A par r de 1929/30, o surgimento de algumas novas e promissoras correntes historiográficas, sobretudo na França e nos EUA, conduziu lentamente à rejeição quer do “posi vismo”, quer do “historicismo”, cuja crise e simbiose com o primeiro contribuíram bastante para o descrédito em que tombou a história das idéias em alguns países ocidentais. Mas esta é provavelmente uma outra história...
Neste período, antes de focalizarmos as novas tendências, é necessário não perder de vista as con nuidades e permanências historiográficas. Prosseguiu, e prosseguiria por muito tempo ainda, do ponto de vista quan ta vo da produção e da influência polí co- ins tucional, a hegemonia “posi vista”, fato este que tende a ser escamoteado por algumas visões retrospec vas triunfalistas. No entanto, mais que essa “sobrevida” do posi vismo, preocupam-se os círculos intelectuais de então com as relações complexas do historicismo com o marxismo. No fundo, tratava-se ainda do antagonismo entre o idealismo (kantiano ou hegeliano) e o materialismo (marxista).
O momento e a substância do famoso livro de K. Mannheim, Ideologia e utopia (1929), expressam e condensam o cerne do debate: Qual o verdadeiro estatuto teórico das “idéias” (e ideologias)? São elas realmente autônomas, isto é, possuem sua própria história, ou são socialmente determinadas — como no modelo “sociointelectual” de Krieger? O mesmo se pode afirmar, mas em sen do inverso, do conhecido livro de Popper — Miséria do historicismo (1938).
O historicismo e o marxismo eram já os interlocutores, ou adversários, com ou contra os quais as novas propostas historiográficas se sen am forçadas a assumir suas posições, muitas vezes não isentas de inúmeras ambigüidades. Quanto ao posi vismo, bem, este era o “saco de pancada” a respeito do qual todos estavam pra camente de acordo em bater, enquanto se apropriavam dos seus métodos de crítica documental. ■ O HISTORICISMO. Como já adiantamos, o historicismo valorizou uma concepção de história
das idéias dis nta das outras histórias. A questão, hoje, é que os autores que se empenharam nessa tarefa eram, quando muito, filósofos-historiadores em sua maioria. Além disso, o destaque por eles concedido às idéias reves u-se de evidente unilateralidade, ou por preconizarem uma história imanente das idéias, isto é, elaborada unicamente a partir da gênese, evolução, irradiação e essência das próprias idéias, ou por assumirem uma perspec va “culturalista” individualizada e idealista a respeito do próprio conceito de cultura.
cada realidade/época histórico-cultural e, como é fácil deduzir, caberia às idéias fornecer essa configuração que “faz de cada época algo de único” e cons tui ao mesmo tempo o vetor explica vo de sua cultura, quer dizer, sua “visão de mundo” ou Weltanschaung. Em Meinecke,21 por exemplo, essa concepção “expressiva” é clara:
as relações entre as idéias, seus conflitos, refletem e expressam os conflitos polí cos e sociais de cada época histórica. Em Cassirer22 são as relações entre as idéias que
permitem ao historiador conhecer a “fenomenologia do espírito de uma época”.
■ O MARXISMO. Influiu sobre os rumos da história das idéias em sen dos geralmente
contraditórios e às vezes opostos. Tal fato foi a conseqüência inevitável do percurso histórico das idéias marxistas e da sua progressiva divisão e subdivisão em diversas correntes e tendências, desde o período entre-guerras.
A realidade desse processo de es lhaçamento das concepções marxistas é claramente percep vel nas próprias formas u lizadas pelos historiadores para o seu estudo. Assim, antes de 1914/18 predomina o critério geracional na literatura sobre o assunto, como o faz, por exemplo, Anderson,23 ao analisar a “primeira geração” de
polí cos e pensadores marxistas (Plekhanov, Kautski, Mehring, Labriola) e a “segunda geração” (Rosa de Luxemburgo, Bauer, Hilferding, Trotski, Lenin e Bukharin). No entender de Fontana,24 a conjuntura histórica correspondente à primeira geração
acentuou o processo de “desnaturalização do pensamento histórico marxista”, ao passo que a segunda geração tentou ao mesmo tempo “decifrar as leis fundamentais do capitalismo” em seu estágio imperialista e produzir uma teoria polí ca marxista. Percebe-se então que até o término da Primeira Guerra Mundial não houve espaço para uma abordagem específica das idéias ou mesmo da cultura entre os marxistas.
A par r de 1918 os autores não mais se referem a “gerações” mas, sim, à diferenciação cada vez maior entre o marxismo sovié co e o “marxismo ocidental”. O primeiro, cujas principais caracterís cas, posi vas e nega vas, foram analisadas por Cardoso,25 além dos já citados Anderson e Fontana, não tem maior interesse para o
que agora nos preocupa. Já o segundo, pelo contrário, tem tudo a ver. Trata-se aí, na verdade, do processo de lenta maturação do “marxismo ocidental” (Anderson) ou, segundo Fontana, da consolidação da resistência à “desnaturalização economicista e cientificista” do próprio marxismo.
O estudo desse marxismo ocidental implicaria a tarefa de aqui analisarmos as obras dos intelectuais do Ins tuto de Inves gação Social de Frankfurt, isto é, a Escola de Frankfurt; “a teoria crí ca” e sua “dialé ca nega va”. Basta no entanto citar os seus nomes mais conhecidos — Theodor Adorno, M. Horkheimer, H. Marcuse, E. Fromm, J. Borkenau, L. Lowenthal, J. Neuman, bem como, segundo alguns historiadores, W. Benjamin —, para que se evidencie a inviabilidade de tal análise.26
Acrescente-se, ainda, a esta fase inicial do marxismo ocidental, os primeiros textos, hoje clássicos, de G. Lukács, K. Korsch e A. Gramsci, todos em rota de colisão com o dogma smo e o empobrecimento teórico do marxismo picos da III Internacional. Como escreveu Lukács, “nos anos 20, Korsch, Gramsci e eu tratávamos, cada um a seu modo, de fazer face ao problema da necessidade social e à interpretação mecanicista... Herdamos este problema, porém nenhum de nós — nem
mesmo Gramsci que era o melhor de todos nós — conseguiu resolvê-lo”.27
Neste passo, talvez devamos lembrar alguns dentre os muitos acontecimentos dramá cos dessa época, a fim de contextualizar, em linhas muito gerais, o ambiente em que tais debates se desenvolveram: a ascensão dos movimentos, par dos e regimes fascistas; a Grande Depressão; a Guerra Civil Espanhola; os totalitarismos nazista e stalinista; a Segunda Guerra Mundial.
As perseguições nazifascistas e stalinistas levaram ao exílio ou aos gulags alguns dos maiores intelectuais de então, quando não os liquidaram fisicamente. A Grã- Bretanha e, sobretudo, os Estados Unidos foram os refúgios de intelectuais de várias nacionalidades, a exemplo dos alemães da Escola de Frankfurt e de E. Cassirer. Haveria que recensear, ainda, os “exilados internos”, como B. Croce, a situação polêmica de Heidegger, o “colaboracionismo” com Vichy etc.
É di cil avaliarmos num texto como este o que tudo isso representou em termos de historiografia das idéias. Muita coisa só pôde ser percebida realmente após 1945, mas não temos dúvida sobre algo essencial: de uma forma ou de outra o marxismo estava então presente no horizonte intelectual das novas tendências historiográficas surgidas na França e nos Estados Unidos.
■ A ÉCOLE DES ANNALES E A HISTÓRIA DAS IDÉIAS. Já vimos que a posição dos Annales em relação à história das idéias não foi propriamente de simpa a e que os annalistes foram veementes na condenação de um certo po de história das idéias — de viés “posi vista”, feito de “idéias descarnadas”, coisificadas, e de es lo “historizante”. Todavia, esta a tude não se traduziu, necessariamente, em exclusão de toda e qualquer “idéia” dos textos que os historiadores dos Annales produziram. Marc Bloch, com Os reis taumaturgos, Georges Lefebvre, com 0 grande medo de 1789, e sobretudo Lucien Febvre, com Um des no, Mar nho Lutero, Erasmo, A contra-reforma e o espírito moderno, e, principalmente, 0 problema da descrença no século XVI, demonstraram as possibilidades de uma história intelectual comprome da com a análise, ora dos grandes movimentos cole vos, ora de psicologias individuais, mas sempre alicerçados em conceitos inovadores como utensilagem mental, a tudes mentais, formas de pensamento, além de englobar questões ou tópicos como a linguagem, as crenças, a cultura popular, as concepções filosóficas etc. Tanto é assim que, décadas mais tarde, a história das mentalidades buscou nessas obras dos “pais fundadores” as marcas ou evidências de sua própria legi midade, o que não deixa de ser curioso, já que o próprio Febvre manifestara por diversas vezes sua descrença quanto à validade e viabilidade da aplicação do método quantitativo à história intelectual.
Ora, como foi já sublinhado por diversos historiadores, tais como Vovelle, Char er, Darnton, entre outros, a história das mentalidades começou como um projeto de levar ao estudo do “terceiro nível” ou “sótão” os mesmos procedimentos de quan ficação serial que já vinham sendo aplicados com êxito à história econômica, social e demográfica.
■ A HISTÓRIA DAS IDÉIAS NORTE-AMERICANA: DA NEW HISTORY DE J. H. ROBINSON À HISTORY OF IDEAS DE A. O. LOVEJOY. Contemporânea dos Annales, se bem que mais
an ga, a New History norte-americana domina a história intelectual e somente a par r de 1940 sofrerá a concorrência da história das idéias de A. Lovejoy. No “manifesto” da New History estavam já inscritos os princípios que iriam caracterizar a nova tendência historiográfica: (1) “o obje vo da história é permi r a compreensão de nós mesmos e a par r daí solucionar nossos problemas atuais e talvez guiar o nosso futuro”; (2) incluir a história intelectual, mas excluir as “trivialidades” e se propor um alcance bem maior do que a história polí ca, diplomá ca e militar tradicional; (3) interdisciplinaridade; (4) “a história deve ser concebida como um desenvolvimento gené co con nuo e eterno no qual o presente é iluminado a par r da percepção dos anacronismos ou das origens freqüentemente irracionais de nossas idéias e instituições”.28
O criador da New History, J.H. Robinson, pôs em prá ca suas idéias no seu livro de maior sucesso — The mind in the making (1920). Behaviorista em psicologia, pragma sta em filosofia, Robinson preconizou a u lização de conceitos de outras ciências humanas, a elaboração de uma história compreensiva (aqui equivalendo ao nosso social), o estudo das ins tuições sociais e o abandono da história dos acontecimentos por si mesmos.
Nos anos 30, a New History demonstrou sua importância através dos trabalhos de alguns importantes historiadores — uns, como Grane Brinton (The anatonomy of revolution, 1938) e Carl Becker, (The heavenly city of XVIIIth Philosophers, 1933),
marcaram suas próprias distâncias em relação à ideologia “presen sta” de Robinson; outros, no entanto, engajaram-se por inteiro na nova tendência: Ch. A. Beard, Harry H. Barnes, Carlton Hayes, James H. Breasted e, em parte, Arthur M. Schlesinger Jr. O entusiasmo de Barnes já o levara a publicar The new history and the social studies, em 1926, no qual enumera “precursores” e “an gos discípulos” de Robinson — a começar, neste caso, por Lynn Thorndike, autor de The place of magic in the intellectual history of Europe (1906).
Assim, por volta de 1960, se a New History deixara de ser nova, tampouco estava superada, embora demonstrasse alguns sintomas de esgotamento. No campo específico da história das idéias durante este período o debate central travou-se no universo intelectual anglo-saxônio, opondo as concepções de Lovejoy e sua “escola” às de Collingwood e seus seguidores. No fundo, um historicismo mais kan ano em face de um outro, mais hegeliano inspirado em Croce. Na verdade, este debate nha como adversário comum o “neoposi vismo”. Esse debate restrito ao âmbito da história das idéias processou-se, segundo Preston King,29 a par r de duas proposições opostas:
“todo conhecimento é conhecimento do presente” versus “todo conhecimento é conhecimento do passado” (conhecimento histórico, claro). Em favor da primeira afirmação escreveu Collingwood e, da segunda, Lovejoy.
A parte final do período que estamos analisando — pós-45 —, sobretudo as décadas de 1950 e 1960, caracteriza-se pela convivência do “velho” com o “novo” na historiografia das idéias. Persiste a maneira tradicional, “posi vista”, de historiar as idéias; há uma certa revivescência historicista em alguns países; prosseguem seu curso, nos EUA, a New History e a History of Ideas. As novidades ficam por conta do marxismo e
d a École des Annales, a começar pelas relações entre eles, inclusive os pontos de convergência entre o “materialismo histórico e a escola francesa contemporânea” detectadas por Cardoso e Brignolli.30
A historiografia francesa contemporânea, leia-se, os Annales, empolgou-se, nos anos 50, pelos chamados métodos quan ta vos, e já nos anos 60, pelo estruturalismo. Ba zada de nouvelle histoire, essa historiografia compreende historiadores cujas trajetórias intelectuais e polí cas podem ser muito dis ntas entre si, tal como as maneiras de cada um deles encarar a disciplina histórica e seu o cio. Em termos muito gerais, é possível no entanto recortar, no conjunto da enorme variedade de perspec vas
pica da historiografia annaliste, um pequeno grupo de historiadores que se opuseram claramente, ou manifestaram suas próprias reservas, ao quan ta vismo e ao estruturalismo. Dentre tais “dissidentes”, basta mencionar os nomes de Pierre Vilar, adversário também do marxismo althusseriano, Albert Soboul, no Colóquio de Saint- Cloud (1965), em que cri cou os excessos da febre quan ficadora, além do grupo reunido pela nouvelle cri que no livro Aujourd’hui l’histoire (1974), o qual cons tui interessante contraponto à coletânea de Jacques Le Goff e Pierre Nora, Faire de l’histoire, editada naquele mesmo ano.
Desse modo, na ocasião mesma em que Pierre Chaunu proclamava o advento de uma “Histoire, science Sociale”, tulo de um de seus livros (1974), fundamentada na cien ficidade quan ta va ou serial — e isso poucos anos depois da viragem decididamente estruturalista dos Annales, consubstanciada em número especial de sua revista (1971) —, os historiadores marxistas cri cavam as opções a par r do materialismo histórico.
Na prá ca, portanto, os debates da década de 1960, reunidos nessas coletâneas de início dos anos 70, revelam as insa sfações não só dos historiadores convictamente marxistas, como Vilar, Soboul, Parain, entre tantos outros, mas também dos que haviam sido marxistas. Em geral, no intuito de resgatar para a história o chamado terceiro nível, estes úl mos foram buscar em Lucien Febvre e outros “fundadores” uma tradição de preocupação com a história intelectual, a psicologia, as prá cas e representações coletivas, enfim, as mentalidades.
Na maioria dos casos, porém, essa incorporação de novos objetos e abordagens foi pensada segundo o cânone da “história estrutural” braudeliana e, por algum tempo ainda, como extensão dos métodos quan ta vos àquele “terceiro nível”, o nível do mental. Já Labrousse havia condensado a essência dessa “Nova História” ao escrever: “O movimento é por excelência econômico... O social retarda o econômico quando é ele que tem a inicia va. Mas acima do social, o mental por sua vez também retarda, e as restrições do mental são as mais poderosas de todas.”31 As idéias afinal retornavam, mas
agora enquanto ideologias e mentalidades.32
Se a França foi então o cenário do diálogo dos Annales com o marxismo, na Grã- Bretanha esta foi a época de um talentoso grupo de intelectuais marxistas reunidos, até 1956, no Grupo de Historiadores do Par do Comunista Britânico. Segundo Hobsbawm,33
que escreveu essa história, o grupo reuniu mais de trinta historiadores e criou uma tradição marxista na historiografia britânica — Eric Hobsbawm, Edward Thompson, Maurice Dobb, Christopher Hill etc. — especialmente a par r da edição da revista Past
and Present, em 1953. Com a ruptura ocorrida em 1956, os dissidentes, inclusive Thompson, criaram a New Left Review (1959), após algumas inicia vas editoriais de curta duração. Sob a direção de Stuart Hall e, a seguir, de Perry Anderson, a nova revista prosseguiu até 1963, quando ocorreu o rompimento de Thompson com Anderson — o “marxismo estrutural francês” (althusserianismo) aceito por Anderson conduziu-o à crí ca dos “desvios” e “insuficiências teóricas” de Thompson, cujas respostas viriam mais tarde no seu famoso livro, A pobreza da teoria e outros ensaios (1981).
Querelas à parte, é inegável que foi e é Thompson o historiador mais citado e imitado desse grupo de marxistas britânicos. Em sua obra principal — The making of the english working class (1963) — Thompson inaugurou magistralmente a nova history from below, cuja teoria e método se cons tuem em claros desafios ao posi vismo empirista ainda reinante na historiografia anglo-saxônia e às formas mais em voga do marxismo — as “ortodoxias” dogmá cas e as estruturais (baseadas em Althusser), todas elas “escolásticas”, segundo Thompson.
De qualquer modo, através de uma porta diferente da francesa, uma nova maneira de escrever a história social entrava em cena e permi a a inserção de temas e questões de natureza cultural em conexão com a consciência dos agentes históricos, seus projetos, suas representações, seus sen mentos e a tudes morais e religiosos, em suma suas “mentalidades”, como diriam os franceses.
A riqueza, variedade e complexidade do período, em especial dos anos 60, não se esgota aí, entretanto. Há que mencionar a crescente circulação dos textos gramscianos e a reação, na Itália, à canonização e esterilização do pensamento de Gramsci, reação liderada, entre outros, por Galvano della Volpe, Pietranera, Golle , Rossi etc. E haveria ainda a considerar os desenvolvimentos havidos na Alemanha, sobretudo os textos de J. Habermas, e em vários outros países. Não cabe certamente nos estreitos limites deste capítulo o recenseamento, ainda que sumário, de como ou em que medida todos esses desenvolvimentos marxistas influíram na historiografia das idéias. Pensamos, entretanto, que o aparecimento de uma nova história intelectual seria incompreensível sem a referência a tais correntes e debates.
Em suma, ao findarem os anos 60 já exis am precondições teórico-metodológicas para uma renovação da história intelectual e a conseqüente reinserção das idéias no horizonte e preocupações dos historiadores, pois o receio de ser confundido com o empirismo “posi vista”, ou o temor de ser acusado de “idealista” pelos marxistas, haviam baixado agora a níveis perfeitamente suportáveis academicamente.