Historiadores não chegaram a um consenso sobre a realidade social, religiosa e política do estabelecimento da sinagoga, instituição que cresceu e se desenvolveu em condições ainda obscuras. No entanto, é possível datar sua aparição definitiva, comple-
tamente institucionalizada em torno do século I AC. As inovações na vida religiosa des- sa invenção foram essenciais na transformação do judaísmo. No Templo de Jerusalém o fazer religioso era a oferenda sacrificial, um ritual privado realizado pelo sacerdote. Após a destruição do Templo e a institucionalização da sinagoga, o judaísmo passa a ser uma religião não sacrificial, a ética toma o lugar do sacrifício. Tudo é diferente nesse novo tipo de edifício religioso; a participação de todos os fiéis em um ato coletivo, con- duzido em torno de um foco central que é a lei, é revolucionária no judaísmo. Diferente do Templo, destruído em 70 DC, a sinagoga não se propõe a substituí-lo, mas acaba se tornando o centro da vida judaica.
É no Primeiro Exílio (587 AC), desprovidos do Templo, em uma terra estrangei- ra, sentindo a necessidade de consolo de sua profunda tristeza que, judeus se encontra- vam regularmente em uma sinagoga, provavelmente aos sábados, para ler as Escrituras (Davidovitch, 1997). Diferenciando-se também dos templos pagãos, onde outros povos adoravam seus deuses, a sinagoga se apresentou como o local para, principalmente, ler as Escrituras. Foi no Segundo Exílio (70 DC) que a sinagoga se tornou o espaço de ora- ção além de ser um local de reunião e estudo. Essa função original de local de estudo foi recuperada no século XX depois de ter sido substituída pela sala ou biblioteca na resi- dência dos sábios e rabinos nos séculos XVIII e XIX, em particular no universo asque- nazita fosse ortodoxo ou místico.
Em contraponto com o Templo de Jerusalém, a sinagoga é o centro espiritual ju- daico do exílio. O Templo agregava a todos em seu cotidiano e nas peregrinações regu- lares que atraíam judeus das mais diversas localidades: era o centro do judaísmo. Essas duas instituições não se excluem, houve um período em que as sinagogas e o Templo coexistiram na vida religiosa judaica, isso durante a construção do II Templo até sua
destruição na guerra contra os romanos em 70 DC. Arqueólogos e historiadores acredi- tam que essas sinagogas funcionavam como pequenos altares onde se realizavam os sacrifícios. No entanto a sinagoga não seguiu sendo um local de sacrifício. Após a des- truição do Segundo Templo e cessação automática do serviço sacrificial, a sinagoga tornou-se o centro da vida religiosa judaica, não apenas como local de oração e de estu- do, mas também como centro comunitário (Davidovitch, 1997).
Na Idade Média, a sinagoga funcionava também como local de reclamações, de anúncios legais e comerciais, e a qualquer momento os ofícios podiam ser interrompi- dos para que questões pessoais e locais fossem tratadas pela congregação. A sinagoga era tão essencial na vida dos judeus na Idade Média que, na época, a sanção social mais dura era o herem ou a excomunhão, o que significava ser banido, excluído, sem o direito de participar de qualquer serviço congregacional (Davidovitch, 1997). Isso implicava ser banido não apenas da sinagoga, mas da própria comunidade, e um pária não tinha a opção de pertencer a outra comunidade. Lembro que na Idade Média, antes da criação dos Estados nacionais, o individuo pertencia ao povo cristão, muçulmano ou judeu, es- sas eram as nações. Creio que o caso mais famoso de herem foi o do pensador Baruch Espinoza (1632-1677). Foi banido da comunidade judaica aos 23 anos por fazer uma leitura literária da Bíblia e negar sua origem divina. Na época os casos de excomunhão eram raros e a maioria deles revistos fazendo com que os excluídos fossem reintegrados à comunidade. Armstrong observa que na época era extremamente difícil viver fora do grupo religioso, não havendo nenhum registro sobre uma possível reintegração do filo- sofo (Armstrong, 2001).
Centro da vida espiritual e comunal judaica a sinagoga vai se transformando len- tamente ao longo da história judaica, sofrendo alterações seja em sua aparência seja em
sua importância na vida da comunidade. A sinagoga assume características particulares conforme o cenário geográfico ou as marcas do movimento religioso. Durante a Refor- ma Judaica no século XIX, a sinagoga assumiu características totalmente opostas às dos movimentos místicos dos séculos XVIII e XIX. Os místicos enfatizavam o fervor e a emoção nas orações. Suas sinagogas eram espaços abertos sem bancos ou mesas, púlpi- to ou altar; o local propício para manifestações oníricas, danças e cantos que os levavam a estágios de elevação. Devo assinalar que a bebida alcoólica, no caso a vodca, é essen- cial nos rituais das correntes místicas. No Brasil, essa tradição é mantida pelo Ha-
bad/Lubavitch nos animados Farbrengens, termo que vem do iídiche e significa encon- tros festivos típicos dos grupos hassídicos realizados na sinagoga ou em residência pri- vada, celebrados em torno de um rabino, e reservados apenas ao público masculino.
No século XIX, a preocupação dos reformistas foi dar um caráter mais ocidental ao ritual judaico aproximando-o do ritual cristão. O espaço da sinagoga foi, então, reor- ganizado, impondo-se uma separação entre os assistentes, sendo os acentos dispostos transversalmente e um espaço de culto, elevado por degraus. Essa reorganização põe a
bimá39 e a arca sagrada juntas. Primeiramente, esse modelo foi adotado pelas sinagogas asquenazitas, e recusado pelos sefaraditas e pelos ortodoxos (Hayoun, Jarassé; 1999).
Tanto as sinagogas ortodoxas como as reformistas a referência, ao menos simbo- licamente, é o santuário de Jerusalém. As sinagogas reformistas são construções primo- rosas, mobiliadas de modo formal, claramente inspirada nos templos protestantes da Alemanha onde surgiu o movimento. Nelas, o armário onde se guarda os rolos da Torá, assim com a parte mais elevada do salão e o púlpito de onde se lê as porções semanais da Torá, passam a formar um conjunto estrutural e ocupam a frente de face para os fieis.
Até então o púlpito encontrava-se no centro da sala, entre os fieis, de forma circular assim como eram as sinagogas dos místicos. Algumas sinagogas no Brasil mantêm o modelo circular, notadamente, as sinagogas sefaraditas. Ler as escrituras no centro do fieis tem significado simbólico representando a lei entre os fiéis. É importante ressaltar que os rolos da Torá são indispensáveis para se constituir como sinagoga, na falta des- ses a assembleia será considerada apenas um grupo, em hebraico havurá.
O armário sagrado encontra-se sempre no muro na direção de Jerusalém. Muitas sinagogas são construídas de modo que o eixo principal se oriente para Jerusalém, em outras essa regra não foi observada por questões estruturais. O candelabro, cópia da
menorá do Templo, fica aceso durante os ofícios, a exemplo da época do Templo, quando se mantinha um dos braços aceso. Atualmente pode haver também uma lampa- rina ou mesmo uma lâmpada elétrica funcionam como a ‘luz eterna’, em hebraico ner
tamid. Ao longo do século XIX, como já foi dito anteriormente, o modelo para as sina- gogas não foi apenas o Templo de Jerusalém, mas também os templos de culto protes- tante da Alemanha e as igrejas católicas da França.
Sefaraditas e asquenazitas mantêm um vocabulário diferenciado no que diz res- peito à sinagoga. Por exemplo, o armário onde são guardados os rolos da Torá, os sefa- raditas chamam de eihal, templo em hebraico, e os asquenazitas chamam de aron hako-
desh , armário sagrado. A elevação de onde o oficiante lidera o culto equivale ao altar da época do Tabernáculo e do Templo. Essa elevação é a tevá dos sefaraditas e a bimá dos asquenazitas.
Desde o século XIX, a sinagoga vem se inserindo em um contexto mais social, como um complexo ou centro comunitário, onde encontramos o recinto do banho ritual,
vo estilo de ambiente tirou a sinagoga do isolamento em que a prática religiosa a havia confinado. Com base nessas transformações, um público pouco ou nada religioso flui para ouvir palestras em um estabelecimento que evitava, ao menos até esse momento (Hayoun, Jarassé; 1999).