O contexto desta pesquisa teve como cenário o curso de Letras/Língua Portuguesa na modalidade a distância, oferecido pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB. Vale salientar que não é o curso em si alvo da minha investigação, mas a ação de linguagem autoral do MDI elaborado naquela instituição, pois, pautando-me em Bronckart (2003), entendo que o sujeito, sendo sócio-histórico, é constituído de uma memória discursiva, alicerçada pelo coletivo sociocultural e, por isso, carrega em si significações demarcadas pela dimensão tempo-espacial, que são explicitadas nos e pelos discursos. É esse pré-construído responsável pelas mediações formativas consubstanciadas, por sua vez, nas atividades sociais e de linguagem e nos mundos
formais, que leva os indivíduos a agirem conforme as pretensões de validação social, o
que implica ser o agir humano consoante com as representações coletivas, fato confirmado por Bronckart (2003, p. 44) quando diz: "os seres humanos particulares se apropriam das capacidades de ação, dos papéis sociais e de uma imagem sobre si, isto é, das representações de si mesmos como agentes responsáveis por sua ação".
Compreendo ainda, assim como Clot (1999, 2010) e Bronckart (2006a, 2008b) entre outros, que a atividade docente deve ser analisada na triangulação do trabalho prescrito (institucional), realizado (desenvolvido pelo próprio professor-autor) e do não- realizado (o que poderia ter sido desenvolvido e que, por alguma razão, não aconteceu). (Cf. Cap. II, subseção 2.1). Por isso, além do MDI, adicionei os discursos das professoras-autoras sobre o seu agir no processo de produção do MDI, geradas pela técnica da entrevista. Esses dois ângulos instrumentais se complementam e me permitiram diferentes representações do trabalho dessas colaboradoras.
Por outro lado, creio que o cruzamento entre o trabalho realizado e a avaliação deste pelo próprio ator, ou seja, o autor do texto, dotado de capacidades, motivos e intenções para agir, logo responsável pelo seu fazer e o seu dizer, seria uma maneira de certificar o fazer consciente da atividade de elaboração do MDI, o que proporcionaria reflexão e, se necessário, possíveis (re)trabalhos para a definição de identidade autoral daquele professor-autor. Nesse caso, aproximo nesta pesquisa, a técnica da entrevista ao modelo da autoconfrontação simples, defendida por Clot (2010, p. 139), que argumenta ser um espaço e tempo em que “o sujeito descobre a respeito de sua atividade, sobretudo quando ele não consegue expressá-lo”. Faïta (2005) ainda acrescenta:
o indivíduo (na presença do pesquisador) é levado a se implicar subjetivamente na sua produção discursiva, ao mesmo tempo em que descreve e comenta um curso de ação objetivamente representado pela imagem, na qual ele mesmo figura: ao mesmo tempo ator, sujeito e objeto da sua própria atividade (FAITA, 2005, p. 87).
Tudo isso me fez pensar na elaboração do MDI como atividade educacional e como ação de linguagem, guiada por prescrições teóricas, como as citadas anteriormente, e oficiais, como as presentes nos Referenciais de Qualidade para
educação superior a distância que complementam as “determinações específicas da Lei
de Diretrizes e Bases da Educação, do Decreto 5.622, de 20 de dezembro de 2005, do Decreto5.773 de junho de 2006 e das Portarias Normativas 1 e 2, de 11 de janeiro de 2007” (BRASIL, 2007, p. 2). Somem-se a isso, as representações sócio-profissionais dos professores-autores, que delineiam o estilo autoral explicitado não só pela linguagem, mas também por escolhas que viabilizam interpretações sobre a atividade docente.
O olhar sobre o MDI está voltado para a análise da influência dos pré- construídos na mediação formativa nesse material, esta última relacionada, aqui, especificamente aos processos de educação formal, salientando a dimensão didático- pedagógica do MDI. Saliente-se que a análise desse material mantém uma interdependência com a análise da atividade de trabalho, como entendida pela Ergonomia, que, segundo Machado (2009), é uma atividade guiada por normas, mas facultada a reconfigurações, conforme os aspectos cognitivo, emocional, linguageiro, histórico e social dos actantes envolvidos (professor e alunos). Sendo assim, a análise desse objeto é vista também sob a ótica do trabalho prescritivo, consonante com instâncias institucionais superiores e com o trabalho desenvolvido, considerando os pré- construídos socioculturais do professor-autor.
O segundo olhar é sobre as verbalizações, pois entendo, assim como Bulea (2010) e Bronckart (2008b) que, em se tratando de formação de adulto, como é o caso da EaD no contexto brasileiro, a análise dos textos/discursos, provenientes de entrevistas dos trabalhadores sobre a sua atividade de trabalho, aponta em duas direções: para o pesquisador, permitindo-lhe compreender com mais pontualidade o entorno das ações e as representações dos colaboradores e, para estes últimos, uma possível tomada de consciência e, talvez, uma ressignificação de suas ações e resoluções de conflitos circunscritos no processo de realização da atividade. A verbalização, portanto, é um instrumento de cunho psicológico que permite um diálogo interior, a
partir do diálogo exterior com o observador (CLOT, 2010). É com esse entendimento que a Clínica da Atividade apresenta a autoconfrontação, método de observação e de geração de dados sobre o agir (CLOT, 2010 e FAÏTA, 2002), em que o trabalhador faz comentários sobre as ações realizadas com o pesquisador, eclodindo daí situações ocultas e até inconscientes do trabalhador, que refletem
dramas dos fracassos - o que se desejaria ou poderia ter feito e o que se pensa ser capaz de fazer noutro lugar. E [...] [paradoxalmente] - o que se faz para evitar fazer o que deve ser feito; o que deve ser refeito, assim como o que se tinha a contragosto [ou seja], [...] As atividades suspensas, contrariadas ou impedidas (CLOT, 2010, p. 104).
O posicionamento de Clot (op.cit.) põe em evidência, então, uma terceira dimensão do trabalho, denominada de o real da atividade (Cf. Cap. II, subseção 2.1, p. 69), que está presente na atividade, embora oculta, mas que tem seu peso na análise, já que permite o trabalhador refletir sobre o seu trabalho e sobre o gênero da atividade. De maneira sintética, a autoconfrontação simples, que estou tomando como parâmetro, é aquela que, a partir de gravação(ões) de uma situação de trabalho pelo pesquisador, possibilita o trabalhador, num outro momento, na companhia desse pesquisador, observar, analisar, comentar as imagens e refletir sobre o seu próprio agir. Por fim, os comentários da autoanálise se tornarão objeto de análise de pesquisa.
Ora, o que eu proponho é uma autoconfrontação, tomando não uma imagem concreta do trabalhador, mas uma imagem representada do autor no MDI, já que o livro, como afirma Volochinov (2004[1929]), é um ato de fala impresso e, como tal, deixa revelar o indivíduo (BAKHTIN, 2003[1992]) e, por conseguinte, o seu agir.
Logo, o uso da entrevista vem promover um confronto entre o professor-autor com a sua obra, o MDI, espaço esse em que se pode manifestar uma atitude reflexiva daqueles colaboradores, uma vez que as verbalizações produzidas irão possibilitar perceber a consciência prática por meio da consciência discursiva. Busco, pois, construir um espaço para analisar a morfogênese da ação (BRONCKART, 2008b), ou seja, "um conjunto de condutas individuais mediatizadas pela atividade coletiva, concomitantemente com a atividade de trabalho" (BULEA, 2010, p. 82), o que permite perceber algum efeito de desenvolvimento humano, pois acredito ser no confronto das diversas leituras que pode haver compreensão das múltiplas dimensões e significações do agir docente e, consequentemente, contemplar os objetivos desta pesquisa. Assim, a
construção dos meus dados se dá em duas etapas, uma de coleta e a outra de geração dos dados.
3.3 A constituição dos dados: coleta/geração dos dados documental e da entrevista