Passamos à imagem seguinte. Uma representação do Campo de Santana de Franz Fruhbeck. Este também participava da missão cientifica austríaca. Veio ao Brasil como auxiliar do bibliotecário Rochus Schuch.291 Há detalhes que nos ajudam a perceber como este espaço foi assumindo uma importância política e simbólica na dinâmica da cidade. Algumas análises sobre as transformações urbanas no Rio de Janeiro no período joanino colocam foco no Terreiro do Paço, ressaltando como simbolicamente foi sendo reafirmado como espaço privilegiado “dos acontecimentos políticos, das festas reais e das cerimônias de institucionalização e afirmação do poder” (SANTOS, 2000). Santos (2000), sinaliza como a transferência da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, perpassou uma intensa produção de imagens simbólicas, marcando a “institucionalização do poder monárquico” (p.12). Dentre essas, destaca a chegada da família ao Rio de Janeiro, a elevação do Brasil à condição de Reino (1815), o funeral de D. Maria I (1816), o casamento de D. Pedro I com Leopoldina da Áustria (1817), a Coroação de D. João VI (1818). Essa retórica simbólica e visiva da Corte foi sendo forjada. Parte dessa era uma arquitetura efêmera, erigida para compor cenários de exibição e reafirmação do poder: cerimônias da família real, festas nacionais, revistas de tropas, aclamações. Contudo, é preciso ver o Terreiro do Paço como lugar da afirmação do poder ou, como prefere Del Brenna (2000), centralidade simbólica, mas que tem o Campo de Santana e a Quinta de São Cristóvão292 como espraiamento do espaço simbólico da cidade.
Mas voltamos à pintura de Fruhbeck. Iniciamos pelo elemento que está ao centro da representação. Uma Praça dos Curros. Parte de uma arquitetura efêmera, moldada principalmente em momentos/espaços simbólicos, as Praças de Touros estiveram presentes, em diferentes episódios no Campo de Santana.293 Em um desses, foi feita para as comemorações do consórcio da “Sereníssima Senhora D. Maria Teresa, Princesa da Beira, e do Sereníssimo Senhor Infante de Espanha, S. Pedro Carlos”. Dela traz uma notícia a Gazeta do Rio de Janeiro. Relata o cronista que no dia 12 de outubro, em presença do Príncipe
291 Leontsinis (1997) aponta que os estudos de Leopoldina na Áustria, principalmente em Astronomia, Mineralogia e Botânica foram orientados por Rochs Schuch, que a acompanhou ao Brasil e foi bibliotecário e diretor do Gabinete de História Natural da Imperatriz no Paço da Boa Vista. Schuch também havia sido assistente voluntário e conservador do Museu Imperial de História Natural na Áustria, a partir de 1813 até a sua partida para o Brasil (1997, p. 59).
292 Para Del Bernna (2000), a localização da residência real na Real Quinta da Boa Vista “che orienta e favorisce la rapida crescita dela città in direzione di S. Cristovão e il definitivo superamento del Campo de Santana e dei pantani circonstanti come limite occidentale dell'abitato urbano” (p. 23-24).
293 Uma Praça de Curros no Campo de Santana também foi projetada por Grandjean de Montigny para as comemorações do casamento de Pedro I e Leopoldina (DEL BERNNA, 2000).
Regente e da “maior parte da Família Real, corpo Diplomático, e de toda a Corte; se deu princípio a estas Festas, a que concorreu imenso povo, animado da mais viva alegria, e atraído pela grandeza, e raridade do maravilhoso espetáculo”.294
No Campo de Santa Anna, imediato à Cidade, em um Curro admirável pelo seu tamanho, elegância, e cômodo (*)295, e que pelo assíduo zelo do
respeitável, e digno magistrado, que preside à Policia, foi feito de proposito para as festas sem despesa de pessoa alguma, e em tempo incrível pela brevidade, atendendo à vastidão da Obra; neste Curro, digo, se apresentou gratuitamente por 7 tardes sucessivas a 6 ou 70 (?) espectadores, que a Praça encerrava, o vistoso entretenimento de Touros e Cavalhadas, findando a ultima tarde com a noite da iluminação, que em um momento tornou aquele lugar verdadeiramente delicioso.296
Mais que a descrição dos elementos que compunham a retórica da festa real, o cronista indicia outros aspectos signos das transformações do espaço urbano: a conformação de espaços públicos, também de exibições. Hábitos trazidos pela Corte. Uma nova gestualidade que tinha o Campo de Santana como um cenário privilegiado. A forma como descrevia o cronista aquele espetáculo e os elementos que chamavam atenção são indícios de uma sensibilidade que se conformava: “O que mais se fez admirar foi a gentileza e primor que desenvolveram as pessoas, que entraram nas cavalhadas, praticando com denodo e bizarria dificuldades, que obrigavam os circunstantes a fazer reunir (?) os ares com os vivas da sua aprovação. Nem se deve passar em silêncio a variedade, e boa escolha das cores dos seus vestidos, a muita riqueza e gosto com que eram acabados, e a formosura e adorno dos cavalos, asseio dos serventes, etc”.297
Estava ali a presença da corte real para acompanhar a exibição: “A uns espetáculos sucediam-se outros que competiam entre si a quem mais agradaria ao Amável Soberano, ou para melhor dizer ao Piedosíssimo Pai, que se dignava honrá-los com a sua Presença”. No cenário, em forma de anfiteatro desenrolavam-se cenas: “A harmonia da Musica, que afagava
294 Gazeta do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, n. 89, 7 nov. 1810 (quarta-feira). p. 2-4.
295 A notícia também nos traz a descrição desse elemento: “A praça do Curro é um poligono de 12 lados quase oval: tem de comprido de trincheira a trincheira 474 palmos, de largura 351. Das trincheiras aos Camarotes, que é o lugar ocupado pelas bancadas em forma de anfiteatro vão 15 palmos: desde o terreno até a cimalha vão 42 palmos em toda a circunferência da praça. Os Camarotes são de dois andares, e em numero de 348. Por cima da cimalha servem de adorno sobre a porta principal o Hymeneo e America, pela extensão da Praça pirâmides e vasos, e sobre o Camarim de S. A. R. as Musas, Trofeos, e as Armas Reais Portuguesas, e nos dois ângulos da face de frente a fundo a Justiça e a Fama. O Camarim de S. A. R., e da Sua Real Família merece pela sua magnificência uma descrição particular. Ele tem de largura 52 palmos, e de comprido de frente a fundo fazendo face para a Igreja de santa Anna 51 palmos com várias repartições adjacentes, que tendem a aformosea-lo e faze- lo comodo. Na frente da praça tem uma vistosa balaustrada e escadaria, e na face que olha ao Campo de Santa Anna três janelas rasgadas com vidraças, a do meio de 8 palmos de largo, e as dos lados, 5. Todo o adorno desta peça é rico e proporcionado à sua grandeza, de modo que remata mui agradável o golpe de vista”. Gazeta do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, n. 89, 7 nov. 1810 (quarta-feira). p. 2-4.
296 Gazeta do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, n. 89, 7 nov. 1810 (quarta-feira). p. 2-4. 297 Gazeta do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, n. 89, 7 nov. 1810 (quarta-feira). p. 2-4.
os ouvidos, servia com sua cadencia para marcar a ordem, e direção variada de muitas Danças, que entravam no Curro em Carros riquissimamente adornados, e que apresentavam aos olhos vários costumes, usos, e Nações, como dando a entender que os povos, tanto os próximos, como os remotos, tanto os selvagens, como os cultos, deviam tributar homenagens, e dedicar respeitos às virtudes de um Soberano, cujo verdadeiro trono é o coração de seus Vassalos e Servidores”.298
Simbolicamente, um dos principais momentos dessa cena que durou dias foi um espetáculo de luz e fogo. O cronista, destacava a sugestão de D. João em “formar a Peça da Iluminação e fogo fora do Curro” ficando assim “provada deste espetáculo a maior parte da gente não só da Cidade, mas da que ela concorreu”. Tal apontamento foi o “Causador de que um imenso Povo, concorrendo ao dilatado Campo de Sant’ Anna, onde vão parar muitas ruas, pudesse desfrutar a variedade das vistas do fogo que ali se apresentavam, e a brilhante cena da iluminação que ali se via”.299
Para terminar era preciso pedagogicamente dizer sobre a gestualidade daqueles que haviam participado: “não se observou a menor desordem, nem confusão, reinando em todos a alegria misturada com o decoro e decência, felicitando-se e convidando-se todos mutuamente para os vários espetáculos a que deu causa feliz União de uns Príncipes, que o Povo não só estima por dever, mas por inclinação.”300 Há, nessa fala do cronista indícios de um desejo de um modo de ser e portar.
298 Gazeta do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, n. 89, 7 nov. 1810 (quarta-feira). p. 2-4. 299 Gazeta do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, n. 89, 7 nov.1810 (quarta-feira). p. 2-4. 300 Gazeta do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, n. 89, 7 nov. 1810 (quarta-feira). p. 2-4.
FIGURA 9: Aspecto da cidade do Rio de Janeiro. Autor desconhecido. 1818. “Perspectiva tomada do monte de
Paulo da Caieira, vendo-se o circo de touros armado no Campo de Sant’Ana, o morro de Santa Teresa, Arcos de Sto. Antonio e trecho da cidade”.
Disponível em: <http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_iconografia/icon224696.jpg> Acesso em: 08 jun. 2015