9 Summing Up and Concluding
9.1 Opportunities and Challenges in Wadi Zabid
“Destruição de Áuria” é um conto pouco conhecido de Alexandre Herculano, que foi publicado em 1838, no periódico O Panorama, sem a assinatura do autor. Apenas em volume mais recente das obras completas de Herculano, organizado por Vitorino Nemésio, em 1970, o texto foi compilado, juntamente com outras narrativas inéditas, também extraídas d’O Panorama. Ofélia Paiva Monteiro, inclusive, com finalidade de comprovar a autoria do conto, elabora um artigo comparando-o a
Eurico, o presbítero e definindo, de fato, a semelhança estilística e temática entre as duas narrativas. E é, justamente, o confronto entre mouros e godos, o que primeiramente chama a atenção da pesquisadora, em sua argumentação referente à similaridade entre as obras, como se pode verificar, a seguir:
O tinir das armas godas e árabes acompanha, como no romance [Eurico], todo o entrecho da novela, insuflando-lhe um ar épico, avolumado de desgraça. Efetivamente, o rasto dos Muçulmanos é o da ruína e do sangue [...] (MONTEIRO, 1973, p.7).
As comparações entre o conto e Eurico são, mesmo, inevitáveis e vão bem além do período histórico retratado. Também Vitorino Nemésio elabora o seguinte parecer sobre as narrativas, destacando a própria forma como são constituídos os personagens e as ações. Nemésio enfatiza, ainda, a diferenciação entre a autoria experiente de Eurico e a prática literária incipiente, observada em “Destruição de Áuria”:
“Destruição de Áuria” é um impressivo quadro da queda da Espanha visigótica, tocado da mesma mão que, aqui tateando, no Eurico modula a larga orquestração da passagem do Sália, as proezas sem par do Cavaleiro Negro. As astúcias varonis da heroína, doseando cruelmente as reações de gentileza à cegueira amorosa do infiel para salvar o seu príncipe, afinam pelo melhor tom do patético absoluto em romantismo [...] (NEMÉSIO, 1974, p.XVIII)
Ambientada, também, no VIII século, a narrativa de “Destruição de Áuria” retrata a tomada da cidade, denominada Áuria, pelos mouros, e o desafortunado destino amoroso de Afonso e Elfrida. Verifica-se que tanto o contexto amoroso quanto o histórico, contemplados na narrativa, confluem com os motivos abordados em Eurico, parecendo-nos, de fato, bastante profícuo o cotejamento das duas narrativas. Diferentemente de Eurico, contudo, a trama de “Destruição de Áuria” é bastante simples e pouco pródiga na constituição de personagens e na complexidade temática.
Como dissemos, o conto contempla, inicialmente, a tomada de Áuria, localizada na região da Galiza, pelos mouros, apresentando-se, posteriormente, o par amoroso, Elfrida e Afonso. Há, entretanto, uma evidente desproporção entre a questão bélica retratada no início do texto e as ações da heroína, capturada pelos mouros, que
vem a ocupar, depois, uma grande parte da narrativa. A tomada de Áuria e sua destruição ocupam apenas o contexto inicial, e a partir de determinado momento acompanham-se somente os fatos relativos ao cativeiro de Elfrida e as suas ações para tentar se libertar. Estranhamente, nem mesmo ao final da trama, apresenta-se uma amarração adequada ao contexto inicial da narrativa. Ocorre aí, unicamente, uma breve referência ao destino de Afonso e da cidade de Áuria:
Ai! Ela não sabia que Afonso era vivo; nem ele os atos heróicos do inextinguível amor de Elfrida. Os plainos de Áuria não tinham sido para Afonso o leito de morte. Exaurido de forças, caíra entre o montão de mortos e moribundos; mas enfim despertou do seu desmaio e pôde salvar-se. Brevemente souberam os Mouros, à própria custa, que ainda vivia! Mas onde estava ele nesta noite medonha, em que Elfrida fugia sozinha do campo de infiéis? (HERCULANO, 1973, p.29)
Após esse comentário volta-se, novamente, para a ação de Elfrida, e, em uma quebra com o tom mais realista, mantido até então na narrativa, descreve-se, com contornos fantásticos, a sua alienação, desvario e, finalmente, morte. O conto é finalizado com o seguinte excerto, no qual sugere-se, até mesmo, a transformação da protagonista em uma “alma errante”.:
E ainda agora, muitas vezes, ao anoitecer, segundo dizem os crédulos camponeses, a alma errante de Elfrida anda pelas planícies de Áuria. Também os velhos contam haverem visto o seu espectro nas noites de alguns invernos, que já lá vão há muito, e que as mesmas criancinhas se arrepiavam, ao ouvir nas horas da modorra ou seus altos clamores de aflição. Agouro de mau fado é o escutar os sons inarticulados das almas errantes: assim, quando ressoa a voz noturna da dona de Áuria, todas as raparigas do vale rezam e fazem promessas aos santos da sua maior devoção. (HERCULANO, 1973, p.30)
No que se refere, especificamente, ao combate entre godos e mouros, conforme já colocado, há uma concentração em torno do assunto, apenas, na primeira metade da narrativa. A relação conflituosa entre os povos é apresentada em uma
estruturação dicotômica, na qual são enfatizados os valores heróicos dos godos em oposição às desonras e vilezas destacadas no comportamento dos mouros. Assim, a corajosa resistência dos godos, na defesa das terras da Espanha, em sua luta contra os chamados infiéis, é comumente ressaltada no texto, conforme, também, exemplificado na citação disposta abaixo:
[...] o império godo não baqueou com ignomínia: não herdaram os filhos da Espanha nenhuma herança de opróbrio. [...] Os exércitos godos não fugiram; foram passados à espada e totalmente aniquilados; mas deixando repassadas de sangue mourisco as veigas do meio-dia [...] (HERCULANO, 1973, p.24)
E, se como dissemos, os mouros são retratados como antagonistas cruéis, sem escrúpulos e valores morais, a religião muçulmana é apontada como principal responsável por tais atitudes, como se pode verificar, por exemplo, no seguinte fragmento: “O árabe fero e o incansável sarraceno se haviam ligado com os desumanos filhos da África. A mesma crença os tinha fraternizado; o mesmo espírito de uma religião feroz, e de uma ambição desvairada, os havia tornado conquistadores.” (HERCULANO, 1973, p.23).
A diferença religiosa parece, de fato, constituir um fator historicamente determinante da inimizade entre godos e mouros, sendo a disputa entre eles muitas vezes entendida, antes de tudo, como um conflito de cunho religioso. Ana Rita Gaspar Moreira diz que, diversamente da dificuldade em se determinar a identidade dos povos peninsulares, “[...] a identificação dos invasores mouros é [...] relativamente inequívoca” (MOREIRA, 2005, p.77). E a pesquisadora destaca, justamente, a diferença religiosa como fator definitivo para explicar a aversão suscitada por esses povos, conforme exposto em sua argumentação, disposta a seguir:
Os invasores são globalmente identificados como povos de raça e religião diferente. A estas “mútuas repugnâncias” acresce, após a conquista, a que é, segundo Herculano, usualmente provocada pela “sujeição de povos conquistados”. Entre estas múltiplas aversões, realmente, a mais referida – e aquela à qual é concedida maior relevância – é a diferença religiosa. Alberto Sampaio identifica os povos invasores como “inimigos de raça, de costumes e sobretudo de religião, diferentes.” Similarmente, Pinheiro Chagas elege, entre outros motivos, a “inimizade religiosa” como o conflito essencial que subsiste “à convivência e à assimilação social”[...] (MOREIRA, 2005, p.77)
Desse modo, percebemos que, em ressonância com a perspectiva de autores oitocentistas, o conto de Herculano, apresenta uma oposição bastante incisiva entre os invasores mouros e os godos, habitantes da Espanha, enfatizando, principalmente, a aversão religiosa entre cristãos e muçulmanos, também destacada pelos historiadores portugueses do XIX.
A seguir, aproveitando, algumas questões aqui colocadas, referentes à representação dos mouros e godos no conto “Destruição de Áuria”, retomaremos a análise de Eurico, considerando, também, mais especificamente, a figuração desses povos na constituição narrativa. Se Vitorino Nemésio e Ofélia Paiva Monteiro percebem naquele conto uma matriz inicial a partir da qual poderia ter sido desenvolvida a história do presbítero5, veremos, entretanto, no seguinte tópico, que o romance contempla deslocamentos na forma de abordagem tanto dos mouros quanto dos godos.
5 “[...] todos os vocábulos expressivos de “Destruição de Áuria” como todas as imagens e metáforas, são
frequentes em Herculano, particularmente no Eurico; [...] as notas [...] mostrarão quanto, naquele romance, se encontram passos que são meros desenvolvimentos de expressões contidas na “Destruição de Áuria”, ou de lances e atitudes aí romanescamente já criados.” (MONTEIRO, 1973, p.21)
II.3.4 – Figurações de mouros e godos em Eurico, o presbítero
Conforme exposto anteriormente, alternando-se entre o paralelismo e a convergência, o mote da impossibilidade de realização amorosa entre Eurico e Hermengarda é acompanhado pelo contexto da disputa territorial entre cristãos e muçulmanos. A relação entre os dois povos é apresentada, inicialmente, de forma polarizada. Enquanto os muçulmanos são, de fato, contemplados como invasores, os visigodos que, há bastante tempo, haviam se instalado na Espanha, são apresentados como os antigos e legítimos conquistadores da Península. Conforme informa o narrador, a ocupação germânica e, especialmente, a tribo visigótica encontra-se, no momento, completamente integrada aos romanos que antes dominavam o espaço ibérico:
Desde essa época, a distinção das duas raças, a conquistadora ou goda e a romana ou conquistada, quase desaparecera, e os homens do norte haviam-se confundido juridicamente com os do meio-dia em uma só nação, para cuja grandeza contribuíra aquela com as virtudes ásperas da Germânia, esta com as tradições da cultura e polícia romanas. (HERCULANO, p.13 - 14, 1996)
Importa enfatizar ainda, o fato informado no início do relato, de que os godos haviam aí se fixado e adotado a religião cristã, há mais de um século. Pode notar- se então que, embora fossem, anteriormente, invasores da península, eles são agora designados como os detentores dos valores associados à nacionalidade e ao cristianismo. Da pesquisa de Ana Rita Gaspar Moreira referente à própria historiografia de Alexandre Herculano é possível depreender uma perspectiva que poderia respaldar tais fatos apresentados na narrativa de Eurico: