O ISD é uma corrente teórica muito recente, desenvolvida nos anos 80, do século passado, fundada por um grupo de estudiosos da Universidade de Genebra, que tem em Jean Paul Bronckart (2003, 2006a,b..., 2008a, 2008b) seu principal colaborador. Derivada, inicialmente, da psicologia da linguagem, assumiu, depois, uma perspectiva transdisciplinar, encontrando nas bases epistemológicas do Interacionismo Social o aporte fundamental para investigar a problemática do estatuto e das condições do agir humano (BRONCKART, 2008b), propondo-se, então, a construir uma ciência do humano.
Bronckart (2008b) explica que o Interacionismo Social é um quadro epistemológico, cuja origem decorreu da articulação proposta por pesquisadores de campos científicos diversificados, tais como, Durkheim (1898); Saussure (1916); Dewey (1925); Vygotsky (1927); Bühler (1927); Mead (1934), entre outros, citados por
aquele autor, que tinham o objetivo de constituir uma unidade do objeto das Ciências Humanas/Sociais no quadro de uma "ciência do espírito e da sócio-história". Entendiam esses autores que
a problemática da construção do pensamento consciente humano devia ser tratada paralelamente à da construção do mundo dos fatos sociais e das obras culturais e considerava que os processos de socialização e os processos de individuação são duas vertentes complementares do mesmo desenvolvimento humano. Sustentava-se ainda que os problemas de intervenção prática são centrais para qualquer ciência do humano e que, consequentemente, devia ser fortemente considerada a questão do agir humano em suas relações com o mundo físico, com o pensamento, com a organização social e com a linguagem [grifos do autor] (BRONCKART, 2008b, p. 8).
No entanto, essa concepção de Interacionismo Social arrefeceu em decorrência do positivismo estrutural, que gerou autonomia aos campos da Psicologia, Sociologia, Filosofia, Linguística etc. Depois, reassume o seu lugar de Ciências Sociais/humanas, conciliando posicionamentos políticos, epistemológicos e metodológicos convergentes das várias áreas que abordam a problemática do agir humano, tendo “por característica geral retomar e reformular esse projeto, e particularmente demonstrar como ele pode se aplicar à problemática da ontogênese do pensamento consciente8” (BRONCKART, 2006c, p 100). Esse aspecto é de grande interesse do ISD, que é considerado por Bronckart (2006a, p. 9) uma “variante e um prolongamento" do Interacionismo Social.
Assim sendo, o ISD apresenta um enfoque teórico-metodológico, tendo como ponto central a linguagem enquanto um fenômeno social e histórico, fato que determina o aspecto discursivo para a construção de sua epistemologia. Bronckart (2003) e seu grupo compartilham de três princípios do Interacionismo Social, quais sejam – o materialismo, o monismo e o evolucionismo.
Do materialismo histórico de Marx e Hegel deriva a preocupação com as questões de intervenção prática, cuja realidade social determina a consciência humana. Isso porque a vida material, a atividade de trabalho e suas relações de produção definem a história dos homens e, sendo o homem um ser social, a vida material sócio- historicamente transformada reflete diretamente na consciência e no comportamento dos indivíduos. Desse modo, a compreensão de Bronckart (2006, p. 33) é a de que a capacidade de pensamento ativo "só pode originar-se da reinteração, no humano, das
8 Grifo do autor - A ontogênese diz respeito à evolução individual do homem , ou seja, aos múltiplos processos que cada indivíduo realiza para o desenvolvimento consciente do seu agir.
propriedades da vida social, objetiva, em seus aspectos de práxis, de ação e de linguagem".
Do monismo de Spinoza, advém a compreensão de que matéria e espírito é um todo indivisível, naturalmente ativo, do qual emanam todos os fenômenos físicos e psíquicos, que coexistem e funcionam paralelamente. Essa atividade permanente da matéria permite ao homem capacidades mentais e biocomportamentais para construir conhecimentos parciais, por meio do seu agir ou do seu pensamento, conforme situações interativas. Daí se explica ser imperfeito o conhecimento humano, "porque ele só dá acesso aos atributos da matéria enquanto tais: ele age por discretização desses atributos ontológicos, que são contínuos e infinitos" [grifos do autor] (BRONCKART,
2006c, p. 98).
Do evolucionismo, traz o entendimento do desenvolvimento consciente numa perspectiva filogenética, pois, semelhante ao monismo, para o qual a matéria universal é dinâmica, concebe os processos de pensamento do homem como realidades materiais, que se realizam por meio de uma interação dialética entre mundo material e mundo psíquico, implicando, portanto, em uma (re)organização constante e infinita dos organismos vivos. Assim também acontece com o funcionamento humano, cuja organização e desenvolvimento se realizam por meio das interações sócio- historicamente determinadas.
Ora, se há uma convergência entre as práticas sociais e o processo de conscientização, é devido a dependência direta das interações sociais, que viabilizam a construção do conhecimento e os modos de agir humano. Essa relação aproxima, portanto, o materialismo histórico com o monismo, bem como o evolucionismo, já que essa relação dialética é constante e historicamente situada.
Da exposição desses três princípios, depreende-se que o agir consciente é produto das interações sociais e linguageiras; que as significações são de ordem funcional; os conhecimentos práticos passam pelo processo de semiotização; e as referências verbais ou discursos são portadores de valores históricos, socioculturais e ideológicos (BRONCKART, 2006c). Enfim, que a linguagem é o instrumento fundador do pensamento consciente e instrumento organizador do funcionamento das atividades sócio-discursivas. Essas ideias são compartilhadas e aprofundadas pelo ISD, que propõe, segundo Bronckart (2008b), um programa de análise descendente, envolvendo três etapas complementares:
A análise dos principais componentes dos pré-construídos específicos do ambiente humano: as atividades coletivas, as formações sociais, os textos e os mundos formais de conhecimento;
O estudo dos processos de mediação sociossemióticos, no quadro dos quais se realiza a apropriação, na criança e no adulto, de certos aspectos desses pré- construídos: os processos de educação informal, os processos de educação formal e os procedimentos cotidianos de interação social;
A análise dos processos de desenvolvimento, que envolve os efeitos dos processos de mediação e apropriação dos pré-construídos sobre a constituição do pensamento psíquico: as condições de emergência do pensamento consciente, as condições de desenvolvimento permanente das pessoas, e os processos de transformação contínua dos pré-construídos coletivos.
Bronckart (2006c, p. 99) desenvolve suas pesquisas, portanto, concebendo o psiquismo humano associado à "construção dos conhecimentos pelo exame da evolução histórica das formas de pensamento, em suas relações com a evolução das coisas pensadas". Propõe analisar a ontogênese e a filogênese, origem e desenvolvimento do pensamento consciente humano, sob o prisma das interações entre o mundo objetivo e o mundo psíquico-cognitivo. Desse modo, salienta o papel da linguagem, dos instrumentos e do trabalho, na perspectiva marxista, convocando para a sua base epistemológica a teoria vygotskiana sobre o desenvolvimento cognitivo, por esta compreender que "a interiorização dos signos da língua natural em uso no ambiente é a condição necessária para transformação do psiquismo prático em um pensamento consciente" (op.cit., p, 106), fato que leva Bronckart a acrescentar ao seu quadro a teoria saussureana para fortalecer os pilares do ISD.
É, pois, com base nessa triangulação - linguagem, instrumento e trabalho -, que focarei a minha investigação e que passo a discorrer a seguir: