1652), Richard Fleckno (1600-1678), Zacharias Wage- ner (1614-1668), Johan Nieuhof (1618-1671), Antonio Giuseppe Landi (1713-1791), Theotonio Joze Juzarte (? – 1794), Padre João Daniel (1722-1776), Francisco An- tonio Sampaio (17?-17?), Manuel Arruda da Câmara (1766-1811), Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815); internacionalmente: Pierre Belon (1517-1564), Charles de l’Ecluse (1525-1609), Pieter Barrère (1690-1755), Al- bertus Seba (1665-1736), João Vigier (1662-1723). Lineu (1707-1778) e Buffon (1707-1788).
O uso dos tatus como recurso terapêutico foi his- toricamente mencionado por Monardes, Hernandez e Francisco Soares no século XVI e comentado por Laet no século XVII, João Vigier, Buffon e Gumilla no sécu- lo XVIII.
A zooterapia popular brasileira baseada nas prá- ticas e saberes populares integra um sistema médico complexo no qual estão incluídas práticas populares de saúde, simpatias e profilaxias mágicas. Os conhe- cimentos e práticas zooterápicas geralmente são transmitidos de geração a geração por tradição oral e estão associados com a cultura da qual fazem parte. O uso de substâncias animais deve ser compreendido segundo uma perspectiva cultural, uma vez que os sistemas médicos são organizados enquanto sistemas culturais (COSTA-NETO; ALVES, 2011). Nesta perspec- tiva, a transmissão e reprodução destes conhecimen- tos e práticas zooterápicas é permeada por aspectos histórico-culturais da medicina e da zoologia.
O termo zooterapia aqui adotado deve ser com- preendido como o uso de remédios elaborados a par- tir de partes do corpo de animais, de produtos de seu metabolismo, como secreções corporais e excre- mentos, ou de materiais construídos por eles, como ninhos e casulos (COSTA NETO, 2011). Os remédios ba- seados em matérias-primas animais tratam ou previ- nem doenças e enfermidades, tanto de seres humanos quanto de animais. A utilização medicinal de animais é um fenômeno transcultural historicamente anti- go. Os conhecimentos e práticas zooterapêuticos são
A
tualmente, do ponto de vista zoológico, existem 21 espécies de tatus e destas 11 ocorrem no Brasil (MEDRI; MOURÃO; RO- DRIGUES, 2006). Os tatus apresentam o corpo, cabeça e cauda revestidos por uma armadura articulada, for- mada por placas ósseas aderidas à pele. Têm grande importância ecológica, pois são capazes de alimen- tar-se de insetos (insetívoro) contribuindo para um equilíbrio de populações de formigas e cupins. São mamíferos antigos, ocorrendo na Terra, há aproxi- madamente sessenta milhões de anos. Pertencem à Ordem Xenarthra, juntamente com tamanduás e preguiças. Os tatus pertencem a subordem Cingulata. Todas as espécies atuais de tatus, bem como as ex- tintas, são encontradas exclusivamente no continen- te americano, tendo a sua origem na América do Sul (BAGAGLI et al., 2003).Os tatus causaram muita curiosidade e espan- to aos colonizadores europeus das Américas, nunca imaginaram um animal tão estranho armado como um “cavalo de guerra”. Foram descritos ou mencio- nados ao longo dos séculos por diversos naturalistas, médicos e cronistas coloniais, entre os quais se des- tacam, para a América hispânica: Gonzalo Fernández de Oviedo y Valdés (1478-1557), Nicolás Bautista Mo- nardes (1493-1588), Francisco Hernandéz (1517-1578), Francisco López de Gómara (1511-1566), Padre José de Acosta (1540-1600), Antonio de Herrera y Tordesillas (1559-1625), Padre Joseph Gumilla (1686-1750); para o Brasil: Hans Staden (1525-1579), Frei André de Thévet (1502-1590), Frei Vicente do Salvador (c.1564-c.1639), Padre José de Anchieta (1534-1597), Pero de Maga- lhães Gandavo (1540-1580), Jean de Léry (1536-1613), Gabriel Soares de Sousa (1540-1591), Padre Fernão Cardim (1548-1625), Padre Gaspar Affonso (1548-1618), Frei Claude d’Abbeville (? - 1632), Frei Yves d’Evreux (1577-c.1632), Ambrósio Fernandes Brandão (1555-?), Padre Francisco Soares (1560-1597), Georg Marcgrave (1610-c.1640), Guilherme Piso (1611-1678), Joannnes de Laet (1581-1649), Frei Cristóvão de Lisboa (1583-
transmitidos de geração a geração, especialmente por meio da tradição oral, e estão bem integrados com outros aspectos das culturas das quais fazem parte. A zooterapia integra um sistema médico bastante com- plexo no qual estão incluídos, entre outras práticas populares de saúde, simpatias e profilaxias mágicas, tais como patuás, bentinhos, amuletos, talismãs, ges- tos e transferências (COSTA NETO, 2011).
É objetivo do presente capítulo realizar uma revi- são histórica sobre os aspectos descritivos dos tatus, bem como dos seus usos terapêuticos, comparando -os com as práticas terapêutico-ritualisticas da zoo- terapia popular brasileira.
Os tatus descritos pelos médicos e naturalistas coloniais
Nicolás Bautista Monardes (c.1493-1588), médico e botânico sevilhano que realizou os seus estudos na Universidade de Alcalá de Henares, com bacharelado em artes (1530), em 1547 doutorou-se em medicina em Sevilha. Nunca saiu de Espanha para viajar até ao Novo Mundo, mas seus estudos versaram sobre a matéria médica americana. Monardes foi o médico mais co- nhecido na Europa durante o século XVI, tendo os seus livros sido traduzidos para o latim e outras línguas.
Monardes (1571) descreveu os tatus da América e o seu uso
terapêutico com as seguintes palavras:
Trazem para terra firme um osso da cauda de um animal es- tranho, que é todo coberto de conchinhas até os pés como um cavalo de armas, por isso o chamam de armadillo, que é do ta- manho de um leitão e tem uma cauda grande e grossa como a de um lagarto. Habita dentro da terra, como uma toupeira, e dizem que dela se mantém: porque fora dela, não o vêem comer coisa alguma. Tem a virtude só no osso da cauda, que feito em pó sutil e tomado na medida da cabeça de um alfinete grande, fazendo-se uma pelotinha e colocando-a no ouvido cura sua dor maravilhosamente, assim como também atua com grande efeito no zumbido dos ouvidos. Para curar as do-
res tem muita experiência no uso naquelas partes, como tem usado muitas pessoas, como testemunha o senhor Bispo, que me certificou haver visto muitas vezes, com grande admira- ção haver alguma virtude naquela parte tão oculta. Existem estes animais na Índia de Portugal, chamados encobertados, por serem como tenho dito armados de lâminas e conchas (MONARDES, 1571, p. 220).
Francisco Hernández (1517–1578) foi um médico e botânico espanhol, que obteve o seu título na Univer- sidade de Alcalá de Henares. Foi o primeiro a estudar a matéria médica americana, viajando até ao conti- nente descoberto por Cristóvão Colombo.
Hernández começou por praticar medicina no hos- pital do mosteiro de Guadalupe e adquiriu conheci- mentos botânicos em Castela e Andaluzia. Foi nomeado médico da câmara do rei Filipe II de Espanha e algum tempo depois, enviado como protomédico (1571) para estudar a matéria médica do México e Peru.
A sua investigação no México durou sete anos (1571–1578). Em 1578 regressou a Espanha para ocu- par o lugar de médico da câmara, falecendo nove anos depois sem ter visto publicados os resultados dos seus estudos. Apareceram no México duas versões do trabalho de Hernández. Uma, escrita por Francisco Ximénez (1615) intitulada Quatro libros de la naturaleza
y virtudes de las plantas y animales…. A outra (1579), ba-
seada numa cópia encontrada no México, foi usada por Agustín Farfán e intitulada Tratado breve de medicina….
Hernandéz (1615), assim descreve os tatus e suas aplicações medicinais:
Do animal que chamam ayotochtli, e os espanhóis, armadillo, que quer dizer coelho com casco de tartaruga.
O aytochtli é um animal monstruoso, armado naturalmente de umas lâminas duras, como casco de tartaruga, e é do tama- nho de um pequeno cão tendo uma cauda muito maior, os pés como os do ouriço, em todas as partes é coberto de um tipo de couro, muito semelhante à armadura dos cavalos, que é com- posta por lâminas partidas, de maneira que reveste e rodeia
todas as partes do seu corpo, razão pela qual os espanhóis o chamam de armadillo, dizem que a armadura deste animal moída e dada a beber no peso de uma drama em cozimento de sálvia, provoca o suor, e que é um grande remédio na cura do mal francês. O penúltimo osso da cauda, que está ligada ao corpo, feito em pó muito sutil, misturado com azeite ro- sado na forma de pílulas e colocadas nos ouvidos quando há zumbido e dor, aproveita maravilhosamente, e fazem ouvir os que estão surdos, quando é por causa fria. Estes animais são encontrados em toda terra firme e em Cartagena e nesta Nova Espanha, habita dentro da terra, e ainda afirmam alguns que dela se mantém, porque não o viram comer fora dela, o que se tem visto muito ao contrário neste convento de São Domin- gos, sendo provincial nosso R. P. M. Frei Luis Vallejo, a quem deram de presente e que foram soltos em sua cela, e anda- ram comendo pequenos vermes que os índios coletaram para dar-lhes de comer, trazidos de propósito para saber do que se alimentavam, achando-se nesta Nova Espanha e nas ter- ras quentes de Guernauaca, Yaotepec e circunvizinhanças, também dizem que o pó da cauda se aproveita na urina, mas não sabem explicar como faço. O casco feito em pó e amassado com água tira espinhos das unhas e outras partes do corpo
(HERNANDÉZ, [1615] 1888, pp. 247-248). O jesuíta Francisco Soares, em 1584 viveu na Bahia e quando voltou à Portugal escreveu um documento anônimo intitulado : “De alguãs cousas mais notáveis do Brasil” publicado pela primeira vez na Revista do Instituto Histórico e Geographico Brasileiro (tomo 94, v.148, 1923). Entre os animais registrados por ele, está o “Tatu cavalo armado” cujo “osso do rabo é bom para febres” (SOARES apud NOMURA, 1996).
O naturalista nassoviano Georg Marcgrave (1610– c.1644) em sua estada no Nordeste entre 1638 e1643 reuniu dados, observações e desenhos de história na- tural que depois vieram a se constituir em parte da obra Historia naturalis Brasiliae (1648, p.231-232). Entre os mamíferos descritos encontram-se três espécies de tatus, denominadas por ele de “Tatu & Tatu-peba Brasiliensibus” (tatu-peba, Euphractus sexcinctus (Lin- naeus, 1758), “Tatu-ete Brasiliensibus” (tatu-galinha,
Dasypus novemcictus (Linnaeus, 1758) e “Tatu Apara Brasiliensibus” (tatu-bola, Tolypeutes tricinctus (Lin- naeus, 1758) (ver figura).
O médico e naturalista nassoviano Guilherme Piso (Willem Pies, 1611-1678) em sua obra posterior (PISO- NIS, 1658; PISO, 1957) também descreveu as mesmas espécies de tatus, copiando Marcgrave.
Associada a descrição zoológica feitas por Marc- grave existe uma nota de Joannes de Laet (1942) sobre os usos terapêuticos dos tatus:
Fizemos menção deste animal na descrição da América, lib. XV, cap.V, onde, conforme o ensino de Monarde e Fr. Xime- nes, notamos que o pó da cartilagem, que é de natureza ós- sea e dura, é muito útil, em medicina, quer contra a doença venérea, quer contra o zunido dos ouvidos ou surdez; de um modo particular tem esta utilidade os ossinhos da cauda, que se acham perto da sua origem. O pó da cauda é também diuré- tico; o pó da cartilagem cozido, preparado em forma de mas- sa, serve para extrair espinhos, de qualquer parte do corpo. É fácil fazer experiência, porque frequentemente nos vêm da América peles deste animal (LAET, 1942, p. 232).
Laet em sua obra citada faz as mesmas descri- ções dos usos terapêuticos da nota acima (LAET, 1640, pp. 485-486).
No século XVIII, Linnaeus classificou sete espé- cies de tatus no gênero Dasypus (LINNAEI, 1756, p.6). Enquanto Buffon descreveu as seguintes espécies de tatus: 1 Apar ou tatu de três faixas (Tatu Apara de Marcgrave); 2 Encubertado ou tatu de seis faixas(-
Tatu & Tatu-peba de Marcgrave); 3 Tatueto ou tatu de
oito faixas (Tatu-ete de Marcgrave); 4 Cachicamo ou tatu de nove faixas; 5 Cabasu ou tatu de doze faixas; 6 Cirquinzon ou tatu de oito e dez faixas (BUFFON, 1783, pp. 93-114).
Buffon escreve sobre a história natural dos tatus: Todos os tatus são originários da América e eram desconheci- dos antes do descobrimento do Novo Mundo: os antigos nunca fizeram menção destes animais e todos os viajantes modernos
falam deles, como de animais naturais e peculiares do México, do Brasil e da Guiana. Nenhum falou os haver encontrados na Ásia ou na África, mas alguns confundiram com os pangolins e lagartos escamosos das Índias Orientais com os tatus da América. Alguns outros imaginaram que estes animais exis- tiam nas costas ocidentais da África, por terem sido transpor- tados alguns destes do Brasil até a Guiné. Bellon que escreveu há mais de dois séculos atrás e foi o primeiro que fez uma cur- ta descrição apresentando uma figura do tatu, cujos despojos havia visto na Turquia e indica que havia sido levado do Novo Mundo. Oviedo, Léry, Gomara, Thevet, Antonio de Herrera, Abbeville, Francisco Ximenez, Stademio, Monardes, Acosta, Laet, todos os autores mais modernos e todos os historiadores do Novo Mundo fazem menção destes animais como originá- rios das regiões meridionais daquele continente. Piso, histo- riador posterior a todos os citados, foi o único que, sem apoio de nenhuma autoridade, afirmou que os tatus se achavam nas Índias Orientais e também na América, é provável que os te- nha confundido com pangolins ou lagartos escamosos, por- que os espanhóis chamam “armadillos” tanto aos tatus quan- to a estes animais, este erro se difundiu na pena dos nossos “naturalistas de gabinete” e de nossos “classificadores”, que não satisfeitos em admitir tatus nas Índias Orientais, os cria- ram também na África, sendo que em nenhuma destas partes do mundo existem tatus a não ser que trazidos da América. Assim, o clima de todas as espécies destes animais não é equí- voco; porém o mais difícil é determinar o tamanho relativo de cada espécie. Para vencer esta dificuldade temos comparado, não somente o grande número de despojos de tatus que existe no Gabinete do Rei, mas também os que se conservam em ou- tros gabinetes, e igualmente, temos comparado as descrições de todos os autores com as nossas próprias descrições, sem conseguir resultados exatos, de maneira que só conseguimos conjeturar que as espécies maiores são o Kabasu e o Encuber- tado, e as menores são o Apar, o Tatueto, o Cachicamo e o Cir- quinzon. Nas duas espécies maiores a armadura é mais sólida e mais duras do que nas menores: as peças de que constam são maiores e em menor número; as faixas são móveis umas sobre as outras e a carne como a pele é mais dura e não de boa quali- dade. Piso afirma que o encubertado não se pode comer; Nie- remberg assegura que é muito danosa; Barrere afirma que o Kabasu tem odor forte de almíscar; e, ao mesmo tempo, todos os autores concordam que a carne do Apar, e especialmente a do Tatueto, são brancas e boas de comer; e dizem também que o tatu da espécie menor habita em terrenos úmidos da planície e os maiores são encontrados em lugares mais secos e elevados [...].
Monardes, Ximenez e outros que os copiaram, tem atribuído admiráveis virtudes medicinais a diferentes partes destes animais, assegurando que a concha pulverizada e tomada internamente ainda que em pequenas doses, é um poderoso sudorífico; que o osso das cadeiras também pulverizado, cura
o mal venéreo; que o primeiro osso da cauda aplicado ao ouvi- do cura a surdez, etc. Nós não damos crédito a estas proprie- dades extraordinárias; a concha e os ossos dos tatus são da mesma natureza que os ossos dos outros animais; efeitos tão maravilhosos nunca são produzidos senão por virtudes ima- ginárias (BUFFON, 1783, p. 122).
Buffon citando o missionário jesuíta padre Joseph Gumilla (1686-1750) escreveu sobre o uso terapêutico: O último artículo ou osso da cauda do Cachicamo tem sido ex- perimentado como remédio eficaz para as dores de ouvido; de modo que posta aquela extremidade ou osso que termina a cauda dentro do ouvido sossega o latejar e pouco a pouco se cura totalmente a dor (GUMILLA apud BUFFON, 1783). O droguista João Vigier (1662-1723) em sua famosa obra Pharmacopea ulyssiponense (1716) afirma sobre o uso terapêutico:
Tira-se do rabo deste animal hum pequeno osso, que reduzido em pó, formão-se humas pirolas como cabeça de alfinetes, & metida alguma dentro nas orelhas, mitiga as dores, & aflovi- manetos, e retira a surdez (VIGIER, 1716, p. 394).
Os tatus na zooterapia popular brasileira
Entre as simpatias ritualísticas usando-se tatus a literatura de Guimarães Rosa registra a seguinte pas- sagem no uso do sangue:
Traziam o tatu, que guinchava, e com a faca matavam o tatu, para o sangue escorrer por cima do corpo dele para dentro da bacia (...) dizia que ele tinha estado muito fraco, saído de doença, e que o banho no sangue vivo do tatu fôra para ele poder vingar (ROSA, 1956, p. 18).
As seguintes simpatias foram registradas em de- poimentos por Mesquita (2004) de moradores de Co- tas Altas em Minas Gerais:
“Pra ficar com a pele bonita; pro neném não ter tiriça; evita erizipela, catapora e sarampo”;
“Coloca umas gotinha na água do banho do neném e dá banho nele. Depois enxágua”.
“Joga em cima da cabeça do neném antes dele tomar banho e depois dá o banho”.
Tais práticas sobre o uso do sangue dos tatus são igualmente registradas por Costa-Neto (2000).
Outra simpatia como usar o casco do tatu para plantar milho, para que outros animais não desenter- rem as sementes: “O casco do tatu é usado pra plantar
milho. Dizem que milho plantado assim, bicho ne- nhum come e nasce tudo” (MESQUITA, 2004).
Tal prática também é registrada por Costa-Neto (2000) do uso do casco como recipiente.
O sangue do tatu-canastra na testa das crianças pode fazer com que vivam muitos anos. Durante todo o período da gravidez uma mulher deve abster- se de consumir a carne de animais de casco, como todas as espécies de tatus (LIMA, 1998)
Entre os animais utilizados em rituais de sacrifí- cio em terreiros de Candomblé, são citados os tatus:
Dasypus novemcinctus (Linnaeus, 1758) e Euphractus
sexcinctus (Linnaeus, 1758) como oferendas aos Mes-
tres da Jurema; Obaluâe/Omolu (LÉO NETO; ALVES, 2010).
Os seguintes tabus alimentares referentes aos tatus são registrados: os Suruí de Rondônia não se alimetam do “tatu-rabo-de-couro”, pois segundo a crença local foi este que escavou os leitos dos rios para as águas correrem. Entre os Pankararé a car- ne do tatu D. novemcinctus pode ser consumida, pois, não é “carregada” (isto é, “reimosa”), ao contrário da carne do tatu-bola, que é considerada bastante “carregada” (COSTA-NETO, 2000).
Entretanto, registra o autor, que os Pankararé utilizam como recursos zooterápicos o tatu-bola cujo defumador do casco é utilizado contra o “mal- do-tempo” (derrame), do chá do casco torrado é usa- do para reumatismo e dor-de-barriga; a banha, os ossos e o sangue do tatu-peba serve para ferimentos e “aleijão”; o defumador do casco do tatu-verdadeiro é usado contra a asma e o rabo é usado como coto- nete para dores de ouvido e surdez. Marques (1995,
apud COSTA-NETO, 2000) também registra entre os
moradores do povoado de Marituba dos Peixes em Alagoas o uso da banha do tatu no tratamento do reumatismo e dores em geral.
Na região amazônica (FIGUEIREDO, 1994 apud COSTA-NETO, 2000) registrou o uso da urina do tatu (D. novemcinctus) em gotas colocadas no ouvido para aliviar a sua dor. A sua cauda é usada seca e ume decida na banha da “sucuriju” (Eunectes murinus) também contra dores de ouvido. Sua banha é utili- zada para tratar inchaços e tumores. O óleo extraí- do da sua gordura é usado no tratamento de picadas de insetos e escorpiões, bem como contra espinhas, furúnculos e farpas na pele (BRANCH; SILVA, 1983
apud COSTA-NETO, 2000).
Lages Filho (1934, apud COSTA-NETO, 2000) escre- ve que o uso tópico da cauda de tatus no tratamen- to da surdez é muito comum em Alagoas, também registra o uso da cauda torrada e triturada para a
fabricação de um xarope usado contra tosse
Como zooterápicos, Mesquita (2004) registrou os seguintes depoimentos entre moradores de Catas Altas/Santa Bárbara, Minas Gerais:
Uso da gordura:
“Um dia desses, uma pessoa procurou banha de tatu pra todo lado pra curar bronquite e não encontrou”;
“O óleo do tatu é o mais caro que acha pra comprá. Porque ninguém anda matando tatu todo dia...”;
“Bão pra dor de ouvido; pra surdez: Esquenta ela e pinga umas goti- nha ou dentro do ouvido ou no algodão e põe no ouvido”;
“Pra quem tem bronquite, problema nos pulmão; tuberculose: Faz um chá bem forte e coloca umas gotinha dentro e toma”.
“Dor nas perna; dor nas costa: Faz um chá bem forte e coloca umas gotinha dentro e toma”;
“Para quebranto: Faz um chá bem forte e coloca umas gotinha den- tro e toma”;
Uso do couro contra dor de cabeça; “Ferve um pedaço do casco
junto com o chá e toma”.
Uso da cauda para dor de ouvido “Ferve o rabo e depois pinga
aquela água que deu no ouvido”;
Para dor de estomago “Ferve junto com o leite pra virar coalhada
e toma”.
A cauda do tatu é utilizada como chá para dor de ouvido e para fazer coalhada. A coalhada pode ser utilizada pura, sendo considerada “boa para o esto- mago”, bem como ser utilizada para fazer queijo-de- minas, o que é mais comum na região (MESQUITA, 2004).
A cauda do tatu verdadeiro Dasypus novemcinctus é usada geralmente para dor de ouvido. Esses animais também são utilizados pelos caçadores “Tupinambá de Olivença” para as mesmas finalidades e também