Práticas de estudo tradicionais são estruturadas de modo que seus meios e fins sejam claros o suficiente para transmitir confiabilidade para a sociedade. Quando um estudante se posiciona em uma biblioteca com um livro na mão, parece evidente qual o seu objetivo e como esse objetivo será atingido. As práticas de estudo on-line, por sua vez, ainda não são conhecidas o suficiente para gozar de reconhecimento semelhante às práticas de estudo tradicionais.
Assim, pode parecer que um estudante navegando na web não conseguirá alcançar nenhum objetivo educacional específico. Ou mesmo que, independentemente da forma como a navegação aconteça, os resultados serão sempre surpreendentemente positivos. O que, do ponto de vista teórico, pode ser mais facilmente compreendido quando se trata de recognição, deve ser aqui explicitamente afirmado no referente à invenção: o espontaneísmo não é a chave para práticas de recognição ou de invenção (KASTRUP, 2001; 2004).
O relato de Joana a relação entre suas práticas de estudo e dispositivos de acesso à internet contribuirá aqui para que entendamos a necessidade de ordenação nas práticas de estudo on-line. Segue trecho em que a universitária
afirmou que seu smartphone estava prejudicando suas práticas de estudo.
Pesquisadora: “Como é isso, dessa perda do seu foco?”
Joana: “Pois é, eu não tinha isso antes. Inclusive eu atribuo muito à utilização de redes sociais, de celular. Porque, por exemplo, agora eu não estou mais estudando com o celular perto. Que é uma coisa que eu percebi que realmente quando eu estava com o celular aqui, estudando aqui, se o celular vibrava, mesmo que fosse só um e-mail, eu ia lá, olhava, já perdia toda a concentração. (...). Aí, você vai ver uma reportagem no Instagram, aí no final tem outra reportagem para você ler, aí eu acho que é um beco sem saída. Eu acho que estou perdendo tempo. (...). Tem melhorado depois que eu deixei de ficar com o celular perto.”
A atenção não é um atributo estático. A própria universitária relatou que, em sua experiência, houve momentos em que foi capaz de manter sua atenção em um mesmo ponto por mais tempo do que em outros. O emprego da atenção passa por um processo de aprendizagem (KASTRUP, 2001; 2004). Faz-se necessário elaborar estratégias para a manutenção do foco de atenção, como relatado por Joana:
Joana: “Eu já tentei inclusive desligar os dados móveis. Eu desligo os dados móveis e aí eu fico [estudando]. Mas no ônibus, por incrível que pareça, eu consigo me concentrar bem quando eu estou com celular e agenda. Não sei por que, talvez porque tenha movimento, não sei.”
Na contemporaneidade, somos constantemente convidados a processar muitas informações ao mesmo tempo. Isto implica em aprender a manipular a atenção de modo que seu foco seja mudado constantemente, em um movimento de dispersão constante. A alta velocidade de mudança de foco da atenção não necessariamente concede-nos o tempo necessário para experienciar a informação, de modo a processá-la de um modo particular e a termos uma experiência genuína de aprendizado (LAROSSA, 1994).
Dada a linguagem costumeiramente utilizada na internet – simples, rápida, conectada a diversos pontos de informação – as práticas de estudo on-line exigem uma autorregulação firme por parte do estudante. Como apontado por Sibilia (2012, p. 194): “(...) para aproveitar um programa de e-learning, necessita-se de
dedicação e perseverança, além de uma capacidade de concentração que permita estudar em ambientes não escolares.”
Surpreende, no relato de Joana, o fato de a universitária afirmar que o celular a atrapalha e que por isso prefere estudar distante dele, ao mesmo tempo que o celular é sua principal ferramenta de estudo quando está retornando para casa depois das aulas, no ônibus que a leva para a localidade em que mora (fora do município de Fortaleza).
Pesquisadora: “E como é isso que você estava comentando antes, que gosta de estudar sem o celular por perto porque te atrapalha. Mas aí você estuda com o celular!”
Joana: “Quando eu leio em PDF, sim. É, me tira um pouco de foco, quando aparece uma notificação eu fico lá, querendo olhar. Mas aí é uma questão de policiamento mesmo. (...).”
A universitária otimiza a utilização do seu tempo aproveitando as horas de translado entre a localidade em que reside e a universidade para ler textos em formato de PDF no seu celular. Esta prática de estudo foi possível apenas porque Joana se autorregula e não se permite checar as notificações que chegam em seu smartphone.
Foucault identificou no dispositivo escolar mecanismos disciplinares que incidem sobre o indivíduo, a fim de obter uma certa docilização dos corpos. Ainda que a ação desses mecanismos seja parcialmente internalizada pelos indivíduos, há sempre um agente externo que constrange a conduta dos indivíduos. A contemporaneidade, por sua vez, tem oportunizado o engendramento de mecanismos de controle mais fluídos, que impõem ao indivíduo que ele estabeleça consigo uma relação de autocontrole, como relatado por Joana (BRANCO, 2002).
Faz-se necessário manter a atenção focada por um período, intervalado com momentos de livre fruição da atenção. É preciso ainda que a prática de estudo seja orientada por certa intencionalidade, ainda que haja alguma flexibilidade no objetivo. De todo modo, as práticas de estudo on-line representam uma oportunidade para que os estudantes superem dificuldades que possam encontrar em práticas de estudo tradicionais.