2.3 Analysis of PLN Behaviour
2.3.3 Sonority Sequencing Principle
Passamos ao terceiro mapa. Este está mais nítido. O mapa representa uma cidade por volta de 1808. Um ponto nos interessa. Trata-se do Campo da Lampadosa. Esteve ali instalada uma casa de história natural. Manuel Duarte Moreira de Azevedo (1877), no seu livro “O Rio de Janeiro: Sua história, monumentos, homens notáveis usos e curiosidades” apresentou aos leitores alguns detalhes da cidade. Dedica um verbete ao Museu Nacional. Mas antes de tratar da instalação do Museu Real em 1818, no Campo de Santana, irá reportar o leitor a outro espaço de colecionamento da história natural: a Casa de História Natural criada no governo do vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa (1779-1790), dirigida por Francisco Xavier Cardoso Caldeira,como nos conta Azevedo (1877, p. 220):
Em frente da casa dos Pássaros, no lugar em que atualmente levanta-se a igreja do Sacramento, havia uma lagoa chamada da Panella habitada por aves aquáticas, que eram mortas a tiro das janelas da casa dos Pássaros, isso ainda no principio do século, segundo o testemunho de João de Deus e Mattos, que muito tempo ocupou o cargo de preparador.
A interpretação de alguns autores ajuda-nos a localizar a criação, em 1781, de um “gabinete de estudos de história natural (Casa dos Pássaros)” (MOACYR, 1936, p. 31). É preciso considerar uma ambiência de interesses forjado pela metrópole portuguesa nas últimas décadas do século XVIII que conformou, dentre vários aspectos, as viagens filosóficas e as constantes remessas de coleções ao Real Gabinete da Ajuda, que envolviam não só naturalistas, mas também funcionários administrativos eclesiásticos (DOMINGUES, 2001; RAMINELLI, 2008; LOPES, 2009; LEONTSINIS, 1997). A produção das instruções aos viajantes e naturalistas nos ajudam também a dar cor ao funcionamento dessa dinâmica de remessas entre Brasil e Portugal. No Arquivo do Museu Bocage272 é possível reconhecer vestígios dessa dinâmica. São inúmeras listas de remessas feitas pelas províncias, principalmente entre os anos de 1780 e 1805. Dessas listagens conseguimos perceber que há, especialmente, remessas de amostras do reino vegetal (sementes, ervas medicinais, mandiocas, madeira), que saíam, principalmente, das províncias do Ceará, Bahia, Pará, Maranhão, Piauí, Paraíba e Rio de Janeiro. O interessante dessas relações é que elas materializam, de certa forma, aquelas prescrições contidas nas instruções. De forma mais precisa, geralmente são relações que acompanhavam os caixões de remessas que chegavam nas embarcações em Portugal. Deixam ver as marcas feitas por aqueles que remetiam, identificando normalmente, os caixões (com números) e as amostras (com letras) e as suas
correspondências nas relações. Há também descrições das amostras e algumas indicações dos usos. Provavelmente tais listagens foram separadas de suas correspondências nas dinâmicas de organização dos arquivos e por isso não localizamos referências àqueles que haviam remetido as amostras. Encontramos, na maioria das vezes, a referência da província de origem e o capitão do navio que transportou a remessa. Há apenas em um documento “Relação de quatro caixões com Plantas que vierão do Rio de Janeiro, no Hyate de S. Mags”273 que faz referência a Francisco Xavier, provavelmente o responsável pela Casa dos Pássaros.
Sem esgotarmos a reflexão sobre a criação da Casa de História Natural, apontamos que alguns aspectos merecem ser problematizados. Estas dirigem-se, sobretudo, às representações e interpretações que foram sendo conferidas à Casa dos Pássaros. Encontramos referências dela em três trabalhos memorialísticos sobre o Museu Nacional e, apesar de semelhantes em alguns aspectos, é interessante perceber como foram sendo atribuídos outros significados e interpretações a respeito do seu “papel”. O primeiro deles está presente no artigo escrito em 1852 pelo secretário e diretor da Seção de Zoologia do Museu Nacional Emílio Joaquim da Silva Maia, “Esboço histórico do Museu Nacional”, publicado no Diário do Rio de Janeiro.274 Neste artigo faz referência ao vice-rei do Brasil Luiz de Vasconcelos, “a quem se deve a primeira lembrança de um museu de historia natural no Rio de Janeiro”.275 Silva Maia parece valorizar ou sublinhar mais na sua escrita o projeto ou o desejo do Vice-rei:
Convencido da utilidade de semelhante estabelecimento na capital da extensa e rica terra de Santa Cruz, e certo das vantagens, que as nações civilizadas daí tiravam, projetou a execução de um que devia abranger tantas coleções preparadas, como animais vivos. Com o qual poderia também com facilidade dar cumprimento às ordens da metrópole, remetendo para os museus de Lisboa e Coimbra produtos do Brasil.276
Silva Maia apontou também como este projeto foi se conformando: “Concebida a ideia e adotado o plano para o novo edifício, começou-se a trabalhar com afã nos alicerces”, mas também relatava que “a obra desviada do seu fim, vindo a servir o que estava feito como
273 Arquivo Museu Bocage, Remessas 633, doc. 34. Trata-se de várias listagens de produtos remetidos do Rio de Janeiro. Não há referência de datas no documento.
274 É interessante a justificativa trazida pelo periódico para a publicação do artigo, intitulado “Esboço histórico do museu nacional, servindo de introdução a trabalhos sobre as principais espécies zoológicas do mesmo estabelecimento, pelo Dr. Emilio Joaquim da Silva Maia”. Faz referência à Sociedade Velosiana, que se reunia na secretaria do Museu Nacional para a leitura de memórias e notícias. Dentre essas, comenta que em uma sessão foram apresentados dois trabalhos: um por Francisco Freire Alemão, sobre as plantas novas do Rio de Janeiro, e outra por Emílio Joaquim da Silva Maia, sobre a história do Museu Nacional.
275 SILVA-MAIA. Comunicado: “Esboço histórico do museu nacional, servindo de introdução a trabalhos sobre as principais espécies zoológicas do mesmo estabelecimento”. Diário do Rio de Janeiro, Ano XXXI, n. 9022, 30 jun. 1852. p. 2-3.
276 SILVA-MAIA. Comunicado: “Esboço histórico do museu nacional, servindo de introdução a trabalhos sobre as principais espécies zoológicas do mesmo estabelecimento”. Diário do Rio de Janeiro, Ano XXXI, n. 9022, 30 jun. 1852. p. 2-3.
paredes do novo erário”. O artigo, contudo, sinalizava que “estabeleceu-se provisoriamente em uma pequena casa contigua ao chão do novo museu, um deposito permanente de objetos zoológicos com a denominação de casa de história natural, ou como vulgarmente se dizia casa dos pássaros: aonde se preparava e montava animais, dividindo-os só em famílias, sem determinar-se se (?) nem espécies, por não haver então pessoa capaz de os classificar”.277 Dessa narrativa insinua-se, portanto, mesmo que argumentado na perspectiva de um projeto, que tratava-se de um depósito permanente e ainda articulado ao projeto colecionista metropolitano.
A segunda referência aqui mobilizada apresenta-se nas “Investigações históricas e científicas sobre o Museu Nacional”, escrita por Ladislau Netto e publicada em 1870. Nesta, também se referencia o projeto do edifício e a improvisação de “um depósito de produtos zoológicos do Brasil, destinados, sobretudo ao aumento das coleções brasileiras do museu metropolitano” (NETTO, 1870, p. 11).
Outra menção é feita por João Batista Lacerda, na sua obra “Fastos do Museu Nacional do Rio de Janeiro” de 1905. Nesta, a argumentação sugere uma ideia distinta: “A primeira tentativa que se fez para fundar no Rio de janeiro um museu de história natural, durante o vice-reinado de D. Luiz de Vasconcellos, foi malograda”. Apesar de referenciar as “boas intenções do ilustre Vice-rei”, reforça a ideia de uma “duração efêmera” de “um gabinete zoológico” descrita como Casa que “expunha somente uma coleção de aves estropeadas, mal preparadas e não classificadas segundo os métodos científicos” (LACERDA, 1905, p. 03). Colocamos em contraste esses três argumentos sobre a Casa dos Pássaros, sinalizando que há interpretações distintas e que também estão insinuadas na historiografia sobre o Museu Nacional.
Lopes (2009), contrapondo-se à análise feita por Lacerda (1905), ressalta que a casa dos Pássaros “durante seus quase trinta anos de funcionamento, adequou-se perfeitamente, à sua função de entreposto colonial para envio de produtos à Metrópole” (p.38)278. Parece-nos, contudo, que as análises de Silva-Maia (1852), e Ladislau Netto (1870), convergem no sentido de atribuir à Casa dos Pássaros uma conotação com uma vis museológica, mesmo ressaltando a construção de um depósito improvisado de produtos zoológicos, feito em paralelo à construção do edifício.
277 SILVA-MAIA. Comunicado: “Esboço histórico do museu nacional, servindo de introdução a trabalhos sobre as principais espécies zoológicas do mesmo estabelecimento”. Diário do Rio de Janeiro, Ano XXXI, n. 9022, 30 jun. 1852. p. 2-3.
278 Lopes (2009) reforça essa argumentação ao falar que a Casa dos Pássaros “por mais de vinte anos colecionou, armazenou e preparou produtos naturais e adornos indígenas para enviar a Lisboa” (p.26).
Diante dessas interpretações, percebemos que ainda há folego para pesquisas que busquem fazer análises mais aprofundadas sobre as dinâmicas de remessas entre Rio de Janeiro, outras províncias e Portugal. Mas aqui podemos já sublinhar que talvez seja necessário também interrogar a conformação da Casa dos Pássaros sob outras perspectivas. Dentre essas, a pertinência em se mandar construir uma casa que, como sugere Leontsinis (1997), erguia-se “sob a forma de um elegante edifício de arcaria de granito” (p.62).279 Silva- Maia (1852), e Azevedo (1877), deixaram escapar algumas expressões que dão forma à tentativa de se forjar um espaço, não necessariamente apenas como um entreposto ou depósito de coleções a serem remetidas aos museus metropolitanos.
Foi esse vice-rei (Luiz de Vasconcellos) que deu principio no Campo da Lampadosa a um museu de história natural devendo abranger não só coleções preparadas como também animais vivos; fez construir o edifício pelos sentenciados das prisões; e em quanto caminhavam as obras, ergueu no mesmo lugar uma casa térrea para deposito permanente de objetos zoológicos divididos em famílias, mas sem distinção de gêneros, nem espécies (AZEVEDO, 1877, p. 219, grifo nosso).
Os memorialistas referem-se a um museu e a um depósito permanente. Tais expressões não reportam somente a um “entreposto” de remessas. Parece-nos, muito mais, que se forjava um espaço de colecionismo e que, possivelmente, vislumbrava uma exibição, dado o cuidado com o investimento arquitetônico. Sobre isso Moreira Azevedo (1877), nos dá tintas para tal hipótese: “Recebeu essa casa o nome de casa de história natural ou dos pássaros, denominação que também se dava ao edifício que se construía para museu de história natural” (p.219).
Contudo, não há na historiografia e nas fontes consultadas indícios de que a coleção chegou a ser organizada e exibida neste edifício. O que estamos problematizando é que talvez seja possível um investimento historiográfico que matize a conformação da Casa de História Natural. Podem fazer parte do mesmo processo o “simples” “entreposto” e o germe de um museu. Projeto, provavelmente muito mais “sonhado” do que efetivado, mas que talvez se encontre estilhaçado nos anos que seguem.
Na altura da impressão do mapa a Casa dos Pássaros tornava-se uma oficina de lapidação. Azevedo (1887), nos conta que “Vindo para o Brasil a família real tornou-se a casa dos Pássaros uma oficina de lapidação, e extinto o museu encerraram-se em dois caixões os
279 Lopes (2009) afirma que o edifício da Casa dos Pássaros “teria abrigado os encarregados dos serviços de lapidação de diamantes com suas famílias, tendo sido derrubado posteriormente, para dar lugar ao prédio do erário” (p. 27). Leontsinis (1997), em outra perspectiva, faz referência e apresenta uma imagem de um “belo edifício” que havia se transformado, por volta de 1811, em uma oficina de lapidários, “transformando-se mais tarde no Erário Régio” (p.64).
produtos que existiam, entre os quais havia mais de mil peles de pássaros, muitos insetos e alguns mamíferos, ficando tudo sob a guarda de dois ajudantes do inspetor, o Dr. Luiz Antonio da Costa Barradas sucessor de Francisco Xavier que havia falecido”.280 Contrastando a escrita de Azevedo (1887), e Netto (1870), parece haver uma concordância em relação ao destino dessa coleção. Contudo, para Netto (1870), parte dessa coleção, depois de metida em caixões, teria se deteriorado e posteriormente o General Napion281 achou “em estado de imperfeita conservação cerca de cinquenta exemplares dos mil pássaros e dos muitos outros animais, que tinham sido ali depostos” (p.15). Azevedo (1887), por outro lado, fala que os caixões haviam sido removidos para o Arsenal de Guerra e “ter-se-iam destruídos os produtos se o diretor do arsenal, o general Carlos Antonio Napion, não mostrasse interesse e cuidado pelos objetos zoológicos, mandando-os limpar, reparar e guardar em armários convenientes” (p. 220). Mesmo que não tenhamos indícios, principalmente com registros de inventários/catálogos e outros documentos que sinalizam para tais deslocamentos da coleção, é possível pensar que estas acompanharam processos de acomodação e deslocamentos de algumas instituições.
280 Colocando em contraste o texto de Azevedo (1877), e Silva-Maia (1852), percebemos que as informações sobre a Casa dos Pássaros são coincidentes. Essas informações também são apresentadas por Lopes (2009, p. 27). Optamos em privilegiar e contrapor as argumentações dos autores, memorialistas da cidade, cronistas e, na expressão de Lopes (2009) “historiógrafos do Museu Nacional”.
281 Carlos Antônio Napion (1757-1814) foi um oficial italiano contratado pelo exército português. Veio ao Brasil acompanhando a família Real. Foi o primeiro presidente da junta que dirigia a Academia Real Militar, onde também era professor de mineralogia, física e química. Participou também da criação da Fábrica de Pólvora e do Jardim Botânico (TELES, 2003).
FIGURA 6: Planta da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Reduzida da que se publicou no ano de 1812
em 1817. P.S.F. Souto. (modificada pela autora).