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How do Zambian smallholder farmers allocate their budget? Evidence of dynamic decision-making

A.3 Model Equations

A.3.2 Soil Orgnaic Matter Sector

Como vimos anteriormente, Sandra foi a pessoa que resolveu buscar ajuda psicológica para a neta e também foi ela quem resolveu lutar pela guarda e pelo bem-estar de Nayara. Sandra não sabia, contudo, que enquanto ela aparentemente fazia um pedido de cuidado com

relação à sua neta, na verdade ela também pedia ajuda para si e para a filha. Ou seja, Sandra, assim como todos os demais avós que cruzaram seus caminhos com esta pesquisa, chegou aos atendimentos com uma queixa inicial direcionada para os sintomas e dificuldades da neta. Somente com o tempo e com o andamento do trabalho é que foi possível ir dando lugar para que emergissem as questões que envolviam avó, mãe e neta, para muito além dos sintomas localizados na criança.

A avó foi a principal relatora da história que trouxera Nayara ao mundo, a primeira tradutora das falas de Nara e Nayara, a mantenedora dessas duas gerações, isto é, era ela quem trabalhava para sustentar financeiramente sua filha e a neta. Sandra era o ponto de ligação entre Nara e Nayara. A avó convocava Nara para estar nas sessões, bem como a convocava para assumir seu lugar de mãe junto à filha.

Sandra comparecia às sessões iniciais sempre alternando uma presença com uma ausência. Era como se a avó marcasse sua presença ressaltando o quanto aquele espaço era fundamental para todas elas, além de se apresentar como a responsável por Nayara. Por outro lado, Sandra também marcava sua ausência esperando que Nara ocupasse este lugar, deixando espaço para que isso pudesse acontecer.

Assim, contratransferencialmente, o que ocorria era que eu escutava os relatos da avó, porém muito ansiosa por finalmente poder ouvir a segunda geração. Ora, a geração dos pais sempre aparecia somente pela via dos relatos dos avós e dos netos, mas nunca havia aparecido de fato, podendo contar suas próprias histórias. Isso tudo era algo inédito. Com isso, eu tive dificuldades para lidar com a presença de Sandra nas sessões. Era como se a sua presença trouxesse à tona partes vitimadas e acusadoras, pois a avó acusava a mãe por sua ausência e por suas falhas. Desse modo, o silêncio de Nara se instaurava e meu desejo de ouvi-la não se satisfazia. Para mim, enquanto a avó era a acusadora, Nara era a vítima. Eu ainda não

conseguia enxergar que, de certa forma, a avó foi fundamental, com suas presenças e ausências intercaladas, para a constituição de um espaço em que a mãe pudesse surgir. Eu me satisfazia com a ausência da avó, acreditando que somente sem a sua presença nas sessões é que seria possível ouvir Nara.

As sessões tinham funcionamentos diferentes conforme a presença ou a ausência de Sandra. Com relação à Nayara, quando a avó comparecia, ocorria uma dinâmica interessante: enquanto a avó se ocupava de por tudo para fora, despejando sua fala preocupada, interpretativa e interminável, a menina se ocupava de por tudo para dentro, entupindo as bonecas de objetos diversos até que não restasse mais nada que coubesse dentro delas. As sessões eram marcadas pelo excesso das palavras de Sandra, do "entupimento" de Nayara e do silêncio de Nara. Estas eram as posições de cada uma nas sessões iniciais: a avó falante, a mãe calada e a criança entupindo as bonecas. Nayara também interpretava em um sentido lúdico tudo o que precisava ser engolido à força.

A menina que havia sido proibida de ver a mãe e a avó, agora se via proibida de ver o pai e os irmãos. Nayara não tinha voz nenhuma naquela família e ocupava o lugar de um objeto de guerra entre o pai e a mãe; entre o pai e a avó. A menina era a única coisa que mantinha a ligação entre os dois lados dessa disputa: o lado do pai e o lado da mãe. A história de Nayara emergia, primeiramente, segundo as narrativas da avó e com poucas palavras advindas de Nara e Nayara. Mãe e filha ainda não haviam conseguido ter suas próprias vozes e dizer sobre si mesmas.

Com o passar do tempo, cautelosamente, fui conseguindo entender melhor tanto a fala da mãe, quanto a fala da criança. Aos poucos, foi possível perceber os movimentos discretos e tímidos de Nara, bem como estar mais próxima dela e de Nayara. Quando a avó estava presente nas sessões, Nara tinha mais dificuldades para se comunicar diretamente comigo e

quase não me dirigia a palavra e o olhar. Nas sessões em que a avó se ausentava, Nara se sentava no chão e brincava bem próxima à Nayara e a mim, ou ficava sentada na mesinha infantil, também bem perto, desenhando flores e casinhas. Já nas sessões em que a avó estava presente, a mãe se sentava em uma cadeira distante e só falava quando Sandra solicitava.

Ao longo de quase todo trabalho junto a esta família, Nayara dava um grande trabalho para ir embora. Ela chorava, pedia para "ficar mais um pouquinho" (sic), pedia para "voltar amanhã" (sic), se agarrava à porta dizendo que faltou brincar com algum dos brinquedos, por isso precisava ficar ali por mais tempo. Nara, muitas vezes, se via sem saber o que fazer, principalmente quando Sandra não estava presente. Levou bastante tempo para que a mãe se sentisse mais confiante com relação a impor sua autoridade e a estabelecer alguns limites à sua filha.

O cenário inicial parecia ser composto por uma história confusa, pois de certo modo, os lugares eram todos muito indiscriminados e confusos também. A avó queria a guarda da neta para si e era ela quem contava a história tanto da filha, quanto da neta. A mãe, Nara, era uma jovem que brincava de casinha, desenhava flores e se arriscava a tentar falar um pouco sobre si, quando Sandra estava longe, mas quando Sandra estava por perto, era ela quem parecia estar ausente e distante. Nayara era proibida de falar sobre sua vida antes de estar na casa da mãe e de sentir a falta do pai. A menina parecia se sentir invadida por todo esse excesso de palavras, leis, proibições, processos e brigas que circulavam em sua vida.

Nayara não conseguia suportar uma brincadeira extensa, que tivesse início, meio e fim. A menina estava sempre fugindo de contar uma história mais longa e enquanto brincava de uma coisa, logo já se ocupava do que viria a brincar alguns segundos à frente. As primeiras sessões de Nayara eram marcadas pelo "entupimento" dos brinquedos e era comum também haver um despejamento de tintas coloridas e um amontoamento de papéis. Era uma cor sobre

a outra, um papel sobre o outro, sem nenhuma separação, sem nenhuma discriminação. Nara se esforçava para ficar ausente, alegando que não queria atrapalhar a sessão da filha. A avó tentava decifrar os passos de Nayara e isso parecia incomodar a todos durante o atendimento: era como se aquilo que não podia ser falado nem sequer recordado, se fizesse presente com a própria presença da avó.

A história de Nayara aparecia em meio a inúmeros papéis e disputas judiciais, com advogados, pareceres, recursos, enfim, no cerne de uma grande batalha. Já Sandra, que muito falava sobre a neta, pouco falava sobre si mesma, evitando assuntos relacionados ao seu passado, sua história e sua vida. Sandra contou apenas que se separou do pai de seus filhos muito nova e que o rapaz nunca a ajudou com o sustento e com a criação dos meninos (Nara e o irmão mais novo). Anos mais tarde a avó se casou novamente, contudo, ela se recordava que viveu anos muitos difíceis e solitários, em que ela trabalhava muito para conseguir alimentar os filhos. Nara e o irmão praticamente foram criados pela mãe de Sandra, já que ela quase não tinha tempo de estar com os filhos em meio aos seus dois turnos de trabalho diários. Quanto à Nara, a jovem se mantinha muito calada, de modo que sua história ainda não era contada por ela mesma.

Havia muito ainda para se ouvir sobre estas três mulheres. No entanto, era preciso que cada uma delas pudessem falar de si mesmas, com suas próprias vozes e pudessem trazer à tona seus passados silenciados.