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A delimitação para as linguagens virtuais foi desde o principio da pesquisa uma preocupação em termos de exequibilidade do cronograma e por tratar-se de um tema amplo, sendo assim, era necessário manter esse foco. Entretanto, sabe-se que quando falamos de linguagens dificilmente conseguir-se-á “desamarrá-las” umas das outras, o que se comprovou na fala dos entrevistados. Ao serem indagados sobre as linguagens mais utilizadas, as linguagens não verbais vieram em primeiro lugar. Provavelmente porque invadem o corpo, assumindo configurações densas que incidem na realidade concreta. Olhares despercebidos precisam identificar o que pode ser denominado como linguagens, pois é preciso lembrar que historicamente o não verbal se encontra na essência ontológica do ser. Expressa muitos sentidos e clama por ser ouvida de uma maneira muito mais contundente, às vezes de forma mais ampla do que a linguagem falada ou escrita.
A linguagem não verbal é uma linguagem que contêm em si uma força primeva, pois ela remete à nossa ancestralidade, quando não havia normas nem a
45 A partir dessa etapa serão denominados os grupo adolescentes como: grupo B da escola pública
federal; grupo C da escola privada., seguido do número correspondente a cada adolescente. B10, B11, C13, C14.
ordem estabelecida nas primeiras sociedades. O não verbal nos traz um retorno pregresso da trajetória humana primitiva, quando a expressão do que queria dizer em dado momento não se podia traduzir com palavras. Quando indagado sobre que outras linguagens além da escrita ele costuma usar, o adolescente pensa e diz “bastante interessante isso, eu acho que tem coisa que não dá para exprimir em palavras, daí fica muito mais... fácil, (ri, todos riem) e impactante quando tu mostra uma imagem” (C14).
Representa a essência primitiva do ser, anterior á sua sociabilidade, e que o acompanha ao longo de seu processo histórico. Acredita-se que toda a vez que o sujeito busca imprimir essa força naquilo que irá expressar, ele o faz através da linguagem não verbal.
Para os adolescentes a referência de linguagem não verbal mais citada foi o uso de símbolos no meio virtual, como um dos recursos mais utilizados para expressar suas emoções. O adolescente (B10) se questiona “Os emoticons são símbolos? Ah, eu uso vários emoticons. Nas conversas normais, sem querer ele acaba saindo, porque já gravou ali, então fica um atalho. Então às vezes eu tenho que mudar um atalho. Ah, eu gosto bastante deles!”(B10).
Um dos primeiros recursos visuais da internet, os emoticons são caracteres46 utilizados durante as conversas virtuais com sentido de tornar as
conversas através de mensagens instantâneas alegres e divertidas.
Eu uso bastante os símbolos, quando eu vou mandar um “oi”, nunca é o “oi“ direto, ou é um desenho ou um coração escrito um oi dentro. Eu acho que é mais para chamar a atenção, sabe, nos desenhos. Por exemplo, tu está com saudade do teu amigo, dá dois bonequinhos se abraçando... daí tem sempre que estar digitando tudo, coloca lá “ah, tô com saudades!” então só tu bota o bonequinho se abraçando, a pessoa já sabe o que é! (A1)
Cada símbolo traz leveza e movimento a quaisquer sentimentos que se deseja compartilhar, sem que seja necessário descrevê-los em palavras.
Quando eu falo diretamente com uma pessoa eu uso emoticon, mas bem pouquinho. Eu uso quando, por exemplo, vou fazer uma frase, ela tem dois significados, e tu quer direcionar para um só, porque o problema da internet é, tipo, tu está sendo irônica, mas a pessoa não tem como saber que tu está sendo irônica, então tu bota o símbolo, então eu acho que os símbolos ajudam. Mas quando eu estou falando diretamente com uma pessoa eu uso mais palavras (B11).
46 Caractere: 1. Qualquer digito numérico, letra do alfabeto, código de controle ou letra especial,
pertencente a um sistema especifico de codificação; 2. Qualquer símbolo ou sinal convencional empregado por comunicação escrita;
A adolescente (B11) revela em sua fala uma preocupação que possuem dois ângulos: por um lado os jovens preferem alternar linguagens não verbais e preocupam-se em terem suas emoções compreendidas por aquele com quem está conversando, e que isso seja feito de uma forma leve “ah, eu coloco os emoticons ... uma carinha feliz!” (C13). Porém em alguns casos, existem situações em que as linguagens são codificadas, a fim de que seu significado seja partilhado com número reduzido de pessoas. Vê-se aqui o sentido do ser diferente como algo valorizado e positivo, e que às vezes se opta pela exposição, seja em meio virtual ou concreto, justamente em permanecer incognoscível como um valor.
a gente fez uma lista do abecedário, cada letra era um desenhinho. A letra “a” a gente fazia uma flor. Toda a vez que tu ia escrever “a” lá era uma florzinha... Tipo códigos, tu tá conversando ali, tu e teu grupo, daí o que significa os outros não sabem do que tu está falando(...)Já bastante pessoas já perguntou o que significava, até uma vez eu tava conversando com símbolos e uma amiga olhou aquilo e disse: bah, mas o que que é isso, um monte de desenho diferente? O que vocês estão conversando por símbolos? Bah, a gente quer saber. Só que a gente sempre enrola “não, não é nada! A gente fez esse símbolo pra ter o nosso jeito de conversar diferente deles (A1).
É como se dissessem: “São coisas novas de que falo. Vocês não me entendem se não perguntarem. Quero ter o direito de me expressar de uma forma diferente e só entenderão aqueles que eu quiser”. Contra todas as coisas que o adolescente ainda não compreende, ou que não lhe interessam saber, ele responde criando seus próprios códigos os quais não compartilhará o conhecimento de algo que só ele sabe. Sua linguagem possui um significado semelhante a um tesouro com valor criado por ele mesmo. Esses sentidos em seus enunciados invariavelmente são bem humorados, o adolescente busca responder ao mundo com graça quando não entende ou finge não entender, suas observações não verbais, tal como (C15) que em determinado momento profere “máááh!!”, dá risada e nem responde. Essa fina ironia deveria ser encarada não como descaso ou confronto, mas a capacidade que tem de exercer a crítica através de uma simples interjeição, expressando um jeito adolescente de encarar a complexidade da vida. “Bah, uma imagem que eu vi, achei legal, uma música que me faz bem, vou passando...” (C15). Se a realidade se apresenta a ele irredutível e dura, ele responde da sua forma “é mais coisa de comedia que eu mando. Imagens, coisas engraçadas” (C15).
as vezes a gente tá na internet, e tu usa uma imagem, ou um símbolo, ele representa várias coisas que acontecem lá, e tem a ver com comédia. Tem um símbolo que tu coloca em algum momento é engraçado, sabe? Normalmente as pessoas não entendem o humor da internet ... (todos riem) A gente sempre tá colocando foto lá, imagem de um site, tem várias imagens engraçadas do que as pessoas vão fazendo, a gente coloca e fica rindo e tal. É bem melhor do que só a palavra (C14).
A comédia, o humor em si é uma das mais antigas formas de realização da crítica social. Na Idade Média o bobo da corte era o único personagem o qual era permitida liberdade para falar e expor as mazelas do poder instituído, sem que lhe cortassem a cabeça, porque o fazia com graça. O humor com um sentido crítico representa uma das mais elevadas formas de consciência social, porque denuncia através do inusitado os aspectos contraditórios da natureza humana. Percebeu-se que os jovens utilizam-se das linguagens com conteúdo de comédia como meio de formar uma consciência crítica e de resistência frente a realidade social. Visto em seu aspecto crítico pode-se pensar que utilizar linguagens com características engraçadas pode ser uma forma que o adolescente escolhe para não deixar ser levado pela dureza do mundo que o rodeia.