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SP2 Hvilken målgruppe tror du avsenderen henvender seg til?

A proposta foi a seguinte:

Criem uma comissão e discutam a formação de um código. Ele deve ser sagrado, mas não deve ser inviolável. Na medida que o grupo for amadurecendo, os mandamentos podem e devem ser rediscutidos. Imaginem as novas gerações recebendo de vocês o que vocês consideravam código de honra. Detalhe: por questão de maturidade no projeto, acho que quem deveria fazer tem de ser, majoritariamente, quem estiver para sair, depois de ter superado muitas e boas dentro do palhaço. Quando os mais novos estiverem mais velhos, eis que alguns mandamentos eles vão, enfim, entender, eis que outros eles vão, com autoridade, discordar e modificar. Criaremos em nosso microcosmo palhacístico, o que fazemos no macrocosmo de humanidade. Ler e reler os nossos códigos, discordar e concordar com nossos antepassados, brigar mesmo para enfim, algumas coisas entender e saber o seu lugar perpétuo e outras, decidir, junto com os outros, que está na hora de mudar.

Quinze membros de quatro gerações diferentes, então, moveram-se para a consecução dessa proposta. Cada um ia tentando traduzir em um mandamento o que havia vivido por todo o caminho Y. Outros se aproximavam para burilar o escrito em seu conteúdo e sua estética. Diferentemente do que havíamos proposto ao início — desenhar um caminho com o Y no horizonte — falavam agora do caminho percorrido, e as dicas para os novos caminhantes.

Mandamento é uma palavra forte, por vezes, passa a ideia de uma norma rígida e inviolável, cuja derrogação faz pensar na necessidade de uma punição. Não era bem este o sentimento presente no coletivo ao se dedicar a esta construção. Pendia-se mais para o ensinamento de irmãos mais velhos para caçulas. Ajoelhar-se, olhar nos olhos e dizer:

1. Respeitar o meu ridículo tanto quanto respeito o ridículo do próximo. Respeitar o meu e o dele, não para nos calarmos mutuamente, mas que possamos nos revelar sem medo do escárnio e da ironia, com abertura para o riso bom, daqueles que a gente se joga na areia da praia depois de ter corrido um atrás do outro demais.

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2. Perceber, no outro, o que existe em você, e perceber, em você, o que existe no outro. Mas, que isso não ofusque a percepção do que também não existe em comum.

3. Permitir o contato com o outro e com o espaço, preenchendo-os da forma como for possível e impossível. Ora, na hora que você tentar isso, você vai se abrir de tal forma que eles é que vão te preencher. Cuidado para não se assustar com esse movimento da contramaré e se fechar em reflexo! Permita.

4. Rir de si mesmo e perceber que o que no outro te faz rir pode ser o que em você é risível nele espelhado. Rir do que é feio, e do que, no bonito, feio te parece; do desnecessário ao se descobrir de uma necessidade sem igual — qual o desnecessário que não esconde certa necessidade em si?; do invisível quando ele se mostrou pra você — oras, como diabos você pode vê-lo?; do inesperado, do incomum e do estranho, e do torto de cada uma dessas coisas, como se a vida se apresentasse sempre de um jeito, mas querendo ser gauche. Rir e... principalmente, saber quando não rir.

5. Honre o bolo: não faça festa sem ele e produza situações que gerem a necessidade de ter bolo — necessidade não — que gerem o próprio bolo. Situações-bolo. Não cobice o pedaço de bolo do próximo, se cobiçar desejamos todos que o seu caia; se cair, vá pegar outro só ao final de todos já terem o seu, e não furte o do vizinho sob pena de levar um bolo na cara, porque bolo na mão, além de ser coisa de tia do maternal I antes da lei anti-palmada, não condiz com a amorosidade visceral do Y.

6. Permita que a fala fale, mas não esqueça que os braços abraçam, as pernas esperneiam, o tronco entronca, os olhos olham, a testa testa, atesta e dá testada, os ombros ombreiam... Vá além e permita que o tronco fale, a testa ombreie, os olhos esperneiem, e vá fazendo a síntese combinatório disso tudo. Vai ficar uma puta de uma ópera de uma orquestra desarmônica de Quixotin!

7. Permita-se errar. Melhor ainda se for sem querer. Daí, você nem precisará se permitir. E deixe que o erro te domine. Melhor ainda se ele conseguir mesmo dominar, daí não tem jeito de você não permitir. Navegue no erro, com grande estilo. A condição humana é risível e supreendente, indomável. Deixe que riam, e porque seu semblante não ri, você estará participando do riso de todos. É no seu erro que o acerto no riso do próximo será dado.

8. Respeite a dor do próximo. O riso é importante, mas mais importante ainda é saber quando ele não cabe. Por isso a sua liberdade de fazer graça é limitada pela dor do próximo. Faça de você mesmo o alvo do riso, e não a dor do próximo com o qual você tanto se importa. A essa, você deve dar sua graça.

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9. Se tudo der errado com você. Besteira, você nem é tão importante assim mesmo. Importa que tudo ao seu redor, pelo menos, tenha dado certo. Se tudo tiver dado certo, que importa você? Se tudo tiver dado certo, menos você, que importa você? Se tudo tiver dado errado, menos para você, que importa você? Se tudo tiver dado errado, que importa você? E, apesar de tudo, não se esqueça que, como parte de tudo, você é tudo o que importa.

A partir do nono mandamento, houve uma pausa de cinco meses que quebrou o ritmo de elaboração de tudo. As férias chegaram, os integrantes se dispersaram. Fiz com que os mandamentos chegassem de novo aos olhos de todos através de uma rede social virtual, em busca de reaquecer o movimento dessa produção de saber. Os comentários começam a surgir felizes, como se estivessem olhando para o novo, até que um dos companheiros, que estava distante em viagem fora do Brasil retoma: “Quero fazer um mandamento sobre saudade. Todo dia sinto esse mandamento que, de certa forma, nunca tem fim”. Aa, então, responde a deixa, e o grupo elabora:

10. Que a saudade exista, mas só um pouquinho, para que o reencontro seja doce (como bolo), que os comprymydos [trocadilho para falar de abraço] sejam apertados, como se fosse juntar um no outro. E que o amor supra aquela falta de antes.

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