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Conforme abordado no primeiro capítulo, a educação formal constitui apenas um dos tipos de educação que podem ser facilmente encontrados em nosso cotidiano. A educação não formal também tem forte presença em nossas vidas, posto que é constituída por todos os processos de aprendizagem que acontecem com o compartilhamento de experiências, em espaços de ação coletiva (MOURA, ZUCCHETTI; 2010).

Apesar da ênfase realizada pela educação formal na aquisição de conhecimentos científicos e de habilidades necessárias para a formação da força de trabalho, o foco dos processos educativos é a ação humana em geral. Quanto mais a educação formal se distancia da realidade vivida pelos aprendizes, maior é a oferta de projetos compensatórios de educação não formal, que tentam oferecer uma educação voltada para a vivência social dos indivíduos (MOURA, ZUCCHETTI; 2010).

Existem, portanto, diversas práticas no âmbito educacional. O termo prática é utilizado neste texto conforme a acepção empregada por Foucault. Assim, práticas são o comportamento emitido pelos indivíduos, por meio de ações e de discursos. As práticas constituem porção fundamental da experiência humana. Sua importância permite que o estudo das práticas explique os objetos (FOUCAULT, 1979, 1994, 2009; SANCOVSCHI, 2010).

Daí o nosso enfoque nas práticas de estudo on-line. Uma vez que nos interessamos em entender os processos de estudo na contemporaneidade, voltamo- nos para as ações de estudo empregadas pelos indivíduos, para as suas práticas. Trata-se de uma estratégia inspirada na obra foucaultiana.

Foucault, em seu trabalho como historiador, focou nas práticas, nas realizações que levaram à constituição de determinado objeto, privilegiando o processo e não o que resultava dele. Esta abordagem é justificada pelo argumento de que para explicar os produtos, é necessário observar as formas como foram constituídos. Assim, prática é qualquer realização humana, podendo se dar por meio de intervenções físicas e de discursos, por exemplo (FOUCAULT, 1994; SANCOVSCHI, 2010).

A abordagem foucaultiana desnaturaliza os objetos. Um objeto como o estudo tem que ser percebido sob a perspectiva das realizações humanas que produziram sua condição atual, e não como um objeto natural e permanente. Este método convida ao estabelecimento de um olhar atento ao presente, bem como à virtualidade dos objetos – aquilo que não são ou que não são ainda. Demarcar as inconstâncias dos objetos torna-se mais importante do que a produção de uma verdade fictícia sobre os mesmos (FOUCAULT, 1994; SANCOVSCHI, 2010).

Para fins desta dissertação, consideramos que práticas de estudo são as ações realizadas intencionalmente para aquisição e/ou produção de conhecimento. Neste sentido, tais ações podem ser realizadas individual ou coletivamente, no âmbito de uma instituição educacional tradicional ou em um espaço pouco estruturado. Não buscamos analisar, contudo, o estudo incidental6 – aquele que

acontece ao longo das vivências diárias do indivíduo, sem que este tenha buscado se expor à situação de aprendizagem. Ainda assim, observa-se uma ampla variedade de comportamentos que podem ser considerados como práticas de estudo para fins deste trabalho.

Ao escolher abordar o estudo a partir de suas práticas, optamos por observar sua concretude e diversidade, por privilegiar as ações que os indivíduos têm, de fato, empregado como estratégias de aprendizagem. Diante de tal opção,

6 O estudo incidental, assim como a educação a distância, são práticas que não participam do escopo analítico desta dissertação devido não à sua pouca importância na contemporaneidade, mas à necessidade de delimitação de nosso objeto de estudo.

os efeitos das práticas não podem ser ignorados. As práticas de estudo produzem o estudo e o estudante. Produzem uma rede cuja análise atenta nos permite compreender e avaliar as práticas de estudo (SANCOVSCHI, 2010).

Dentre as práticas que podem ser observadas a fim de analisarmos processos de subjetivação, o presente estudo enfoca práticas de estudo on-line. Estas são ações realizadas com o apoio da web com a intenção de adquirir e/ou produzir conhecimento. Trata-se de uma definição propositalmente ampla, capaz de abranger a multiplicidade de experiências que os participantes desta pesquisa apresentaram.

Entre o compartilhamento de videoaula através de grupo de mensagens instantâneas no celular e o acesso a resenhas literárias disponibilizadas pela internet, para ilustrar sucintamente o relato feito pelos universitários, há diversas ações desempenhadas com fins de aprendizado que contam com o apoio da internet. Trata-se de uma realidade que não podia ser verificada em contexto em que o acesso à internet não fosse facilitado.

A progressiva ampliação do acesso à internet vem sendo relatado na literatura há anos. Em 2011, pesquisadores de Fortaleza publicaram resultados de pesquisa quantitativa realizada com estudantes de escola pública da cidade, em que os números sobre o acesso à internet já eram significativos. Já naquele ano, os estudantes afirmaram que a o acesso à web era sua atividade de lazer predominante, figurando mais de o dobro de vezes do que teatro ou cinema na resposta dos estudantes (VIANA et al., 2012).

Segundo Viana et al. (2012), os mesmos estudantes afirmaram usar a web para atender demandas produzidas na sala, como realização de pesquisas e trabalhos escolares, ao mesmo tempo em que a escola se configurou como o espaço em que os jovens menos acessavam à internet. Nota-se que a limitação do acesso à web na escola não impede que os alunos produzam uma rede constituída por sala de aula, internet e práticas de estudo.

A função pedagógica exercida pela mídia, que é capaz de funcionar como um importante vetor de constituição de percepções de si e do mundo, não implica em passividade. Esta não passividade parece mais clara com a incidência da mídia com suas formas de redes sociais digitais, em que os estudantes têm a clara possibilidade de produzir e veicular conteúdo próprio (MIRANDA et al., 2015).

line, estamos diante de novas atitudes ante a aprendizagem e a utilização da internet. Que efeitos estes comportamentos trazem para a relação que os universitários constituem com o material de estudo? Que estudantes e que futuros professores estão sendo engendrados com estas novas práticas?

A noção de que práticas de estudo on-line podem contribuir para novas formações subjetivas se apoia na obra de Foucault (1979; 2009). Foucault afirma que o sujeito é um efeito híbrido de relações de produção política, através de práticas que, ao serem estudadas, mostram-nos não apenas o que somos, mas também o que podemos deixar de ser (FOUCAULT, 1979; 2009).

Enfocar práticas de estudo on-line implica reconhecer sua concretude, e consequentemente, sua multiplicidade. Resulta também na busca dos efeitos de tais práticas, uma vez que não existem práticas neutras. De fato, são os efeitos das práticas que permitem que elas sejam avaliadas – simplesmente porque se a ideia de essência é descartada, não há porque analisar um objeto considerando-o apriorístico (SANCOVSCHI, 2010).

Isto que se passa entre é responsável pela produção de sentidos e pela possibilidade de nos formar, nos transformar e até nos deformar. Desse modo tanto o estudo, quanto a leitura ou a formação afastam-se da busca por saber. O que está em jogo não é uma compreensão adequada, conformada, certa, mas sim a multiplicidade de sentidos possíveis que nascem no encontro, por exemplo, entre o estudante e o material de estudo (SANCOVSCHI, 2010, p. 74).

Podemos entender que o aprendizado não é anterior às práticas de estudo empregadas pelos universitários e que as práticas empregadas por estes têm efeitos próprios em sua relação consigo, com o conhecimento e com o mundo em geral, e que, portanto, podem também produzir uma relação diferenciada em relação aos seus futuros estudantes.

A aproximação entre tais efeitos e a pesquisadora se deu em uma trajetória curva e irregular. Avanços e recuos no encontro entre pesquisadora, literatura, entrevistas e escrita foram constantes durante todo o processo, e de fato se mostraram necessários ante a consideração da complexidade de uma pesquisa repleta de elementos híbridos. É este modo de caminhar, harmônico em suas próprias assimetrias, que é apresentado no capítulo a seguir.

3. HABITANDO O DESCONHECIDO - A CONSTRUÇÃO DE UM TERRITÓRIO DE

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