Alberti levanta os estudos do teólogo alemão Joachim Suchomski para mostrar como, na idade Média, o riso era considerado um distintivo humano que o distanciava tanto dos animais quanto de Deus.
Essa posição do riso tornava-se contraditória, pois, se esta particularidade nos fazia seres não divinos, deveria ser mais estimulada como símbolo de humildade e assunção da nossa natureza de seres risonhos e risíveis. Contudo, textos teologais enfatizavam a seriedade de Jesus e sua não abertura ao riso por todos os testemunhos oficiais que compunham os cânones. Sendo ele o modelo humano a ser imitado, o caminho que cada cristão deveria seguir, era prudente que o riso não fosse estimulado.
A tradição teologal, entretanto, reconhecia dois gêneros de riso:
A laetitia temporalis e o gaudium spirituale. O primeiro correspondia à felicidade das coisas terrenas e passageiras, que fazia com que o homem esquecesse sua missão [mas também seu sofrimento]. O segundo, em compensação, era a verdadeira felicidade, aquela que atingia sua maior realização após a morte, mas podia ser experimentada ainda em vida, pela contemplação de Deus e de suas criações. A esta última correspondia o riso discreto e mudo que exprimia a felicidade do coração. (ALBERTI, 1999, posição 1467).
Pode-se lembrar aqui a mesma querela que vigia entre as temáticas platônicas e aristotélicas. A contemplação das verdades eternas gera um sentimento de prazer que é a recompensa do sábio. Bem diverso desse fenômeno, os acidentes da forma maculavam a essência das coisas gerando o efeito jocoso que contaminava o espírito com sentimentos impuros, distanciando o homem das ideias de verdadeira importância.
A imagem séria de Jesus exposta de forma generalizada nas artes de então sugerem a heresia da representação de um sorriso no modelo maior da cristandade.
Jacques Le Goff (1989), historiador especializado em Idade Média, escreve um artigo em que ordena cronologicamente as atitudes perante o riso nesse período. A repressão a
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que acabo de me referir, embasada fortemente nessas especulações sobre o riso de Jesus teria se dado mais junto ao modelo monástico de vida, que teve seu auge entre os séculos IV e X. A isto se seguiu a domesticação do riso nas Igrejas e a liberação dele nas cortes, junto às sátiras e paródias.
6.3.1 A exceção franciscana: o riso de Deus
A partir do século XII, Le Goff encontra um personagem que irá chamar sua atenção de pesquisador, em virtude das rupturas que provoca nessa pretendida seriedade hegemônica, ganhando espaço no próprio seio da cristandade, embora partindo de uma posição marginal de entre os leigos e aí permanecendo como a dizer que se pode ser santo para além das clausuras sagradas. Este é Francisco de Assis, biografado por Le Goff (2001), a quem cabe um espaço maior de reflexão aqui. Diz-nos assim:
Nesse mundo em que aparece a família conjugal e patriarcal restrita, mas na qual o antifeminismo continua fundamental e em que reina uma grande indiferença à criança, ele manifesta, por suas ligações com algumas mulheres próximas e em primeiro lugar Santa Clara, por sua exaltação do Menino Jesus na manjedoura de Grécio, sua atenção fraternal à mulher e à criança. A todos, longe das hierarquias, das categorias, das compartimentações, propõe um único modelo, o Cristo, um único programa, ‘seguir nu o Cristo nu’. Nesse mundo que se torna o da exclusão [dos judeus, leprosos, hereges, homossexuais] [...] Francisco proclama, sem qualquer panteísmo, nem o mais longínquo, a presença divina em todas as criaturas. Entre o mundo monástico banhado de lágrimas e a massa dos despreocupados mergulhados numa ilusória alacridade, propõe a imagem alegre, sorridente, daquele que sabe que Deus é alegria. (LE GOFF, 2001, p. 38).
Tendo em mente nossos objetos de análise neste estudo, que são o fazer e o discurso de humanização e espiritualidade no projeto de palhaçoterapia ora em questão, o exemplo de Francisco de Assis se cobre de setas extremamente elucidativas. Primeiro, por se tratar de um grupo, os franciscanos, que, apesar de não se levantar contra as hierarquias de forma explícita e belicosa, fazem-no de forma indireta através da própria vida. O surgimento do Menino Jesus como símbolo venerável relaxa os semblantes cerrados dos sacerdotes e prepara a aceitação de um Jesus que pode rir sem macular a grandeza de Deus. De fato, é inconcebível imaginar uma criança que não tenha rido por toda a infância, ainda mais tendo o afeto de uma mãe piedosa, como era Maria, e um pai justo, como descrevem José nos evangelhos. Ou ainda, como pensar a reação facial de Jesus ao repreender os apóstolos que tentavam impedir as crianças de se aproximarem dele? A aludida seriedade teria seu lugar
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aqui? Como imaginar a reação de seus lábios quando os pequenos do Reino do Céu o cercaram para lhe abraçar?
Segundo nos aponta Ferry (2012b), explicando a interpretação hegeliana para a atitude dos judeus em face do dilúvio, a cultura judaica, em que Jesus estava imerso, teria se posicionado contra a reconciliação com a natureza. Depois de cessado o dilúvio que teria dizimado a raça má e salvado a linhagem digna de Deus, os filhos de Noé, não teria havido uma verdadeira paz entre homens e matéria, mas a intervenção de um Deus transcendente para que essa relação se desse sem novos atritos. Jesus seria o símbolo do homem reconciliado com o mundo porque manifestava Deus consigo na carne, símbolo do mundo físico, através do amor que unia criaturas e Criador. A obra hegeliana, aponta Ferry, buscaria firmar essa reconciliação dos diversos, porém através da razão e independente de Cristo.
Quando “Francisco proclama, sem qualquer panteísmo, nem o mais longínquo, a presença divina em todas as criaturas”, está vivendo essa temática da reconciliação plenamente, não através da razão, mas sim dos gestos. Quando imaginamos o riso de um homem fervoroso porque repleto de Deus, estamos intuindo a manifestação da ordem divina, tida como séria, no mundo humano risível por natureza. O riso, dessa forma, é sublimado, deixando de ser apenas aquele silêncio agradável escondido no coração (gaudium spirituale), para se exteriorizar ao mundo na alegria de viver. Não há repúdio pela matéria, mas uma acolhida das mais diversas formas de vida no próprio peito, agora aberto.
Viver a alegria por sentir Deus na pele e vê-Lo em todas as criaturas é a cessação da cizânia entre os homens, entre Deus e os homens, entre matéria e espírito.
O que vemos ao olhar o Projeto Y? Um conjunto de estudos e práticas sociais que apostam no deslocamento do olhar ainda leigo dos que atuam junto à saúde das populações, que vão aos poucos ganhando espaço no campo da saúde. Implementadores, mais pela vivência do que pelos discursos, mais pelos gestos do que pela razão, da grandeza da alegria de servir ao próximo em condições de necessidade, particularmente aqueles que nos fazem lembrar o menino Jesus, fragilizado entre perseguições e exposto ao frio noturno de uma manjedoura, cercado por animais.
Sobre a mendicância que confere epítetos a Francisco de Assis — por exemplo, o Pobre de Assis — ela não se figura como um acidente sobre o qual não se pode fazer ciência, como na obra de Aristóteles, mas sim como uma das condições da sua ascese espiritual. “Seguir nu o Cristo nu”, mais do que uma metáfora de despir o Cristo dos ouropéis interpolados pela Igreja na sua imagem, representava o ser-no-mundo de um franciscano. Nu
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é como o menino Jesus veio à vida. Coloca no corpo o sentimento maior de ser um com o Cristo.
O palhaço tem essa nota de mendigo e de despido. Há os pomposos, também. Todavia, para o doutor palhaço prevalece o desnudamento das hierarquias e das pompas em que os profissionais de saúde estão cerrados, nivelando-se às pessoas comuns, os laici, pretendendo mostrar que, mesmo os não dotados de sabedoria médica podem se fazer de cuidadores uns dos outros por este gesto humano universal: o riso.
Importa ainda ressaltar que, ao contrário das análises dos pensamentos anteriores, que primavam por menosprezar o riso em virtude de sua face infeliz e dolorosa de espezinhar a deformidade do interlocutor, a mendicância franciscana bem como a figurinização do palhaço visitador de hospitais chamam o riso para a própria figura, em um ato de humildade (Michel De Certau diria tática), ressaltando o próprio ridículo a favor do reconhecimento da natureza humana falível e utilizando-se dela para espalhar alegria na vizinhança por onde transita.
Eis porque, encontrando marcos como esse na história do riso e do risível no pensamento ocidental, entendo que a produção de saber do Projeto Y, que se gesta nesta pesquisa-colaborativa, desde já aponta para uma leitura de humanização das práticas de cuidado que encontro afinidade com fortes elementos espirituais. É o que abordarei com maior profundidade no próximo capítulo.