As comunidades de agricultores têm manejado os recursos genéticos desde que começaram a cultivar plantas. Como foi relatado em tópicos anteriores, ao longo das últimas décadas, porém esse manejo tem escapado progressivamente do seu controle. Atualmente, ao lado do surgimento de demandas por uma agricultura sustentável, baseada nos princípios da agroecologia, tem havido um crescente reconhecimento do papel das comunidades de agricultores enquanto mantenedoras de um patrimônio genético e cultural.
A constante diversificação e o aperfeiçoamento das características das plantas são produtos e partes fundamentais da sustentabilidade dos ecossistemas agrícolas, pois permitem que as comunidades de agricultores adaptem os seus cultivos às características específicas de cada ambiente. De acordo com Shiva (2003 citado por Reis, 2006, p. 231),
[...] a biodiversidade sempre foi um recurso local comunitário. Um recurso é propriedade comunitária quando existem sistemas sociais que os utilizem segundo princípios de justiça e sustentabilidade. Isso envolve a combinação de direitos e responsabilidades entre usuários, a combinação de utilização e conservação e um sentido de co-produção com a natureza.
Amorozo (2006) admite que, por meio das práticas de manejo, as plantas sofrem modificações para atender às novas exigências ambientais e culturais, verificando a dependência, direta ou indireta, das comunidades de agricultores em relação à diversidade das plantas para a sobrevivência. Essa dependência se torna recíproca, isto é, as plantas também dependem do ser
humano tanto mais quanto mais se avança o processo de seleção
(AMOROZO, 2006, p. 1). Nesse sentido, Emperaire (2002) sustenta que a seleção é realizada de forma voluntária e involuntária, garantindo, desse modo, a evolução dinâmica das espécies e variedades locais.
Não restam dúvidas de que a agricultura de base familiar organizada comunitariamente, pelas suas características, tem sido a grande responsável pela conservação da agrobiodiversidade em todo o mundo. Esses agricultores, ao manejarem plantas e animais e interagirem entre si e com o
ambiente e o seu entorno, durante os processos sociais, de cultivo e de criação animal, geram e sustentam um sistema próprio de conhecimentos, que, na maior parte das vezes, não é valorizado.
Mais recentemente, muitas experiências de apoio às estratégias de manejo da agrobiodiversidade estão sendo construídas e documentadas em todos os continentes, sobretudo na África, na Ásia e na América Latina (CARVALHO, 2003). No Brasil, Almeida e Freire (2003) relatam a experiência das Sementes da Paixão. Por meio de bancos comunitários de sementes, administrados pelos próprios agricultores, diversas famílias do agreste da Paraíba têm conseguido manter boa parte de suas variedades.
Em comum, essas iniciativas possuem a busca da autonomia por parte de agricultores e comunidades, a valorização dos saberes informais, a busca da promoção, o uso e a conservação sustentável da sua agrobiodiversidade e, frequentemente, contam com a participação de organizações não- governamentais ou governamentais.
As estratégias utilizadas são as mais variadas possíveis, tais como feiras e bancos comunitários de sementes, registros da biodiversidade local, valorização dos tipos de usos, incentivo às redes de intercâmbio de sementes, conhecimentos e melhoramento participativo de cultivos (SUBEDI
et al., 2003).
Nesse sentido, embora muitas estratégias tenham sido construídas e muitas outras estejam em processo de construção, Neuendorf (2000) aponta que a maioria dos agricultores não se sente como os protetores ou guardiões de algo que a comunidade científica internacional quer preservar para uso futuro. A sua percepção da agrobiodiversidade seria mais pragmática, estando mais relacionada ao seu estilo de vida e às necessidades econômicas. Nessa lógica, Wiersum (2003) afirma que a conservação e o manejo da agrobiodiversidade não são atividades independentes das estratégias de subsistência das comunidades de agricultores, de modo que a conservação existe, à medida que existe o uso.
A análise realizada por Caballero (1990) demonstra que as formas de manejo dos recursos genéticos vegetais desenvolvidos pelos agricultores, acrescentam uma importante diversidade genética às espécies e às
variedades, visto que os seres humanos selecionam e mantêm diferentes genótipos que lhes são úteis. Na verdade, para eles é importante, se não vital, manter a diversidade de cultivos em seus sistemas agrícolas, em decorrência dos fatores imprevisíveis que põem em risco a produção de alimentos.
Nessa lógica, Sthapit e Jarvis (2000) admitem que o manejo da agrobiodiversidade em uso por comunidades de agricultores é um processo que gera diversidade, podendo compreender quatro etapas: a) fluxo de genes entre plantas silvestres e cultivadas e por meio de intercâmbios de materiais entre agricultores, nas diversas escalas geográficas; b) seleção de variedades realizada pelos agricultores; c) seleção de variedades, por meio de processos naturais; d) métodos de armazenamento e avaliação de sementes após a colheita com seleção para a próxima safra.
Para ilustrar tal fato, Louette (2000), ao estudar os sistemas e as estratégias de manejo da diversidade genética de milho dos agricultores mexicanos em duas diferentes regiões, concluiu que a dinamicidade das variedades é considerada como resultado do sistema de manejo desenvolvido pelos agricultores em suas roças e comunidades, com os materiais locais e introduzidos. Na situação estudada, os agricultores obtêm sementes de milho de três origens diferentes: por meio de seleções feitas pelos próprios camponeses; pela aquisição de outros camponeses e de introduções de fora da comunidade local. Nesse sentido, a autora destaca que, diferentemente do que normalmente se pensa, a comunidade não está isolada, havendo uma significativa e constante introdução de novas variedades, que, depois de experimentadas, algumas são crioulizadas, passando a ser cultivadas e manejadas pelos camponeses dentro de seus agroecossistemas.
O apoio às estratégias de conservação e manejo deve partir do conhecimento da realidade, sendo que, para isso, é importante a identificação dos diferentes tipos de agricultores e dos diferentes papéis que desempenham na comunidade. Um aspecto interessante ressaltado por Canci (2006), em relação às estratégias de conservação utilizadas pelos agricultores, diz respeito à dificuldade de se estudar, isoladamente, o manejo
das variedades locais, sem analisar as relações sociais e comunitárias envolvidas, já que são essas que determinam as estratégias utilizadas, e não cada agricultor em particular.