Os participantes desta pesquisa relataram uma forte interação entre práticas de estudo on-line e práticas de estudo tradicionais, como a participação em aulas da universidade e a leitura de bibliografia recomendada pelo professor universitário. Por diversas vezes, as práticas on-line e off-line foram mencionadas em um sentido complementar, em que umas incrementavam a eficácia das outras.
A sala de aula apareceu, ainda, como espaço ao qual os estudantes realizavam contraposição ao performar as práticas de estudo on-line. Isto porque a sala de aula da universidade não atendia às suas necessidades enquanto estudantes, e tampouco lhes oferecia oportunidade de apresentar tais necessidades. Diante da inviabilidade de transformar a sala de aula, os universitários criaram espécies de rota de fuga em direção ao conhecimento.
Fabiano: “Eu tenho muitos problemas com os meus professores universitários. Porque eles me incentivaram a estudar, não estudando. Eles me incentivaram a estudar quando eu entrei em sala de aula e percebi que o professor falava coisa que ele pouco sabia. (...). Então, você pega um problema ali e transforma em algo produtivo.”
Considerando-se que o processo ensino-aprendizagem ocorre em espaços interacionais, as desconformidades não devem ser silenciadas, as dúvidas não devem ser caladas. A sala de aula deve ser um espaço orientado pelo professor, mas com oportunidade para que os estudantes apresentem suas necessidades em termos de aprendizagem e para que mudanças pertinentes aconteçam.
Muitas vezes, a divergência é deixada de fora da sala de aula tradicional, como se a classe fosse um espaço mais para que um mestre profira verdades essenciais do que para discussões entre aprendizes. Entretanto, um risco estratégico que se deve correr, tanto no processo de aprendizagem como no processo de pesquisa, é o da recalcitrância. O recalcitrante é aquele que se recusa a seguir ordens, aquele que contraria os regulamentos obstinadamente. Como argumenta Latour, diferir é fundamental para realizar traduções e afetar a rede (LATOUR, 2005; MELO, 2011).
Fabiano: “A gente ia estudar fulano de tal na cadeira, mas eu descobria que tinha outro cara que pensava o contrário e o pensamento ao contrário era muito mais interessante, muito mais real, muito mais para minha realidade do que o que a universidade estava me dando. Então por isso que eu te digo que os meus estudos na academia, os meus teóricos que eu trabalho no TCC [trabalho de conclusão de curso], quase nenhum é trabalhado na universidade – no meu curso. Pode ser que lá na [faculdade de] filosofia, na [faculdade de ciências] sociais alguém trabalhe eles.”
Para Fabiano, o ato de estudar sempre se relacionou a alguma necessidade de seu cotidiano. O universitário relatou que, durante os anos escolares, sentia dificuldade em estudar matérias que não lhe pareciam ter utilidade prática. Já na universidade, diante da necessidade de se preparar para atuar como professor, passou a buscar teóricos que pudessem orientar sua prática. Neste contexto, tornou-se um aprendiz dedicado. Relatou ter passado os dias de alguns dos seus períodos de férias na biblioteca da universidade.
Fabiano não se contentava com o que lhe era indicado em sala de aula. As práticas de estudo on-line lhe apareceram como ótima alternativa, uma vez que encontrava discussões sobre diferentes autores na internet, o que ajudava a Fabiano a escolher as referências que mais se adequavam ao que procurava e a encontrar obras seminais – busca realizada na biblioteca da universidade ou na própria web.
É válido considerar que o fato de o universitário ter tido acesso a alguns autores apenas pela internet não indica que a apropriação que Fabiano fez de tais autores foi, de algum modo, prejudicada. Com efeito, práticas de estudo on-line podem ser tão ou mais efetivas que as práticas de estudo tradicionais. É o que afirma Sibilia (2012) ao relatar uma pesquisa que comparou o uso de salas de bate- papo virtuais com as discussões presenciais que aconteciam em sala de aula:
“O presencial era supervalorizado em relação ao virtual”, concluiu a professora (...) descobriu-se que “a modalidade virtual permite uma sustentação do vínculo pedagógico que hoje a modalidade presencial não tem.” (...) os grupos presenciais costumam se encontrar uma ou duas vezes por semana, enquanto a interação on-line é muito mais frequente, pois a ubiquidade do dispositivo permite que cada um se conecte quando está em condições de participar (...) os efeitos da dispersão parecem mais
insidiosos na sala de aula que na interação a distância. (SIBILIA, 2012, p. 195)
À primeira vista, pode parecer que a internet não possibilite que as pessoas interajam tanto quanto em uma sala de aula tradicional. Os indivíduos podem estar em sala de aula, porém, cumprindo um requisito de uma instituição de ensino e sendo pouco ativos na dinâmica da aula. Em contraposição, as pessoas que interagem nos sites on-line costumam estar focadas no tópico em discussão e fazer maior aproveitamento daquele espaço.
A internet é um espaço que possibilita a construção de comunidades de aprendizagem (learning communities). Pessoas interessadas em discutir determinado tópico não precisam estar reunidas em uma sala de aula, ou mesmo estar fisicamente reunidas. Elas podem construir espaços on-line para realizar as interações necessárias para que o aprendizado ocorra (GREEN, 2015). Esta é uma possibilidade surgida recentemente e que vem possibilitando novas perspectivas sobre o que é aprendizagem.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS - SOBRE O QUE CONVIDA A CONTINUAR