Na primeira sessão com a família, perguntei à avó o que ela sentia pelo neto, ela rapidamente me respondeu: "eu sinto pena, sinto uma dó tão grande dele..." (sic), com os olhos marejados de lágrimas ela continuou: "eu sinto culpa também, porque às vezes se eu não tivesse aceitado ficar com ele no início, talvez a mãe dele tinha virado outra coisa, não acabado do jeito que acabou" (sic). Quando perguntei ao menino o que ele achava disso, ele respondeu: "acho chata essa história, queria ter outra!" (sic).
Nos primeiros meses de atendimento, José Augusto se esforçava para desviar o olhar do meu, para não falar comigo e para não brincar de nada, por isso a aproximação com ele foi difícil e lenta. Além disso, a avó dificultava as coisas, dado que começava a despejar broncas no menino, tentando forçá-lo a falar comigo, principalmente sobre as questões escolares.
Certa vez, perguntei a José Augusto se a avó ficava sempre lhe dando broncas, ele logo começou a rir e disse que ela adorava fazer isso. A avó se irritava e dizia que o neto era um "menino bobo, que só gosta de reclamar" (sic). O menino dava risadas do que a avó falava sobre ele. Eram risadas carregadas de raiva.
A avó sempre se aborrecia muito com o comportamento do neto, de modo que ao longo do atendimento, o tom de voz dela aumentava para falar com o neto e os sermões não cessavam. A avó chamava a atenção do neto sem parar. Não havia trégua. Não havia sossego para brincar. O menino não podia brincar de nada, não podia tocar nada, não podia tirar nada do lugar. O menino não podia nem mesmo se calar, pois a avó estava sempre com uma ordem pronta exigindo que o menino se comportasse como o esperado. Era como se a avó não pudesse tirar os olhos de cima do neto, afinal ela não podia deixar de olhá-lo e descuidar-se, como fez com a mãe dele. Havia ai um gozo escópico em questão. O olhar excessivo da avó era a garantia que ela tentava construir de que com esse menino ela não iria fracassar.
Eu falava sobre esse excesso de regras e normas que estava sempre em jogo, e também sobre o excesso de cansaço, sobre o excesso de medo. Falava sobre esse excesso que transbordava e marcava as sessões, limitando-as ao mínimo: ao mínimo de brinquedos, mínimo de lembranças, mínimo de palavras, mínimo de olhares... Tudo era muito vigiado, muito controlado.
Desde muito cedo, a violência dos vínculos aparecia no ambiente. Logo no segundo atendimento, o menino pegou um pequeno fogareiro de brinquedo nas mãos e o destruiu, na justa medida em que escutava as repreensões e ordens da avó. Em seguida, ele pegou uma bola de plástico no chão e arremessou na avó. Ele fez isso repetidas vezes. A avó ficou furiosa, mas o neto não cessava o despejamento de sua raiva. Comecei a pontuar sobre o quão difícil era suportar todas as brigas, ordens, ameaças, proibições, medos e fantasmas que
estavam presentes na relação da avó com o menino. Enquanto isso, o menino pegou as folhas em cima da mesa, amassou-as e rasgou-as uma por uma. Na sequência, José Augusto pegou o elefante de brinquedo, pegou um bastão e começou a enfiar na boca do elefante; depois pegou os cabos das colheres grandes e enfiou violentamente na boca do elefante. Nesse dia ele conseguiu soltar sua voz e sua raiva: "eu vou enfiar tudo!! Toma! Toma! Abre essa boca que eu vou enfiar mais, abre tudo que eu vou rasgar. Toma! Toma! Você quer mais? Quer? Toma! Toma!" (sic). Ele pegava mais brinquedos que possuíam cano longo, como o martelo, algumas ferramentas, o microfone, lápis de cor, dentre outros, e enfiava na boca do elefante dizendo: "eu vou enfiar mais, eu vou rasgar, e você cala essa boca, fica quieto! Toma isso, toma! Vira de trás que eu vou enfiar na sua bunda agora!" (sic). Ele deitou o elefante de lado, pegou uma faca e o cortou todo, pronunciando: "agora eu acabo com você, mas vê se não morre agora, espera que eu vou te cortar mais!" (sic). A avó logo começou a ordenar que o menino interrompesse a brincadeira e ficasse quieto. José Augusto permaneceu com as agressões ao elefante até matá-lo. Quando o elefante morreu ele o deixou de lado por alguns segundos, todavia logo voltou-se até ele dizendo: "trata de voltar a viver, você não vai morrer agora, não vai! Levanta logo senão eu te mato, seu bosta!" (sic).
O elefante foi cortado, violentado, agredido, estilhaçado de todas as formas possíveis, mas ainda assim esse elefante não podia morrer, a ele não foi dada tal escolha e privilégio. Era uma ordem rigorosa continuar vivo, não havia como fugir disso. Já era possível perceber o quanto a relação de aprisionamento de um ao outro se evidenciava, porquanto nem mesmo morrer era possível. Era preciso permanecer ali como o depósito de agressões e hostilidade de um para o outro, uma vez que esta era a forma de estar junto e de servir como companhia.
A violência esteve presente ao longo de todo o tratamento com esta família. Aos poucos apareciam os relatos da violência vivenciada por José Augusto na escola, junto aos
colegas e professores, além da violência vivida nas ruas, quando a família se via rejeitada socialmente pela precariedade de suas condições financeiras. Também apareciam de modo violento os sentimentos experimentados pela família com relação aos retornos esporádicos da mãe, em condições físicas e sociais difíceis de serem acolhidas, bem como a violência das dores e dos medos vividos com relação ao adoecimento da avó. Enfim, era a violência com que esse menino chegou na vida da avó; a violência com que esta avó viveu sua história como mãe e também como avó; a violência que diz respeito às infinitas trocas de sexo por drogas e que trouxeram José Augusto ao mundo; a violência impositiva do excesso de regras; a violência da obrigação de fazer, com o neto, algo diferente do já fora feito com todos aqueles criados pela avó, embora em condições muito semelhantes.
A violência era um tema central nos encontros com esta família e fazia parte não só da relação entre o neto e a avó, como também das relações entre o neto e os outros ao seu redor e entre a avó e todos que com ela conviviam. A forma de se manterem ligados um ao outro, para Abadia e José Augusto, era via violência.