O foco de observação desta pesquisa são as construções discursivo-textuais empregadas em produções orais e escritas de duas colaboradoras em experiência na EaD, o que a torna um estudo de caso. Como versa especificamente sobre o agir do professor em situação de trabalho, cuja construção identitária é impregnada de valores, costumes e de práticas situadas historicamente, logo passíveis de interpretação e avaliação sociais, recorro aos parâmetros da pesquisa qualitativa27.
De abordagem naturalista, que, segundo Denzin e Lincoln (2006, p. 15), leva os seus pesquisadores a estudar "as coisas em seus cenários naturais, tentando entender, ou interpretar os fenômenos em termos de significados que as pessoas a eles conferem", a pesquisa qualitativa explica as mais diversas situações de trabalho, sem tender à generalização, mas à compreensão da especificidade inerente a cada contexto.
Sabendo que a diversidade e a heterogeneidade fazem parte das situações de trabalho, principalmente às referentes ao ensino, é que esses autores chamam a atenção para os pesquisadores qualitativos construírem uma compreensão consistente dos fenômenos observados e, para tal, orientam para a utilização da variedade técnico-
27 Esta pesquisa obteve a autorização do Comitê de Ética e Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Paraíba - CEP/CCS, seu projeto tendo sido aprovado por unanimidade na 4ª Reunião realizada no dia 24/04/2014, conforme Nº do Protocolo: 0100/14. CAAE: 26309714.4.0000.5188.
metodológica, tais como: a entrevista, os textos e as produções culturais, os textos observacionais, históricos, interativos e visuais, inclusive com a triangulação dos dados coletados\gerados por instrumentos variados, a fim de ampliar o olhar sobre o objeto e a realidade que o circunscreve e assegurar suas interpretações.
Tal procedimento instrumental e de métodos se justifica pelo fato de esse tipo de pesquisa buscar adaptar os meios empregados à dinâmica social, já que os aspectos centrais
consistem na escolha correta de métodos e teorias oportunos, no reconhecimento e na análise de diferentes perspectivas, nas reflexões dos pesquisadores a respeito de sua pesquisa como parte do processo de produção de conhecimento, e na variedade de abordagens e métodos (FLICK, 2004, p. 20).
É interessante perceber a preocupação com métodos e teorias, uma vez que, sendo o foco da pesquisa qualitativa as práticas cotidianas, deve-se considerar formas de agir humano, apreendidas, segundo Bronckart (2006e, p. 138), sob o ângulo das atividades coletivas, que tanto "organizam as interações dos indivíduos com o meio ambiente (...) com um ou com vários indivíduos singulares". Ainda conforme este autor, por ser a espécie humana a única dotada de um agir comunicativo verbal que possibilita as interações coletivas e\ou individuais, aquelas atividades são planejadas, reguladas avaliadas socialmente mediante as atividades de linguagem.
Acrescente-se que a pesquisa qualitativa viabiliza analisar o agir docente considerando as histórias, os valores, as apreciações dos participantes (pesquisador e colaboradores), os fatores subjetivos que são condição necessária para múltiplas interpretações. Mas é importante não confundir com a ideia de que trata de mera narrativa da vida social. Para evitar essa confusão, Flick (op. cit.) apresenta quatro critérios essenciais para a construção reflexiva sobre o que se está discutindo, afastando qualquer risco de não cientificidade. São eles: a apropriabilidade de métodos e teorias; as perspectivas dos participantes e sua diversidade; a reflexividade do pesquisador e da pesquisa; além da variedade de abordagens e de métodos.
O primeiro aspecto, a apropriabilidade de métodos e teorias, considera que, sendo o objeto estudado parte do cotidiano social, constituído de suas interações e complexidades, a pesquisa qualitativa analisa-o respeitando a sua diversidade e heterogeneidade. Assim, o próprio objeto "é fator determinante para a escolha de um método e não o contrário (...) [ele] não é reduzido a variáveis únicas, mas é estudado em sua complexidade e totalidade em seu contexto diário" (FLICK, 2004, p. 21). No caso
desta pesquisa, por exemplo, que se situa na LA, o hibridismo teórico-metodológico é uma característica marcante, uma vez que é um campo de pesquisa que acompanha a célere transformação da sociedade contemporânea nos mais diversos âmbitos - social, cultural, político, econômico etc. Por outro lado, a LA ainda lida com vestígios de práticas tradicionais, uma vez que a opção por determinado aporte teórico- metodológico não deixa de ser
escolhas políticas determinantes das formas de produção de conhecimento, posição que torna mais claro o processo de seleção embutido em nossas teorizações, afiliações e inserções em determinados regime de verdade legisladores de possibilidades de ser e existir, de referências de autoridade e de padrões de "normalidade" (FABRÍCIO, 2006, p. 51).
Dessa forma, cabe ao pesquisador buscar construir críticas da modernidade agendada em uma perspectiva sociopolítica configurada pela sócio-história dos seus sujeitos e credenciada pela ética, respeitando as vozes que permeiam o cotidiano social e científico, ou seja, o respeito a normas e valores que reflitam posições discursivas específicas comprometidas com projetos de construção do significado e do conhecimento ( MOITA LOPES, 2006). Para tanto, o pesquisador deve conhecer muito bem o seu objeto de pesquisa para saber fazer as articulações teórico-metodológicas que melhor contribuam para as suas interpretações, sem perder de vista as relações de poder.
O que se percebe, portanto, é que tudo isso é melhor explicado com a análise das práticas linguageiras, por isso a minha escolha pelos aportes da LA, cujo propósito é investigar "a problematização da vida social, na intenção de compreender as práticas sociais nas quais a linguagem tem papel crucial" (MOITA LOPES, 2006, p. 102). Especificamente, sigo as orientações do ISD que, ao trabalhar com discursos e/ou textos na perspectiva sócio-cultural vygotskiana, permite que o objeto de pesquisa "ganhe vida", deixando emergirem as ações de linguagem, que possibilitem interpretações mais inteligíveis e consistentes, já que mobilizam as "dimensões físicas (comportamentais) e psíquicas (mentais) das condutas humanas" (BRONCKART, 2003, p. 40).
O segundo aspecto citado por Flick (op.cit.), as perspectivas dos participantes e sua diversidade, correspondem à implicação das subjetividades do pesquisador e pesquisado(s) no fenômeno a ser pesquisado, de modo que o objeto possa ser visto em sua historicidade, em suas "diversas perspectivas subjetivas e ambientes sociais a eles relacionados" (FLICK, 2004, p. 22). A esse respeito, Denzin e Lincoln (2006) chamam
a atenção para a forma de captar o ponto de vista, devendo-se empregar instrumentos de coleta, tais como a entrevista e a observação detalhada, a fim de garantir uma análise minuciosa da vida social cotidiana bem como dos detalhes descritos.
Por sua vez, a reflexividade do pesquisador e da pesquisa, terceiro aspecto apontado por aquele autor, trata das reflexões que devem ser construídas no decorrer de todo o processo de pesquisa, desde a elaboração da questão-problema da pesquisa e sua relevância para conduzir encaminhamentos sólidos para a construção do conhecimento científico, até o método de coleta/geração de dados compatível com os anseios da pesquisa, além da escolha de um referencial teórico que possa validar as interpretações do fenômeno. A reflexividade, portanto, é uma ação consciente do fazer científico do pesquisador, pautada pelos aspectos ético-políticos, por meio da qual ele deverá lidar com os valores e demais atributos dos colaboradores e dele mesmo, já que "suas impressões, irritações, sentimentos, e assim por diante, tornam-se dados em si mesmos, constituindo parte da interpretação" (FLICK, 2004, p. 22).
Por fim, o último ponto mencionado por esse autor, a variedade de abordagens e de métodos, permite ao pesquisador qualitativo fazer escolhas dos recursos teórico- metodológicos que tanto viabilizem o desenvolvimento como possibilitem respostas significativas para a pesquisa. No entanto, essas escolhas não podem ser aleatórias, elas devem ser de natureza prática, empírica e técnica, e adaptadas à especificidade do objeto em estudo, podendo, para isso, consistir da "triangulação (...) uma tentativa de assegurar uma compreensão em profundidade do fenômeno em questão" (DENZIN E LINCOLN, 2006, p. 19) e, consequentemente, obter resultados significativos de modo a contribuir para a vida social. Sobre esse fato, Flick (op. cit.) defende que uma das formas de fazer opções adequadas é considerar características inerentes à pesquisa, tais como o ponto de vista subjetivo; o curso das interações; a reconstrução das estruturas do campo social e o significado latente das práticas.
Tais argumentos fazem-me compreender que a pesquisa qualitativa é, eminentemente, uma pesquisa das práticas sócio-discursivas, constituindo-se, assim, em uma área de fronteira interdisciplinar, já que, para se compreender a dinâmica da vida humana, deve-se considerar os fenômenos social, político e histórico, além da própria linguagem. Essa conjuntura exige, segundo Moita Lopes (2006, p. 98), um hibridismo teórico e metodológico de modo a potencializar as interpretações significativas sobre a "complexidade da vida contemporânea", na qual incluo aqui a pesquisa em EaD.