O serviço religioso judaico tem três ofícios diários: o da manhã ou shaharit, o da tarde ou min’há e o da noite ou ma’ariv. Nos ofícios de shabat e dos dias festivos há um serviço complementar — o mossaf. Os serviços são divididos em diferentes partes e o
43 Essa isenção ainda é justificada pelo excesso de responsabilidade e obrigações das mulheres com rela- ção ao lar como cuidar dos filhos e da cozinha.
44 Mikvé — casa de banho ritual utilizadas principalmente, para a purificação da mulher após o período menstrual, com o objetivo de que a vida marital seja recomeçada.
que marca a passagem de uma parte a outra é a recitação do kadish45, uma prece em aramaico. Os serviços são conduzidos por um oficiante o cantor hazan em hebraico. Os serviços são coletivos e as preces e orações estão compiladas no sidur que também trás instruções de como e quando se deve pronunciar uma prece. O livro de orações, em he- braico sidur cuja raiz vem da palavra ordem, contem orações, bênçãos da liturgia do- mestica e trechos do Pentateuco lidos nos ofícios da manhã, às segundas, às quintas e aos sábados, são 54 porções lidas ao longo do ano judaico.
Os assessórios ritualísticos
Para se constituir como sinagoga é preciso um rolo da Torá. Possuir um ou mais rolos da Torá é essencial, se não a congregação é apenas um grupo de pessoas reunidas, uma havurá. Objeto mais valioso da sinagoga, é geralmente doado por famílias de des- taque na comunidade. Para a família é uma honra doar um sefer Torá para a sinagoga, e esse evento é comemorado em grande pompa, acompanhado de danças, bebidas e comi- das oferecidas também pela família doadora. Um rolo da Torá leva 18 meses para ser confeccionado, desde o tratamento do couro do animal para se fazer o pergaminho até a copia feita por um escriba profissional devidamente certificado e habilitado para a deli- cada tarefa. O pergaminho é feito com couro de cabra, vaca, touro, ou veado. O texto do Pentateuco em hebraico foi fixado entre os séculos VII e X D.C. pelos escribas conheci- dos como massoretas, da palavra massorá que significa tradição em hebraico. Esse tra- balho consistia em fazer notações criticas quanto a forma do texto bíblico visando pre- servar a ortografia, a vocalização e a acentuação de cada palavra.
45 Kadish: Essa oração é umas das mais importantes da liturgia judaica e mais frequentemente pronuncia- da. Influenciou as preces cristãs dentre elas o ‘pai nosso’. A origem do kadish é a visão de Ezequiel (Ez 38:23) na qual Deus é reconhecido pelas nações. Ao evocar essa visão, a congregação responde ‘que seu nome seja bendito por todos e por toda a eternidade’. Trata-se, portanto, de uma declaração da grandeza e
No universo ortodoxo, para se realizar o serviço completo é necessário o quo- rum mínimo de dez homens, o minian em hebraico. O culto é realizado com a cabeça coberta pelo solidéu a kipá e os ombros cobertos pelo xale de oração o talit, usado pelos homens durantes as orações matinais. Em cada um de seus quatro cantos tem o tzitzit que são os quatro fios formando uma franja. O talit é geralmente feito de lã, seda ou algodão branco com listras pretas ou azuis. A origem do costume de usá-lo está na pres- crição bíblica: “e farão franjas nos cantos de suas roupas... para que te lembres dos
mandamentos do Senhor e os cumpra”. O uso dos tzitzit, as franjas, é considerado equi- parável em importância a todos os outros mandamentos juntos. A mitsvá do uso do talit é uma mitsvá de tempo: o talit deve ser usado de dia, quando houver luz suficiente para diferenciar o azul do branco.
No universo não ortodoxo o uso do talit e da kipá é em algumas sinagogas op- cional, em outras, obrigatório. O direito ao uso desses aparatos faz parte da lutas das mulheres pela participação nos cultos religiosos. A questão de se a mulher deve ou não usar o talit deve ser esclarecida baseada na discussão se essa é ou não uma mitsvá rela- cionada a horários. Esse tema fez parte das discussões do período talmúdico (200 AC- 500 DC) quando de fato algumas mulheres usaram o talit.
O movimento conservador, diferente da corrente reformista, tem como referência o Talmude — a lei judaica cumpri-la é uma regra inquestionável. Decidir se a mulher podia ou não usar o talit exigiu, por parte dos rabinos, pesquisarem no Talmude se uma mudança dessa importância iria contra alguma regra. “Os Sábios... afirmaram [que as
mulheres] eram obrigadas a usar o talit..., e ao menos dois rabinos relacionaram o talit no vestuário de suas esposas porque, como os Sábios, eles afirmavam que o talit não
era uma mitsvá especifica de tempo. Após 1500 anos, o uso do talit para as mulheres não apenas é permitido, mas é uma exigência já promulgada” 46 (Herz, 2000).
Para as mulheres, o uso do talit é a manifestação visível da igualdade. Atualmen- te, o uso do talit tem um significado diferente para homens e mulheres. Não se trata apenas do direito de usar o talit, como o faz o homem após seu bar mitsvá, mas sim de uma busca individual da mulher em dar significado ao uso do talit (Avigdor, 2004).
Nos dias de semana usam-se os filatérios — tefilin. Os tefilin são duas caixas em couro contendo trechos de pergaminho que os homens, a partir dos 13 anos, usam na cabeça e no braço esquerdo. Essas pequenas caixas são presas por tiras de couro, a caixa do braço é presa em direção ao coração, por sete voltas da tira terminando nas mãos, a da cabeça é presa como uma tiara deixando as pontas soltas. Os asquenazitas não incen- tivam o uso do tefilin por meninos antes do ritual da maior idade o bar-mitsvá, com- prando-o apenas alguns meses antes da cerimônia. Por outro lado os judeus sefaraditas estimulam o seu uso a partir do momento em que o garoto inicia seus estudos para o ritual, de forma que meninos com 10 ou 11 anos já podem usar o tefilin. De acordo com a Guemará, o tefilin do bar-mitsvá deve ser ofertado pelo próprio pai, é sua obrigação comprar o tefilin para seu filho sendo este item o único que não pode ser ofertado como presente de outros familiares.
Mas é na oração e em sua liturgia que o judeu até então distante dessa prática de- ve aprender e incorporar os detalhes dos rituais. E aqui existem divergências entre sefa- raditas e asquenazitas, não que os textos que constituem o ritual sejam diferentes, Malka
46 During talmudic times some women did in fact wear tzitzit. "The Sages…claim [that women are] obli- gated [to wear tzitzit]… It is interesting to note that at least two later talmudic rabbis tied tzitzit on the garments of their wives because, like the Sages, they held that tzitzit is a non-time-specific command-
observa que 90% dos textos são comuns aos dois grupos, seja nas orações diárias ou nas celebrações anuais (Malka, 1997). O sidur, o livro de orações, é uma construção da pró- pria comunidade. Sempre sob a orientação de rabinos a edição do sidur reflete a reali- dade social de cada comunidade. As comunidades sefaraditas tiveram desde muito cedo, o costume de incorporar aos textos de oração poesias de autores sefaraditas. Algumas dessas obras também foram incorporadas no ritual asquenazita, como é o caso de lehá
dodi composta em 1540 por Salomão Alqabets da cidade de Safed a qual serve de aber- tura ao serviço de sexta feira a noite. Malka em seu detalhado estudo sobre sefaraditas constatou que de modo geral os rabinos asquenazitas consideram essas obras poéticas como estranhas à oração, como se fossem ‘apócrifas’ (Malka, 1997). No entanto essa diferenciação desapareceu no ritual religioso no Brasil, em particular nas sinagogas de Rio de Janeiro e São Paulo, onde se pretende atrair um público independente de sua origem étnica. Assim não são poucos os rabinos que não distinguem poesia de oração e acabam incorporando canções tradicionais sefaraditas em ambientes tradicionalmente asquenazitas em eventos como o shabat, a páscoa e pentecostes entre outros.