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Aldo Leopold (1887-1948) é considerado por muitos como um dos precursores da ecologia profunda e um dos mais influentes expoentes do ambientalismo norte-americano, ao lado de Rachel Carson (1907-1964)133.

Aldo Leopold defendeu a preservação da natureza selvagem134 por meio de uma ética da terra que propõe uma revisão da relação homem-natureza e que se baseia nas críticas ao progresso oriundo do desenvolvimento tecnológico e econômico. Essa postura influenciou o debate ecológico subsequente, sendo ainda incorporada pelas propostas que reivindicam reformas ou mudanças drásticas dos paradigmas de sustentação da civilização ocidental. Convém ainda destacar que tal postulação traz repercussões no âmbito metafísico, político e ético, e põe em discussão a importância e a pertinência do humanismo antropocêntrico que a modernidade nos legou.

A sua obra A sandy county almanac (traduzida em português como Pensar como uma montanha), publicada em 1949, que reúne uma coletânea de ensaios ecológicos, constitui uma tentativa de inversão da postura antropocêntrica em defesa do biocentrismo ou ecocentrismo, o que significa, entre outras propostas, conferir o estatuto de comunidade ética a todas as criaturas135.

As ideias e ações de Aldo Leopold tipificam a conduta de um ecologista que, de maneira teórica e prática, esteve intimamente vinculada à sua postura de preservação ambiental136. O primeiro parágrafo do prólogo da referida obra anuncia, simultaneamente, o habitat sem o qual o autor declaradamente não consegue viver e o objetivo sobre o qual reflete buscando a sua preservação: a natureza selvagem. Leopold divide a referida obra em três partes.

133 Rachel Carson foi uma bióloga norte-americana. Publicou, em 1962, a obra: Silent Spring (Primavera silenciosa) cuja temática denuncia os efeitos nocivos do uso de pesticidas provocados no meio ambiente.

134 Aldo Leopold denomina natureza selvagem o tipo de ecossistema em que a relação simbiótica entre fauna e flora mantém a sua dinâmica natural sem a interferência destrutiva da atividade humana.

135 É sabido que a tradição do humanismo antropocêntrico, que nos foi legada pela modernidade, considera o homem como único sujeito ético e de direito.

136 Aldo Leopold concluiu o seu mestrado em ecologia florestal, em 1909, na Universidade de Yale. Da infância até a sua morte, ele manteve contato com ambientes selvagens, tendo comprado uma propriedade de oitenta hectares, em 1935, numa área que ainda conservava aspectos da vida selvagem conhecida como “O Condado das Areias”, na qual passava os fins de semana e que funcionava como um “laboratório” ecológico. Durante vinte e quatro anos trabalhou como funcionário do Serviço Florestal dos EUA. Em 1933, tornou-se professor da Universidade de Wisconsin, lecionando na área de silvicultura. Muitas das passagens, da obra Pensar como uma montanha, retratam a sua observação, aprendizado e experiência com a fauna e a flora existentes em sua referida propriedade.

Na primeira parte, denominada Um almanaque das Terras das Areias, ele narra uma experiência familiar vivida em uma região que ainda mantinha vestígios de natureza selvagem137.

Na segunda parte, intitulada Breves apontamentos, encontramos episódios vivenciados por ele durante quarenta anos no continente americano, cuja experiência evidencia questões ambientais e soluções apontadas para a conservação da natureza.

Na última parte, intitulada O desfecho, Leopold pretende justificar uma “ética da terra” centrada no biocentrismo, o que já é evidenciado, no prólogo, quando ele denuncia os excessos da mecanização e da economia138, bem como está implícito nas três partes da obra nas quais ele nos revela como deve ser uma relação preservacionista do homem com a natureza selvagem.

A sua defesa do biocentrismo é (além de uma tentativa de preservação da natureza selvagem) um esforço de questionamento acerca dos supostos ganhos advindos do progresso industrial e econômico, bem como das consequentes perdas naturais que isso acarretou. Para ele, isso representa um ilusório distanciamento da natureza, uma vez que

um século passou desde que Darwin nos deu os primeiros vislumbres acerca da origem das espécies. Sabemos agora o que era desconhecido de toda a caravana das gerações que nos antecedeu: que os homens são apenas companheiros de viagem das outras criaturas na odisseia da evolução. Esse novo conhecimento deveria já ter-nos proporcionado um sentimento de parentesco com as criaturas nossas companheiras; um desejo de viver e deixar viver; um sentido de maravilhamento diante da magnitude e duração da aventura biótica. Acima de tudo deveríamos, ao longo desse século que nos separa de Darwin, ter compreendido que o homem, apesar de capitão provisório do aventuroso navio, não é de todo o único objeto da sua busca, e que as suas mais importantes pretensões nesta matéria surgem da simples necessidade de assobiar no escuro (LEOPOLD, 2008, p.112-113).

137 “A primeira parte conta o que minha família vê e faz no seu refúgio de fins-de-semana contra o excesso de modernidade: “a choupana”. Nessa propriedade rural das terras arenosas do Wisconsin, primeiro esgotadas e depois abandonadas pela nossa sociedade do sempre-maior-e-sempre-melhor, nós tentamos reconstituir, com a pá e o machado, aquilo q ue estamos a perder noutros lugares. É aqui que procuramos – e ainda encontramos – o nosso alimento vindo de Deus” (LEOPOLD, 2008, p.21).

138 “A conservação da natureza não está a acertar o passo porque ele é incompatível com o conceito abraâmico da terra. Nós abusamos da terra porque a vemos como um bem que nos pertence. Quando vemos a terra como uma comunidade à qual pertencemos, podemos começar a usá-la com amor e respeito. Não há outro caminho para que a terra sobreviva ao impacto do homem mecanizado, e para que nós dela possamos retirar a colheita estética com que pode contribuir para a cultura, ao abrigo da ciência. Que a terra é uma comunidade, eis o conceito básico da ecologia, mas que a terra deva ser amada e respeitada é já uma extensão da ética. Que a terra proporciona uma colheita cultural é um fato de há muito conhecido, mas ultimamente com frequência esquecido. Estes ensaios tentam fundir esses três conceitos. (...) Há pelo menos uma coisa clara como cristal: a nossa sociedade do sempre-maior-e-sempre-melhor comporta-se hoje como um hipocondríaco de tal forma obcecado com a sua própria saúde econômica que acabou por perder a capacidade de permanecer saudável” (LEOPOLD, 2008, p.22).

A única superioridade humana em relação aos outros animais reside, segundo Leopold, na capacidade de reconhecer a importância de preservação das outras espécies e chorar o luto por suas perdas, ou seja, o homem é superior apenas quando tem consciência e preserva os outros seres. Nesse sentido, é uma ilusão pensar que o progresso atesta a superioridade humana, uma vez que ele tende a desviar e distanciar o homem do essencial que reside na natureza, uma vez que, diz ele, “fico a pensar se o processo que habitualmente se chama crescer não será de fato um processo de encolher; se a experiência, tão gabada pelos adultos como aquilo que falta às crianças, não será na verdade uma diluição progressiva das coisas essenciais no trivial da vida” (LEOPOLD, 2008, p.120).

O distanciamento do homem do mundo selvagem e o consequente refúgio em abrigos urbanos proporcionados pelo progresso geram, além de uma situação de desconhecimento e de indiferença em relação à natureza selvagem, a perda do sentimento do medo que é vital para a sua preservação e do respeito que por ela devemos ter, uma vez que o contato direto com o mundo selvagem acarreta o conhecimento e a consciência de que somos um elo e dependemos da natureza para assegurar a nossa sobrevivência. Esta evidência impõe, conforme assinala Leopold, uma reorientação da perspectiva antropocêntrica rumo ao biocentrismo. Desse modo, a expressão “pensar como uma montanha” sugere que nos situemos sob o ponto de vista da totalidade da natureza numa relação de simbiose e de respeito com os outros seres, sob pena de comprometermos, em longo prazo, a própria salvação do mundo139. Pensar como uma montanha significa pôr-se no lugar do outro numa perspectiva holística adotando o ponto de vista daquele. Ou ainda, tal postura consiste em ter a consciência de que na montanha, enquanto um habitat natural, os animais e as plantas mantêm uma relação de interação na qual todos são importantes para a sua manutenção, como bem exemplifica a última referência citada, o que evidencia o fato de que cada animal, inclusive o lobo, ocupa um lugar importante na comunidade biótica que habita a referida montanha.

139“O vaqueiro que livra a sua cordilheira dos lobos não compreende que está a impedir a tarefa do lobo de desbastar a manada por forma que ela se adapte à cordilheira. Ele não aprendeu a pensar como uma montanha. É por isso que temos áreas desertas devido à erosão, e rios que arrastam o futuro para o mar. Todos nós lutamos por segurança, prosperidade, conforto, vida longa, e monótona rotina. O veado luta com as suas longas pernas flexíveis, o vaqueiro com armadilhas e veneno, o estadista com a caneta, a maioria de nós com máquinas, votos e dólares, mas tudo dá no mesmo: paz no tempo que vivemos. Um pouco de êxito nisto é uma excelente coisa, e é talvez um requisito para um pensamento objetivo, mas o excesso de segurança parece ter somente por resultado perigos em longo prazo. É talvez isso que está por trás da máxima de Thoureau: na natureza selvagem reside a salvação do mundo. É talvez esse o significado escondido do uivo do lobo, há muito conhecido das montanhas, mas raramente vislumbrado pelos homens” (LEOPOLD, 2008, p.131).

A perspectiva biocêntrica exige que o fazer científico equilibre o seu compromisso com o progresso com a preservação ambiental. Tal objetivo deve ser alicerçado em uma concepção de educação que ensine o valor da interdependência, da interdisciplinaridade e da visão de conjunto, sob pena de o processo educacional diluir-se em uma atividade que “consiste em aprender a ver uma coisa, tornando-nos cegos para outra” (LEOPOLD, 2008, p.152). A ausência desse cuidado tende a acarretar perdas irreparáveis se por acaso o progresso não for disciplinado pelo ideal de preservação na natureza, pois

o homem não pode viver só de pântanos, por isso tem forçosamente que os suprimir. O progresso não pode permitir que as terras agrícolas e as terras pantanosas, a vida selvagem e a vida domesticada, existam lado a lado numa tolerância e numa harmonia mútuas. Assim, com dragas e valas, drenos e barragens, chupamos os pântanos até secá-los, fazendo deles a cintura do milho, e agora a cintura do trigo. O lago azul torna-se paul verde, o paul verde torna-se lama seca, a lama seca torna-se um campo de trigo. Um dia o meu pântano, drenado e bombeado, irá jazer esquecido debaixo do trigo, tal qual o hoje e o ontem hão-de ficar esquecidos sob o peso dos anos. Antes que o último vairão das lamas se contorça pela última vez na última poça de água, já as andorinhas-do-mar terão gritado o seu adeus a Clandeboye, já os cisnes terão ascendido ao céu desenhando espirais numa dignidade de neve, e os grous terão soprado as suas trombetas em despedida (LEOPOLD, 2008, p.156).

Leopold defende a ideia de que as pessoas devem regressar à natureza, o que pode ser feito, por exemplo, por meio do lazer ao ar livre, desde que tal atividade seja feita de modo preservacionista. Neste sentido, torna-se necessário que os indivíduos tenham a percepção do equilíbrio que deve existir entre evolução e ecologia, pois

chegamos agora a outra componente: a percepção dos processos naturais pelos quais a terra e os seres que nela vivem alcançaram as suas formas características (evolução) e pelos quais mantém a sua existência (ecologia). Aquilo a que se chama “estudo da natureza”, apesar do arrepio que provoca na espinha dos eleitos, constitui a primeira palpação embrionária da mente das massas rumo à percepção. A característica mais notável da percepção é que ela não provoca nem o consumo nem o desgaste de qualquer recurso. Promover a percepção é a única parte verdadeiramente criativa da indústria de recreação ao ar livre (LEOPOLD, 2008, p.165).

O ritmo crescente do progresso tende a diminuir a vivência e a percepção dos indivíduos acerca da necessidade de preservação do mundo selvagem e da natureza em geral. Leopold cita três tipos de valores culturais existentes nas diversões, nos costumes e nas experiências que podem contribuir com a renovação dos contatos do ser humano com a vida selvagem. Em primeiro lugar, ele destaca os valores culturais contidos no nacionalismo, ou

seja, “o valor de qualquer experiência que nos recorde as nossas origens e evolução nacionais específicas, ou seja, que estimule a nossa consciência da história. Essa consciência é “nacionalismo” no melhor sentido da palavra” (LEOPOLD, 2008, p.168-169). Em segundo, ele exalta os valores revelados por experiências que nos lembrem a nossa dependência à cadeia alimentar, o que tende a forjar a consciência de que, além da indústria, precisamos, em primeiro lugar, da saúde da terra para assegurar nossa sobrevivência. Por último, os valores que podem decorrer de um tipo de desportismo que leve o indivíduo a acatar um código de ética que eleve o respeito do desportista por si próprio e pela vida selvagem. Nesse sentido, Leopold acentua que a caça deve ser norteada, enquanto elemento cultural da tradição americana, pelo controle ético do caçador (este, por exemplo, deve atirar somente em um pássaro em voo, jamais quando ele estiver pousado numa árvore) e pela utilização de técnicas primitivas que impõem a não utilização, entre outras coisas, de instrumentos sofisticados produzidos pela indústria de caça, bem como pela não abertura de estradas que invadam o ambiente selvagem etc140.

A maior importância da vida selvagem reside, conforme sugere Leopold, no fato de esta possuir potencial para toda a aventura humana. Assim, é tarefa da ecologia buscar exemplos nas populações animais que possam servir de analogias para a resolução de problemas humanos, pois “ao aprendermos a maneira como pulsam determinadas pequenas partes dosbiota (o conjunto dos seres animais e vegetais de uma região) podemos adivinhar como pulsa o mecanismo no seu conjunto. A capacidade de compreender esses mecanismos mais profundos, e de os avaliar criticamente, eis a futura arte de viver na floresta. Resumindo, outrora a vida selvagem alimentou a nossa cultura” (LEOPOLD, 2008, p.176-177).

Além da possibilidade de o estudo da natureza selvagem servir de fonte de conhecimento para benefício do homem, e da constatação de que ela foi o alimento que delineou a nossa cultura, torna-se necessário, no mínimo, por uma questão de compromisso ético, que preservemos os seus últimos resquícios141, o que evidencia a ideia de que a cultura

140 Convém destacar que Leopold está inserido no contexto da primeira metade do século XX, época de expansão da caça como desporto. A única forma de caça prevista por Leopold é aquela que ele mesmo praticou, ao longo de sua vida, de modo primitivo, tanto no uso das armas, quanto na relação com os animais, visando manter intacta a relação de equilíbrio entre a fauna e a flora locais e as características primitivas do ambiente selvagem. 141 “A natureza selvagem é a matéria prima a partir da qual o homem cinzelou esse artefato chamado civilização. A natureza selvagem nunca foi uma matéria prima homogênea. Ela era muito diversificada, e os artefatos resultantes são, também eles, muito diversificados. A essas diferenças do produto final chama-se culturas. A rica diversidade das culturas humanas reflete uma correspondente diversidade dos espaços selvagens onde se originaram. Pela primeira vez na história da espécie humana, duas mudanças estão agora iminentes. Uma é o esgotamento da natureza selvagem nas porções mais habitáveis do globo. A outra é a hibridização a nível mundial das culturas através do transporte e da industrialização modernos. Nenhuma das duas pode ser evitada, e talvez não devesse sê-lo, mas põe-se a questão de saber se, por meio de algum ligeiro melhoramento das

somente tronou-se possível a partir de uma base, o mundo selvagem, que lhe deu sustentação. Assim, a cultura é vista como uma etapa do desenvolvimento natural do homem.

A saúde da terra (enquanto elemento essencial da agricultura e da conservação da natureza) é um dos ideais defendidos por Leopold, uma vez que a agricultura impulsionada pelos artefatos do progresso e por práticas agrícolas que agridem o equilíbrio ambiental tende a acentuar a infertilidade do solo. Tal fato leva-o a reivindicar a criação de uma ciência que venha realmente cumprir a missão de tratar da saúde da terra, tornando esta um organismo saudável que se mantem a si próprio. Neste sentido, a natureza selvagem desponta como um laboratório para o estudo da saúde da terra, uma vez que ela é exemplo de equilíbrio e de resistência ecológica142. A preservação do que ainda resta de natureza selvagem é, no mínimo, um indicativo de sabedoria ecológica e de humildade intelectual143.

O intuito de preservar o que ainda resta do mundo selvagem e de manter o equilíbrio ecológico levam Leopold a propor o ideal de uma ética da terra visando deslocar o homem do antropocentrismo rumo ao biocentrismo. Nesse sentido, torna-se necessária uma ética ecológica que, ao mesmo tempo, imponha limites “à liberdade de agir na luta pela sobrevivência” e que também oriente os indivíduos a manterem uma relação de cooperação e de simbiose com a natureza, o que implica em um alargamento da ética tradicional144.

mudanças iminentes, podem ser preservados determinados valores que de outra forma se perderiam. Para o trabalhador que vive do suor de seu trabalho, a matéria prima na sua bigorna é um adversário a conquistar. Da mesma forma, para o pioneiro a natureza selvagem foi um adversário. Mas para o trabalhador em repouso, ainda capaz de lançar um olhar filosófico sobre o seu mundo, essa mesma matéria prima é algo a ser amado e acarinhado, pois confere nitidez e significado à sua vida. Este é um apelo à preservação de alguns resquícios de natureza selvagem” (LEOPOLD, 2008, p.177).

142 “A paleontologia oferece provas abundantes de que a natureza selvagem se manteve a si mesma por períodos imensamente longos; que as espécies que a compõem raramente se perdiam ou se tornavam incontroláveis; que o clima e a água construíam o solo tão depressa ou mais depressa do que a erosão o destruía. Por essa razão, a natureza selvagem assume uma importância inesperada como laboratório para o estudo da saúde da terra. (...) J.E. Weaver necessitou apenas de uns poucos hectares de território selvagem para descobrir por que razão a flora da pradaria é mais resistente à seca do que a flora agronômica que a suplantou. Weaver descobriu que as espécies da pradaria praticam um “trabalho de equipa” subterrâneo, distribuindo os seus sistemas radiculares por forma a abranger todos os níveis, ao passo que as espécies abrangidas pela rotação agronômica sobrecarregam um nível e descuidam outro, provocando assim défices cumulativos. Das pesquisas de Weaver emergiu um importante princípio agronômico” (LEOPOLD, 2008, p.184).

143 “A criação de nova natureza selvagem, no pleno sentido da palavra, é impossível. Segue-se, pois, que qualquer programa de defesa da natureza selvagem é um combate de rectaguarda, que tem por fim limitar ao mínimo possível a manobra de retirada. (...) É preciso que uma minoria militante de cidadãos com mentalidade favorável à natureza selvagem se mantenha vigilante no país inteiro, pronta para agir em caso de necessidade. (...) A capacidade de apreender o valor cultural da natureza selvagem reduz-se, em última análise, a uma questão de humildade intelectual. O homem moderno de mente superficial, que perdeu o seu enraizamento da terra, julga que descobriu já o que é importante; ele é do gênero de se pôr a palrar de impérios, políticos ou econômicos, que hão de durar mil anos. Só o estudioso compreende e aprecia que toda a história consiste em sucessivas excursões a partir de um único ponto de partida, ao qual o homem regressa uma e outra vez para organizar mais uma busca com vista a uma escala duradoura de valores. Só o estudioso compreende por que razão a crua natureza selvagem confere nitidez e significado à aventura humana” (LEOPOLD, 2008, p.187). 144 “A primeira ética tratou da relação entre indivíduos; o decálogo de Moisés é um exemplo dela. Aditamentos posteriores trataram da relação entre o indivíduo e a sociedade. A Regra de Ouro tenta integrar o indivíduo na

A concepção de ética defendida por Leopold tem um caráter objetivo e normativo, pois está alicerçada em princípios que atuam “como uma forma de orientação que nos permita enfrentar situações ecológicas tão novas ou tão intricadas, ou que envolvem reações de tal modo diferidas, que a via do que é mais conveniente para a sociedade não pode ser