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How do Zambian smallholder farmers allocate their budget? Evidence of dynamic decision-making

A.3 Model Equations

A.3.1 Yield Sector

Inicialmente a história de Nayara era contada principalmente pela avó e, em algumas ocasiões, pela mãe, mas sempre de forma muito confusa. Foi necessário certo tempo de

trabalho para que fosse possível compreender melhor alguns fatos e questões que envolviam o nascimento e a criação de Nayara, bem como para que a história de Nara e Sandra também pudessem ser contadas e recordadas. A primeira versão da história desta família e o motivo que a levou a buscar pelos atendimentos psicológicos foi apresentada enquanto a presença da avó nas sessões era mais frequente.

Nas sessões iniciais, a avó insistia para que Nara falasse sobre a história de Nayara e a ajudava a ir relembrando os fatos. Nara contou que quando engravidou de Nayara foi morar em outra cidade onde residia o pai da criança. Nara e o pai de sua filha não tinham um relacionamento sério e se conheciam há pouco tempo quando Nara descobriu a gravidez. O pai de Nayara logo a pediu em namoro e disse que eles morariam juntos, pois ele gostaria de acompanhar o crescimento da filha.

Nara contou que durante a gravidez teve vários desentendimentos com o rapaz e que chegou a se separar dele mais de uma vez antes mesmo do nascimento de Nayara. Segundo Nara, quando as separações aconteciam, ela retornava para a casa de sua mãe. Entretanto, logo em seguida, o pai de Nayara a procurava e com isso os dois reatavam o relacionamento, de modo que Nara voltava para casa dele junto com a filha.

A casa de Sandra era o local onde Nara encontrava abrigo nos momentos em que as coisas não estavam indo bem com seu companheiro. A jovem não se recordava de quantas vezes procurara a casa da mãe nas situações de briga com o pai de sua filha. Ela dizia que foi tão grande o número de repetições deste fato que já havia "perdido as contas" (sic). Sandra acolhia Nara todas as vezes, embora não gostasse do rapaz, nem da situação de ter a neta e a filha morando em outra cidade.

Nara dizia que as discussões entre ela e o pai de sua filha eram cada vez mais frequentes e calorosas. Nara se recordava de que em uma determinada discussão cujo motivo inicial era quem deveria trocar as fraldas de Nayara, que estava suja e chorando muito, acabou provocando um sério rompimento entre eles. Nara pegou suas coisas e mais uma vez voltou imediatamente com a filha para a casa de sua mãe. Quando o pai de Nayara a procurou, ela novamente reatou o relacionamento com ele e decidiu retornar para a cidade em que residia com o rapaz. Assim que Nara chegou lá, o rapaz havia sugerido que ela fosse a uma entrevista de emprego. Nara alegou que no tempo em que ela esteve fora, ele trocou as fechaduras da porta e a colocou para fora de lá. Nara precisou voltar para a casa de Sandra sem a filha. Com isso, o pai de Nayara registrou uma queixa contra Nara, por abandono da menor.

De acordo com Sandra, o pai de Nayara trabalhava promovendo "encontros" (sic) entre homens e mulheres, além de ter um bar de forró que funcionava em sua própria casa no período noturno. Nayara fora criada em meio a este ambiente, em que a vida noturna era muito agitada e durante o dia não havia ninguém que tivesse disposição para trocar suas fraldas. A sujeira e os dejetos que vinham de Nayara eram insuportáveis para seus pais. Um esperava que o outro a limpasse; os dois estavam cansados demais para terem que lidar com tudo o que uma bebê necessitava e exigia. Nara reclamava que a filha chorava demais. Ela dizia: "ninguém aguentaria tanto choro, sem parar, dia e noite! Qualquer um teria desesperado e se cansado daquilo tudo..." (sic).

Nara se queixava que vinha sendo traída pelo companheiro desde o nascimento da filha e que já não aguentava mais conviver com isso. Segundo ela, o ambiente de prostituição em sua própria casa acabava facilitando a situação para que o pai de Nayara tivesse várias amantes. Nara acreditava que, por não ter condições financeiras para sustentar a filha, nem

tampouco conseguir proibir a única forma de ganhar dinheiro do rapaz, ela deveria aceitar calada as traições dele.

Era com grande mágoa e muita raiva que Nara contava sobre as amantes e as traições que ocorriam debaixo do mesmo teto em que ela e o companheiro moravam com a filha. Ela dizia que "mulher nenhuma ia ter aceitado uma situação daquela, até que eu aguentei muito tempo sendo feita de trouxa e otária" (sic). A mãe, que quase não falava, por entre suas poucas palavras escapadas, dizia sobre as dificuldades que ela enfrentou tanto em sua relação com o pai de sua filha, quanto com relação às mudanças e exigências que a maternidade inaugurou em sua vida.

Nara contou que ficou mais de um ano sem ver a filha, pois o pai havia proibido qualquer tipo de contato entre a família de Nara e a pequena Nayara. Os poucos contatos que ocorreram ao longo deste tempo foram mediados pela polícia ou pelo Conselho Tutelar. Inicialmente os contatos ocorreram através das grades dos portões e foram bem rápidos. Quando a menina completou cerca de dois anos e meio, o Conselho Tutelar da cidade do pai de Nayara liberou que fossem realizadas visitas mensalmente em um espaço do próprio conselho, já que a família de Nara não tinha lugar para ficar naquela cidade.

Nesse período, Sandra recordou de ter começado a notar sinais de maus tratos na menina. De acordo com a avó, a neta apresentava queimaduras de cigarro, marcas de cinto nas pernas, além da região da vagina avermelhada e vários machucados na boca. A avó tentou fazer denúncias, contudo afirmava que todas as suas denúncias não foram levadas a sério pelos órgãos responsáveis. Sandra dizia que o pai da menina tinha influência na cidade, por isso elas não conseguiam acusá-lo de nada.

As histórias pareciam carregar consigo algo de estranho. Era como se as coisas não fizessem sentido do modo como eram contadas nas sessões. Todas as vezes em que eu tentei perguntar ou questionar algum fato, era a avó quem tomava frente das respostas, mesmo quando as perguntas eram destinadas à Nara. Havia algo mal contado e obscuro por entre as falas que emergiam. Contudo, era preciso tentar ouvir e entender o que estava sendo dito para além das histórias mal contadas. De fato, o que marcava as primeiras sessões era o olhar da avó sempre preocupado, aflito e com anseio de cuidar de sua neta, bem como sua demanda por ser ajudada neste processo. Sandra fazia um pedido de ajuda para tudo o que dizia respeito não só à Nayara, mas também para o que dizia respeito à Nara e seu lugar de mãe.

A avó contava sobre o quanto lutou para ter a neta por perto. Ela falava sobre seu desespero e seu medo de perder Nayara para sempre, além de recordar também que se viu "enlouquecida e adoecida" (sic) só de pensar em tudo que a menina poderia ter vivido no período em que elas perderam o contato. Pouco tempo antes do início dos atendimentos, Sandra havia sido diagnosticada com depressão e estava fazendo tratamento com um psiquiatra. A avó temia por tudo o que poderia ter acontecido à neta em sua ausência.

Após esse longo período turbulento, quando Nayara estava com cerca de três anos de idade, houve um acordo judicial no qual se decidiu que todas as primeiras semanas do mês a menina ficaria sob responsabilidade da mãe e da avó. Durante este tempo, Sandra começou a espionar de longe as brincadeiras da neta e suspeitou novamente que a menina estivesse sendo vítima de violência sexual. A avó dizia que as brincadeiras da neta com suas bonecas imitavam cenas de sexo violento. Além disso, a avó se queixava de que a neta chegava da casa do pai sempre machucada, com ferimentos na vagina e na boca; tinha medo de dormir sozinha, dizendo que havia um homem malvado escondido debaixo da cama, com um pau

para machucá-la; e ainda costumava urinar na roupa sempre que se assustava, falar palavrões de cunho erótico e tentar furar as bonecas até rasgá-las.

O olhar da avó sobre a neta não descansava mesmo quando Sandra não estava por perto da menina. Estes eram os primeiros indícios do quanto a presença da avó, mesmo em sua ausência ou distância, era algo que iria ressoar sobre os atendimentos e sobre as histórias de Nara e Nayara. A avó precisava olhar a neta mesmo de longe, já que os pais da menina tiveram dificuldades de lidar com as responsabilidades que envolviam o cuidado com a pequena no princípio de sua vida. Além disso, Nara parecia ainda não dar conta de olhar e cuidar de sua filha sozinha, sem que houvesse alguém para ampará-la e apoiá-la nesta tarefa.

Ao longo das primeiras sessões, Nayara experimentava brincar com todos os brinquedos que estavam no armário, variando muito rapidamente de brinquedos e brincadeiras. Entretanto, algumas vezes Nayara fazia brincadeiras violentas com as bonecas, jogando-as longe e batendo em suas faces. Ela também brincava com um jacaré que engolia todas as bonequinhas menores, de modo que a criança se esforçava para enfiar dentro do jacaré todos os brinquedos pequenos. A avó costumava interpretar as brincadeiras da neta e tudo o que a menina fazia, levava a avó a gesticular ou a sussurrar explicações sobre o "significado traumático" (sic) daquela brincadeira. A avó, que já traduzia as falas da filha e da neta, agora traduzia as brincadeiras e movimentos da menina.

De acordo com a avó, a descoberta sobre a violência sexual foi confirmada pouco antes do início dos atendimentos. Sandra dizia que no quarto aniversário da neta, ela e Nara foram à casa do pai da menina, pois haveria uma festinha e o juiz havia permitido que elas participassem. Após a festa, a madrasta de Nayara contou que encontrou o irmão mais velho da menina, filho apenas do pai de Nayara, deitado em cima dela, penetrando o pênis na menina e tampando sua boca para que ela não gritasse. A madrasta, primeiramente, se

comprometeu a prestar depoimento junto à polícia, no entanto, algum tempo depois desistiu e negou tudo o que havia dito.

Desde então, a menina ficou sob os cuidados da mãe e da avó que a proibiram de manter qualquer contato com o pai e os irmãos. A avó queria a guarda da neta para si. Havia uma construção imaginária de Sandra de que a queixa contra o abandono da menor, registrada pelo pai de Nayara, pudesse prejudicar juridicamente a obtenção da guarda por parte de Nara. Além disso, a avó queria que o pai da menina nunca mais pudesse vê-la e dizia que faria de tudo para impedir qualquer tipo de contato.

A avó lutava pelo bem-estar e pela segurança de sua neta com unhas e dentes, de acordo com aquilo que ela imaginava ser o melhor para Nayara. Conforme Sandra dizia "o melhor para Nayara sempre vai ser ficar perto da mãe dela, todo filho precisa de ficar com a mãe e eu vou lutar por isso até o fim" (sic). Com isso, Sandra também lutava para que Nara fosse capaz de cuidar de Nayara e para isso se lançava como ponto de apoio para Nara para que esses movimentos pudessem acontecer. Sandra era uma figura importante para a relação entre Nayara e Nara.