Recentemente, o polo atacadista de moda feminina do Bom Retiro tem mostrado alguns sinais de mudança. Se, nos anos 90, os confeccionistas coreanos do Bom Retiro fizeram su- cesso ao explorar um nicho de mercado não alcançado por produtos baratos importados da Ásia, elevando a qualidade da roupa produzida no bairro, agora precisam enfrentar a con- corrência com os grandes magazines internacionais do ramo do vestuário, que expandem a rede de distribuição através dos shopping centers e disputam a clientela com o comércio local, representados por pequenas butiques que, por sua vez, são as principais clientes do polo Aimorés-Lombroso. Nesse cenário, para manter o preço competitivo e, ainda, atender às exigências das leis trabalhistas do Brasil, cada vez mais, os confeccionistas estão procu- rando os produtores na Ásia, seguindo a tendência internacional do mercado de moda. Isso parece mostrar que alguma mudança está por vir, tanto nas confecções quanto nas oficinas de costura do bairro, mas ainda não é possível avaliar sua repercussão. O que se pode dizer hoje, a partir das conversas com os confeccionistas e das observações, é que o polo têxtil tem mostrado indícios de retração nos últimos anos (FIGURA 5.3).
Nesse momento de incertezas no polo têxtil, o setor imobiliário tem mostrado interesse em explorar o potencial construtivo do bairro ao propor novos empreendi- mentos de moradia, introduzindo no Bom Retiro, onde praticamente não houve lan- çamentos residenciais nos últimos 40 anos, uma nova tipologia de condomínios resi- denciais verticalizados (FIGURa 5.4). Esses novos condomínios que hoje ocupam a parte
baixa do Bom Retiro parecem ser mais uma extensão do crescimento que vem desde a Barra Funda do que relacionarem-se à dinâmica e às demandas do Alto Bom Retiro.
Para atestar o interesse do mercado imobiliário em explorar os bairros centrais e o apoio governamental ao setor, em dezembro de 2014, houve o lançamento do edital de concorrên- cia pública do Projeto Casa Paulista (SECRETARIA DA HABITAÇÃO, s/d) da Secretaria da Habitação do Governo do Estado de São Paulo, para leiloar entre os investidores privados o direito de empreender as unidades habitacionais populares nos lotes da região central da cidade, designados pelo Anexo 2 do próprio edital. O Anexo da edital especificava as diretrizes de ocu- pação dos quatro lotes leiloados, localizados nos bairros Barra Funda, Luz, Bom Retiro, Brás e Mooca (MAPA 5.1.1). No Bom Retiro, previa-se a implantação de 591 unidades habitacionais de
padrão popular e a abertura de uma nova via “lindeira à divisa da faixa de domínio da ferrovia em toda a extensão da área de Intervenção, com largura mínima de 14,00 (quatorze) metros (...) e comprimento de aproximadamente 700,0 m, criando nova frente para os lotes” (MAPA 5.1.2).
Além disso, assegurava ao empreendedor o direito de desapropriar qualquer imóvel dentro dos limites do lote conforme as necessidades de execução.
No final, apenas um dos lotes, localizado na Barra Funda, foi leiloado e não houve avanço nas propostas que incidiam sobre o Bom Retiro desde então. Não discutiremos aqui a impor- tância estratégica da implantação de uma nova avenida que trará acessibilidade para as áreas adja- centes da ferrovia, possibilitando a desativação do Elevado Presidente Costa e Silva – o famoso Minhocão, ou a demanda por moradias na região central, tampouco as relações de interesse que existem na Parceria Público-Privada. Mas, no Bom Retiro, diante da notícia de uma proposta que previa a desapropriação de um dos lados da Rua Professor Cesare Lombroso e o trecho inicial da Rua Aimorés para a obra viária, a colônia coreana mostrou uma grande perplexidade. O polo eco- nômico mais próspero da colônia, do qual depende a vida de muitos coreanos, direta ou indi- retamente, e que é o símbolo do sucesso econômico dos coreanos do Bom Retiro, parecia que não tinha valor algum quando comparado com o interesse geral da sociedade. Ainda mais, como um grupo de locatários na sua maioria, por mais que pagassem altos valores pelo direito de uso e investissem na melhoria, sua condição não lhes assegurava nenhum direito de recompensa ou de decisão sobre os imóveis. E, mesmo que houvesse indenização a quem fosse afetado direta- mente por uma eventual desapropriação, o impacto negativo que o restante do polo Aimorés- Lombroso sofreria com a redução seria irreparável. Nessa situação, a lembrança da experiência do passado com a desapropriação, a falta de canais de comunicação com o governo para expressar seus interesses e a incapacidade de organização coletiva perante tamanha ameaça, mostraram aos coreanos do Bom Retiro, mais uma vez, as desvantagens de fazerem parte de uma minoria poli- ticamente desarticulada.
Aparentemente, não há nenhuma ligação direta entre as transformações da economia do polo têxtil e o interesse do setor imobiliário em empreender projetos habitacionais no bairro. Contudo, ambos os casos parecem indicar uma espécie de dissolução gradativa da unidade independente que é o bairro do Bom Retiro, que tem resistido às mudanças, desenvolvendo uma dinâmica própria, tanto social quanto espacial, confinado em um pequeno espaço na cidade entre a ferrovia e os rios. Se for do interesse da sociedade erradicar esse complexo econômico de vida própria, em que os atores principais são os imigrantes, e incorporá-lo à economia geral da cidade, a descaracterização do Bom Retiro como bairro multicultural será inevitável.
FIGURA 5.4
Nova tipologia residencial. Fotos da autora, 2016.
FIGURA 5.3
Confecções da Rua dos Italianos fechadas durante o horário comercial. Foto da autora de 2015
FIGURA 5.5
Reunião dos confeccionistas do Bom Retiro para a explicação sobre as diretrizes do projeto Casa Paulista. Fotos de Sung Duk Park, 2014
POLO