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7 Stage III – Implementation

7.2 Realities for IWRM

7.2.2 Solution is in the society

Ainda dentro do contexto oitocentista, uma questão bastante polêmica refere-se às diversas formas como os historiadores compreendem e relacionam os fatores religiosos e civilizacionais relativos à presença árabe na península Ibérica. Ana Rita Moreira destaca, entre as múltiplas perspectivas sobre o assunto, apenas uma constante que perpassaria o conjunto das obras por ela analisadas: “[...] o reconhecimento da inimizade religiosa como conflito essencial” (MOREIRA, 2005, p.119).

Gaspar Moreira verifica, em vários autores oitocentistas, uma depreciação do islamismo, na qual essa religião seria apresentada “como testemunho de inferioridade e decadência civilizacional” (MOREIRA, 2005, p.85). Por outro lado, muitos desses autores identificam no cristianismo um signo de civilização. Entretanto, cristianismo e islamismo teriam uma origem semita comum, o que tornaria problemática a atribuição da absoluta negatividade depositada no islamismo. Para resolver a questão, Oliveira Martins (MARTINS, 1955), por exemplo, dividiria os semitas entre as tribos do norte, associadas aos parâmetros civilizacionais, de onde viriam os cristãos, e as do sul, sempre vinculada à barbárie, de onde se originariam os povos islâmicos.

Mas, interessa-nos aqui, particularmente, a perspectiva de Alexandre Herculano, divergente de Oliveira Martins, no que diz respeito à responsabilidade étnica dos fatores civilizacionais. Herculano aponta na religião e nas questões morais por ela suscitadas os fatores determinantes da civilização. Assim, o cristianismo não funcionaria como reflexo de determinado grupo étnico, mas, contrariamente, seria a própria especificidade moral da religião que definiria e determinaria o caráter civilizacional dos grupos, como sugere o seguinte excerto:

Já Alexandre Herculano encontrava no islamismo a principal razão da regressão das civilizações orientais, descobrindo aí o valor distinto dos dois monoteísmos para o progresso geral da humanidade. Ao contrário de Oliveira Martins, é no próprio sistema moral, e não na capacidade intrínseca dos povos que o elaboram, que Herculano vai encontrar a imperfeição. Enquanto que o cristianismo se impõe como força pacificadora, constituindo-se desse modo como um instrumento de progresso sobre os povos bárbaros, o islamismo, instigando o fanatismo e a violência, sempre se mostrará “inábil para constituir sociedades regulares e duradouras”; se o primeiro consegue transformar tribos bárbaras em civilizações, o segundo sabe apenas reconduzir estados civilizados à barbárie. (MOREIRA, 2005, p.86-87)

De fato, no que se refere às diferentes considerações dos autores oitocentistas, em geral, a respeito da influência dos componentes étnicos e religiosos sobre os aspectos civilizacionais dos povos, são apontadas, por Ana Rita Moreira, duas distinções fundamentais: “[...] a distinção religiosa, mais antiga e persistente, e a distinção “etnogênica”, infundida pelas novas cosmologias raciais.” (MOREIRA, 2005, p.87).

A pesquisadora observa, na historiografia de Francisco de Almeida e Araújo (1852), o destaque para uma crescente reavaliação dos invasores muçulmanos pela população peninsular. Gaspar Moreira esclarece que, para o historiador, passada a rivalidade própria da situação de conquista, os peninsulares puderam reconhecer e

admirar a civilização árabe (MOREIRA, 2005, p.89).

Mas, Ana Rita Moreira defende que, apesar das perspectivas que relativizam a oposição irreconciliável entre os árabes e os habitantes da península, prevaleceu sempre a idéia de inimizade entre essas populações. A pesquisadora toma como exemplo as considerações propostas por Júlio Vilhena (1873, p.129) sobre o assunto: “[...] o ódio contra os mouros atravessa [...] todo o período de contato entre godos e árabes, determinando a inicial ausência de comunicação e as posteriores perseguições religiosas” (VILHENA apud MOREIRA, 2005, p.90). E corroborando, também, essa perspectiva, Gaspar Moreira retoma Alexandre Herculano, que apontaria, conforme foi visto, o islamismo como fator de desordem e obstáculo para a continuidade do processo civilizatório. O seguinte excerto da historiografia de Herculano, nos dá, de fato, a idéia da negatividade contundente como o historiador percebia a religião muçulmana:

O quadro que nos oferece a Espanha repete-se em África, na Ásia, onde quer que os sectários do Profeta levaram a fé muçulmana e a organização que em tal crença se fundava. Era ela, pois, a causa do mal. (HERCULANO apud MOREIRA, 2005, p.90).

Mas, se a questão religiosa é, frequentemente, associada ao caráter civilizacional de uma nação, como se coloca, por exemplo, na Conferência amplamente conhecida, apresentada por Antero de Quental, Causas da decadência dos povos

peninsulares, Consiglieri Pedroso (1883, p.58) parece levar ainda mais longe tal proposta. Ana Rita Moreira assinala que, para o autor, a religião seria, não apenas, um “um elemento determinante no movimento da história”, mas, também, modificadora “dos fenômenos sociológicos” (MOREIRA, 2005, p.87).

A pesquisadora ressalta, ainda, logo abaixo, um trecho da obra de Pedroso, no qual o autor estabelece uma comparação, um tanto viciosa e caricata, sobre a relação

entre islamismo, catolicismo e protestantismo com o processo civilizacional:

[...] quem se negará a ver no islamismo a causa dos rápidos progressos, mas também da rápida decadência dos árabes? No protestantismo a causa, ou pelo menos uma das causas da crescente civilização das raças germânicas? No catolicismo ortodoxo e cheio de fanatismo um dos motivos concorrentes, senão o principal, da decadência dos reinos da península? (PEDROSO apud MOREIRA, 2005, p.87)

Curiosamente, Ana Rita Gaspar Moreira encontra, tanto na historiografia de Herculano como na História de Portugal Popular e Ilustrada de Pinheiro Chagas, constatações de uma atitude tolerante dos mouros invasores para com os cristãos. De fato, segundo Alexandre Herculano, os mouros teriam respeitado a crença e também as propriedades e instituições civis dos portugueses. Mais do que isso, Gaspar Moreira salienta que o historiador atribui a benignidade dessa relação, justamente, aos códigos vigentes do islamismo (MOREIRA, 2005, p.91). Por outro lado, a pesquisadora destaca, como fato significativo, que autores nortenhos, nomeadamente Alberto Sampaio e Basílio Teles, restrinjam a tolerância árabe apenas ao sul do país, destacando no norte a crueldade e violência de suas ações.

A autora apresenta, ainda, outra forma de elaboração dos fatos referentes à relação tolerante dos árabes para com os portugueses, durante a ocupação da península, identificada em Oliveira Martins e Correia Barata. Esses autores perceberiam um interesse político e econômico, na atitude amistosa dos muçulmanos, que teria como finalidade consolidar o domínio árabe em Portugal, subjugando mais facilmente a população. Oliveira Martins vai ainda mais longe, observando uma atitude desdenhosa dos invasores, conforme afirma Ana Rita Gaspar Moreira:

A tolerância árabe é, na perspectiva de Oliveira Martins, para além de interesseira, orgulhosa. Na História da Civilização Ibérica, o autor distingue na amena ocupação muçulmana a condescendência dos vencedores face as populações que consideram intelectualmente inferiores. (MOREIRA, 2005, p.92)

Entretanto, é possível acompanhar, também, entre os autores oitocentistas, algumas apreciações que focalizam, especificamente, o desenvolvimento cultural e material dos povos árabes, no período em que ocuparam a península. Gaspar Moreira encontra nas obras de Teófilo Braga, Pinheiro Chagas, Oliveira Martins e Alexandre Herculano, entre outros, apreciações positivas sobre a civilização árabe que, em alguns momentos, parecem mesmo conflitantes com a perspectiva que apresentam sobre a influência da religião muçulmana no processo civilizatório. Em diversos textos, inclusive, os godos, ou as nações cristãs, de maneira geral, são vistos como civilizacionalmente inferiores aos árabes.

As palavras de Oliveira Martins (1972, p.138), destacadas no texto de Ana Rita Gaspar Moreira, exemplificam bem essa perspectiva. O autor declara que o estado de desenvolvimento cultural árabe seria “de um modo absoluto e independentemente de quaisquer considerações, [...] superior ao das nações cristãs” (MARTINS apud MOREIRA, 2005, p.93). Gaspar Moreira complementa tal proposição afirmando que, de fato, “a superioridade material da civilização árabe é um argumento resistente no discurso sobre a Península Ibérica na Idade Média.” (MOREIRA, 2005, p.93). A pesquisadora destaca, ainda, um excerto da obra de David Lopes (193-, p.6), no qual o autor apresenta o século X como ponto alto da dominação árabe e assevera que nesse período nenhuma outra civilização lhes era superior em termos e culturais (MOREIRA, 2005, p.93).

encontra uma relativização desse ponto de vista. Pois, embora o historiador ressalte a superioridade cultural, administrativa e industrial dos árabes, ele adverte que os leoneses “têm uma moral fundada numa religião mais perfeita e melhores instituições políticas, em particular um ideal de liberdade de raiz germânica que contrasta com o despotismo semita” (HERCULANO apud MOREIRA, 2005, p.94)

Já António Dias Farinha também ressalta, com outros argumentos, o modo favorável como Herculano percebe e descreve a expansão árabe no Andaluz: “Salientou a boa administração civil, o sistema de cobrança de impostos e, sobretudo, a tolerância religiosa como explicação desse feliz resultado” (FARINHA, 1977, p.328). E, sobre a problemática consideração religiosa do historiador sobre os muçulmanos, Dias Farinha, como outros críticos, afirma que tal postura advém do fato de Alexandre Herculano não possuir conhecimento muito consistente acerca do islamismo (FARINHA, 1977, p.327).