas ambientais que caracterizam o movimento ecológico cuja denominação é a mesma do título do referido texto, por isso (o livro) pode ser visto como o manifesto do supracitado movimento. O livro Ecologia profunda é composto por uma coletânea, onde inúmeros autores expõem os seus pensamentos e propõem ações ambientais favoráveis ao biocentrismo147 em oposição ao antropocentrismo que é entendido, aqui, como o alicerce básico da visão dominante da sociedade Ocidental. Nesse sentido, a ecologia profunda reivindica mais do que simples reformas em nosso modelo de civilização, mas algo mais radical; pois:
em resposta à crise ambiental, os temas de Ecologia Profunda oscilam entre opções pessoais e individuais e opções coletivas. Ao nível pessoal, encorajamos a introspecção, a purificação e a harmonia, e uma celebração pela dança ou afirmação de todos os seres. Ao nível da análise intelectual e histórica, o livro apresenta uma análise da visão dominante na nossa sociedade, visão essa que conduziu diretamente a crise persistente da cultura. Em seguida, apresentamos uma perspectiva ecológica, filosófica e espiritual para lidar com a crise. Ao nível da política nacional ou das comunidades locais, analisamos diversas perspectivas convencionais sobre a gestão dos recursos naturais, criticamos essas perspectivas e apresentamos alternativas realistas (DEVALL/SESSIONS, 2004, p. 11).
Bill Devall e George Sessions apresentam quatro posturas que caracterizam o movimento ambiental/ecológico atual, que são criticadas pelos autores.
147 Além dos textos de Bill Devall e de George Sessions, a referida obra apresenta as ideias biocêntricas de inúmeros autores, inclusive as de Arne Naess, o principal mentor da ecologia profunda.
a) A primeira, denominada o ambientalismo reformista, tem como objetivo maior a reforma de algumas políticas de gestão dos recursos naturais. Os críticos desta perspectiva afirmam que o ambientalismo reformista tenderia a se desviar do enfrentamento direto das causas que desencadeiam o problema ecológico148, correndo o risco de cair nas mesmas armadilhas conceituais do sistema político que critica, uma vez que os seus seguidores tenderiam a ser induzidos a utilizar a linguagem técnica dos economistas dos recursos naturais. A perspectiva reformista necessitaria reconhecer os seus limites políticos e optar “pela descentralização, pela tecnologia alternativa e por uma prática libertária baseada em grupos de afinidades na democracia direta. (...) Seja como for, há que optar agora antes que o movimento ecológico se institucionalize enquanto mero apêndice do próprio sistema cuja estrutura e métodos ele diz rejeitar” (DEVALL/SESSIONS, 2004, p. 18-19).
b) O segundo cenário caracteriza-se pela tentação de o ambientalismo copiar as táticas e as estratégias políticas visadas pela “Nova Direita” ou “Maioria Moral”. Este ambientalismo visa obter o apoio às suas causas sensibilizando o público utilizando os meios de comunicação, o que pode acarretar a centralização política do ambientalismo e uma manipulação da opinião pública, pois
se o movimento ambiental se voltar para campanhas políticas ainda mais profissionalizadas e para a publicidade habilidosa, poderá provocar uma centralização ainda maior da liderança do movimento, tornando mais difícil aos pequenos grupos ou aos ‘amadores radicais’ o desempenho de papéis significativos na revitalização do movimento ou nas campanhas mais importantes. Uma liderança profissionalizada em organizações centralizadas poderia cortar pela raiz o voluntariado e poderia reforçar a tendência para entregar a direção das organizações a especialistas e a burocratas, bem como a tendência para a política de massa (DEVALL/SESSIONS, 2004, p. 19-20).
c) O terceiro cenário, intitulado “Nova Época/ Conspiração de Aquário”, assenta-se numa base antropocêntrica, uma vez que a Terra é vista como um recurso para a utilização humana. Apesar de o homem e a ciência serem considerados parte integrante da paisagem natural, a nossa capacidade de gerar alta tecnologia nos
148 “Nesse cenário, o ambientalismo tende a apresentar-se exageradamente técnico e apenas orientado para questões políticas de curto prazo relativas à afetação de recursos. Tenta-se apenas reformar algumas das piores práticas do uso da terra sem desafiar, questionar ou modificar os pressupostos básicos do crescimento e desenvolvimento econômicos. Os ambientalistas que adotam este cenário facilmente serão rotulados como ‘um grupo especializado e corporativo como tantos outros’. Preocupados em observar as regras do jogo político, serão forçados a firmar compromissos em cada um dos aspectos legislativos nos quais estão interessados” (DEVALL/SESSIONS, 2004, p. 16-17).
colocaria como pilotos da nave espacial Terra rumo à conquista do universo, ou seja, a sobrevivência humana seria garantida prioritariamente pelos avanços científicos que permitiriam o domínio sobre a Terra, abrindo espaço de expansão para os outros planetas.
d) O quarto cenário é denominado de “Perspectiva Libertária”, e está alicerçado nos estudos do economistaJohn Baden149 e do biólogo Garrett Hardin que utilizam a ideia de fundamento racional para a conservação. Assim, os direitos de propriedade seriam assegurados desde que fossem garantidas a sustentabilidade da região e a sua capacidade de continuar a produzir riquezas. Tal objetivo, no que diz respeito à preservação de recursos naturais, poderia ser executado por grupos ambientais qualificados que teriam a missão de equilibrar a referida preservação com possíveis atividades econômicas ambientalmente sustentáveis. Embora tal proposta seja atraente para o movimento ambientalista, a ecologia profunda critica a sua dimensão antropocêntrica, pois
tal estratégia é atraente para o movimento ambiental numa época de renovada devoção da América pelo sistema de livre empresa, e numa época na qual as regulamentações provenientes do governo são criticadas como interferência nos direitos da propriedade privada. O perigo para os grupos ambientais aceitarem a proposta de Baden está em que ficam por considerar as questões mais amplas da ecologia profunda. A perspectiva libertária revista iria acorrentar mais estreitamente os grupos ambientais à atual versão daquilo a que chamamos a ideologia de conservação e desenvolvimento de recursos, a qual centra apenas no homem (DEVALL/SESSIONS, 2004, p.22).
Em defesa do cultivo de uma consciência ecológica de cunho biocêntrico, a ecologia profunda rejeita os quatro cenários já citados, pois ela objetiva estabelecer “um novo equilíbrio e harmonia entre os indivíduos, as comunidades e a natureza toda” (DEVALL/SESSIONS, 2002, p.22). O ponto de partida de tal proposta implica, por um lado, em uma mudança de nossa postura ambiental, visando à utilização de nossas convicções mais básicas, o que nos ajudaria a aprender “como ser mais receptivo, confiante, holístico na percepção, enraizado numa visão não-exploradora da ciência e da tecnologia” (DEVALL/SESSIONS, 2004, p. 23). Por outro lado, é necessário que sejam desenvolvidas ações ambientais diretas, nos locais em que vivemos, norteadas por motivações éticas e políticas, já que isso “implica assumirmos as nossas ações e responsabilidades, praticarmos a
149 Devall e Sessions citam a seguinte referência: John Baden e Richard Stroup, “Saving the Wilderness”, Reason (julho de 1981).
autodisciplina e trabalharmos honestamente no interior da nossa comunidade” (DEVALL/SESSIONS, 2004, p. 23).
No nível político, as ações diretas que mais seguem as diretrizes da ecologia profunda são levadas a efeito pelo partido político dos Grünen (Verdes) na Alemanha. Assim, tendo como plataforma principal a defesa e o desenvolvimento da ecologia, os Verdes são um exemplo do enfrentamento das questões políticas numa perspectiva biocêntrica, uma vez que
apresentam uma promissora estratégia pois encorajam o cultivo da consciencialização ecológica pessoal e enfrentam igualmente as questões políticas. Se os Verdes difundirem a perspectiva biocêntrica – valor intrínseco das outras espécies para além da espécie humana- poderão ajudar a modificar a visão corrente segundo a qual deveríamos colocar a Natureza ao serviço dos exclusivos interesses humanos (DEVALL/SESSIONS, 2004, p. 24-25).
Contrariamente ao antropocentrismo que norteia a cultura ocidental, a ecologia profunda se inspira nas percepções e filosofias de vida oriundas dos sábios taoístas, das histórias sufi, do zen-budismo e da psicologia de Carl Jung. Tais fontes seriam um caminho para uma “libertação perante o desperdício e o trabalho frenético, o apetite excessivo e a concorrência ansiosa, libertação que permite que cada um prossiga com as tarefas essenciais da vida, que consistem em buscar diligentemente a própria salvação” (DEVALL/SESSIONS, 2004, p. 26). Ademais, isto permitiria ao indivíduo descobrir a espontaneidade, a compaixão, o respeito e o amor por todas as coisas numa relação de expansão de um Eu que faz parte de um Eu mais vasto: a natureza e sua energia vital. Tal libertação implica em empreender mudanças individuais e culturais que estabeleçam a elevação da harmonia dos homens entre si e com o planeta. Tal harmonia simbiótica pode ser, segundo os dois autores, mais bem realizada por meio do tipo de comunidade denominada por eles de tradição minoritária.
A tradição minoritária defende uma sociedade auto-regulada e descentralizada politicamente. São exemplos dessa tradição as culturas indígenas americanas, as tradições orientais como o taoísmo e algumas comunidades budistas. No Ocidente, ela manifestou-se
em numerosas revoltas dos povos em busca de autonomia local perante a autoridade centralizadora do Estado. Nos séculos XIX e XX essa tradição manifestou-se em acontecimentos como a Comuna de Paris de 1871 e em numerosas comunidades utópicas fundadas nos Estados Unidos. No século XX pudemos observá-la na persistência das tradições das assembleias das cidades da Nova Inglaterra, em antigas comunidades de Nova Iorque e Chicago, e entre os anarquistas em Espanha durante os anos 1930. Os principais teóricos desta tradição no pensamento ocidental incluem Piotr
Kropotkine (Mutualismo) no século XIX e Murray Bookchin (Anarquismo da Post-escassez e Ecologia da Liberdade) a partir de 1950. Sob formas diversas, essa tradição exprime-se em pessoas tão diferentes como Thomas Jefferson, Henry Thoreau, Wat Whitman, Woody Guthrie e Carl Sandburg, bem como em Paul Goodman, nos romances de Ursula LeGuin e em muitas outras (DEVALL/SESSIONS, 2004, p.34).
Devall e Sessions estabelecem um quadro comparativo entre a posição dominante de nosso modelo tecnocrático e industrial de civilização e a tradição minoritária, no qual é acentuado o seu caráter essencialmente comunitário e descentralizado150, já que a mesma defende uma concepção de poder que se legitima, não pela violência e coação, mas pelo relacionamento democrático gerado no seio de uma comunidade na qual o chefe assume a função de líder e une os seus membros. Nesse sentido, as sociedades primitivas oferecem exemplos daquilo que é defendido pela tradição minoritária para equilibrar a relação homem- natureza, pois “as comunidades locais de pequena escala asseguravam quer as necessidades vitais do indivíduo quer a necessidade vital de garantir a existência humana na Natureza” (DEVALL/SESSIONS, 2004, p.36). A manutenção de tal equilíbrio era assegurada porque as sociedades primitivas apresentavam quatro características fundamentais: individuação, personalismo, nominalismo e existencialismo151. Tais sociedades se distinguiam do nosso modelo de civilização pelo fato de este ser movido por máquinas e tecnologias atreladas a uma visão de totalidade desvinculada da natureza e alimentada por uma concepção de tempo
150 Os dois autores assinalam a seguinte oposição: Autoridade centralizada/ descentralizada, não hierárquica, democrática. Burocratizada/ comunidade em pequena escala. Polícia/ autonomia local. Individualismo (subjetivismo radical ou ‘nihilismo elegante’)/ auto-responsabilidade. Liderança por meio do controle dos instrumentos de violência (como a polícia)/ liderança pelo exemplo (‘não-liderança’). Competitiva/ auxílio dos outros, ajuda mútua, comunalismo. Incentivo frequente a ‘produzir mais, consumir mais’/ simplicidades das ‘necessidades’. Mais regulamentação pelo governo/ auto-regulação, não-violência ‘profissional. Autoridade secular/ respeito por mentores espirituais-religiosos. As igrejas monopolizam o ritual religioso/ a comunidade inteira participa nos rituais. Tendência para o monopólio ideológico, seja ele secular ou religioso/ tolerância da variedade das abordagens do ser (experiências religiosas). A natureza é vista como ‘dados’ ou ‘recursos naturais’/ comunicação mais aberta com a natureza. Definição estreita da cidadania, todos os outros habitantes do lugar são escravos ou sem direitos/ mais ampla definição da comunidade (incluindo animais e plantas), intuição da integridade orgânica” (DEVALL/ SESSIONS, 2004, p.34-35).
151 “1. O existencialismo manifesta-se por: 1) expressão ritual das necessidades primárias da pessoa na natureza e na sociedade; 2) ênfase na existência mais do que na essência; 3) responsabilidade do indivíduo perante o eu e a sociedade; e 4) falta de interesse pelos modos de pensamento analítico. 2. O personalismo revela-se em: 1( teia de parentesco; 2) comunidade orgânica; e 3) apreensão da consciência ATRAVÉS DA SOCIEDADE E DA NATUREZA. 3. O nominalismo evidencia-se em: 1) ênfase em particularidades e contextos concretos; 2) nomeação dos existentes na natureza e na sociedade, no sonho e na realidade; 3) no fato de as ideias não serem habitualmente reificadas. 4. A individuação é alimentada por: 1) participação integral dos indivíduos NA NATUREZA E NA SOCIEDADE; 2) processo intensamente pessoal de socialização através do qual são delineadas as qualidades individuais; e 3) expressão da sociedade na pessoa e da pessoa na sociedade” (DEVALL/SESSIONS, 2004, p.36-37).
linear, bem como pela ideia de progresso, gerando desequilíbrios internos entre a tecnologia, a ideologia e a organização social.
Contrária aos centralismos políticos e à economia de escala mundial, a ecologia profunda defende que a biorregião é o espaço privilegiado para iniciar o desenvolvimento da consciência ecológica, pois ela permite afirmar a importância dos sistemas naturais (a sua auto-regulação respeitando a sua integridade), bem como do espírito local que reforça o seu específico aspecto religioso aliado a intuições ecológicas profundas.
O desenvolvimento da consciência ecológica pode ser construído, segundo os dois autores, por meio da ação que impulsionaria o indivíduo à leitura de poesias que expressam o espírito do lugar, bem como através de “algumas formas de ioga e exercícios respiratórios, o montanhismo sem egotismo, e outras atividades integradoras, são também aspectos da ação direta” (DEVALL/SESSIONS, 2004, p.41).
No âmbito da ação política, os dois autores apresentam oito tipos de atuações
ambientais que podem vir a alterar o processo político convencional, ampliando-o para metas
mais profundas. O primeiro tipo de ação direta diz respeito à legislação reformulada. Nesse sentido, “os adeptos do movimento de ecologia profunda podem apoiar decididamente a aplicação da legislação reformadora existente e utilizar sanções judiciais contra os poluidores” (DEVALL/SESSIONS, 2004, 47), ou seja, além de reivindicar a criação de novas leis ambientais, deve-se exigir o cumprimento das leis atualmente vigentes.
Uma outra forma de ação direta consistiria em efetuar alianças entre militantes ambientais e grupos pacifistas e ambientalistas visando à defesa de objetivos comuns, o que tornaria o indivíduo politicamente mais forte e, consequentemente, a entidade que ele integra. Os protestos pacifistas também são outra maneira de ação direta, pois possibilitam chamar a atenção da opinião pública e dos órgãos governamentais para as agressões ou os possíveis danos causados ao meio ambiente.
Uma quarta forma de ação direta pode ser encontrada no movimento das mulheres, pois “os valores rotulados de ‘femininos’ – amor, compaixão, receptividade, carinho, cooperação, escuta, paciência, cuidado pelos outros, sentimentos profundos, afirmação, afirmação silenciosa – podem orientar-nos na nossa prática da ação direta criativa” (DEVALL/SESSIONS, 2004, p.50).
Alguns princípios constitutivos da tradição cristã também podem orientar a conduta de tais agentes, pois já existem, no interior de tal tradição, cristãos que já “reconhecem a necessidade de uma nova teologia natural para o cristianismo” (DEVALL/SESSIONS, 2004,
p.50), o que evidencia a necessidade de revisão dos princípios antropocêntricos que o fundamentam.
Questionar o emprego deletério da tecnologia seria a sexta forma de ação direta, sendo esta uma das mais sérias, pois significaria colocar em xeque um dos pilares de nosso modelo de civilização, o qual, por sua dependência e pelos efeitos ambientais nocivos de seu uso, necessita “de uma tecnologia que seja compatível com o crescimento de indivíduos autônomos, autodeterminados, em comunidades não hierárquicas. Necessitamos de princípios que nos ajudem a escapar à armadilha da sociedade tecnocrata na qual a tecnologia é a instituição central” (DEVALL/SESSIONS, 2004, p.52-53), o que impõe a necessidade de uma revisão radical de sua essência152.
Adotar uma política “verde” pode ser uma forma de ação direta desde que esta esteja orientada por uma postura que supere as diretrizes centralizadoras dos partidos convencionais e exalte a ação direta e o crescimento pessoal como meios de substituição do antropocentrismo pelo biocentrismo153.
A exaltação do biocentrismo leva os defensores da ecologia profunda, por fim, à reivindicação de que deveriam existir, com abrangência e poder global, mecanismos jurídicos e políticos com poderes suficientes para assegurar a preservação do meio ambiente, o que é expressa pela Carta Mundial de Conservação, aprovada em outubro de 1982, pela ONU, a qual deveria nortear as Constituições dos países no que concerne à questão da preservação ambiental154.
152 “A tecnologia pode ser criticada e avaliada com base em princípios gerais, na escala ou na estrutura. A respeito de qualquer dispositivo ou sistema técnico podem formular-se as seguintes perguntas: 1. Responderá este dispositivo técnico a necessidades vitais? 2. Pertence este dispositivo ou sistema ao tipo daqueles que podem ser imediatamente entendidos por não – especialistas? 3. É ele dotado de elevado grau de flexibilidade e mutabilidade, ou pelo contrário impõe uma marca permanente, rígida, irreversível, na vida dos cidadãos? 4. Encoraja esse dispositivo ou sistema técnico uma maior autonomia das comunidades locais, ou antes uma maior dependência perante determinada ‘autoridade’ centralizada? 5. Esse sistema ou dispositivo é ecologicamente destrutivo, ou antes favorece um modo de vida ecologicamente profundo? 6. Favorece esse sistema ou dispositivo a individualidade das pessoas, ou conduz a hierarquias burocráticas? 7. Incentiva esse sistema ou dispositivo as pessoas a comportar-se ou a pensar como máquinas?” (DEVALL/SESSIONS, 2004, p.53). 153 “1. Examinamos de novo seriamente o nosso atual sistema social, incluindo a política, a economia, a educação e a ciência convencionais, e estamos decididos a trabalhar para o aparecimento de uma sociedade baseada em novos valores, pelos quais os seres humanos e a natureza possam coexistir sem que se destrua a natureza. 2. Pretendemos reunir pessoas que tenham feito já algo idêntico, e fundar uma nova organização política. Essa organização não deverá cometer os erros dos sistemas existentes como por exemplo a centralização e o institucionalismo, mas será dirigida de acordo com princípios democráticos baseados na integridade individual de cada membro. 3. Trabalharemos para o estabelecimento de uma sociedade naturalmente governada que se baseie nos princípios do cosmos vivo e que transcenda o antropocentrismo” (DEVALL/SESSIONS, 2004, p.54).
154 “Os advogados passariam a ter uma base jurídica na qual fundamentar as causas de preservação dos habitats, se os seguintes princípios gerais da Carta Mundial da Natureza fossem incluídos nas constituições: 1. A natureza deve ser respeitada e os seus processos essenciais não devem ser perturbados. 2. A viabilidade genética na Terra não deve ser comprometida; os níveis de população de todas as formas de vida, selvagem ou doméstica, devem
A ecologia profunda questiona aquilo que hoje se denomina “visão moderna e dominante do mundo” (considerada aqui também como um paradigma social que aglutina crenças, valores, normas e hábitos, servindo de referência para a sociedade) que, por possuir