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A análise das entrevistas mostrou que a maioria dos entrevistados vê o tratamento como positivo quando melhora os sintomas da aids e impede que se instalem as doenças oportunistas.
“Já melhorou. Eu já engordei, engordei até mais. Recuperei tudo que eu tinha perdido. O cabelo já cresceu muito. Isso aqui é alongamento. Meu cabelo mesmo é esse aqui da frente, já cresceu. A sobrancelha já está crescendo de novo. Todo mundo me falou: 'Sua pele vai melhorar, seu cabelo vai ser até melhor e tudo', e é mesmo. Agora que eu estou comprovando. As dores no corpo sumiram. Praticamente, não tenho mais nada.” (O378, I327)
“Cada vez venho melhorando mais. Voltei ao meu peso normal. Ainda não cheguei ao normal, não. Mas de 38 quilos já estou com 86 quilos. Enfrentando, como já te expliquei, os efeitos colaterais da medicação.” (O365, I320)
“Eu quase morri. Tive decaídas, já fiquei ruim, fiquei magrinho mesmo. Fiquei muito magro, sabe? Esmagreci... o cabelo caiu... até hoje...aqui ó, tá vendo aqui? Uso só chapéu, porque meu cabelo tá horrível. Eu tinha um cabelão, né? Um cabelo bonito!” (O315, I470)
“Agora, eu procurei o médico porque eu estava perdendo peso e estava sentindo muita fraqueza. Aí, eu fui, vim aqui e falei que queria voltar a fazer o tratamento. Aí, eles marcaram pra mim, e eu estou fazendo isso aí. Aí, passou esse remédio. Aí depois que eu tomei o remédio, eu melhorei. Eu tinha muito cansaço, tremedeira, não agüentava andar. Agora, acabou.” (O377, I328)
“Teve uma coisa pra mim que foi primordial: foi o tempo que eu tive. Eu fiquei ansiosa em relação a começar logo, porque eu sabia que quanto antes eu começasse, melhor pra mim. De fato, eu tô muito melhor, muito melhor. Não tive mais sinusite. As rinites eu tenho, mas não tive mais aquela gripe forte. Eu até comecei com uma gripezinha, mas assim, nada que um redoxon não resolvesse. E problemas de garganta também, que eu tinha constantemente, não tive mais. E sinusite também eu não tive mais.” (O101, I228)
Além disso, ter apresentado os sinais e os sintomas da aids e ter passado por períodos de internação em decorrência da síndrome ou das doenças oportunistas parece favorecer a adesão aos ARVs , uma vez que os pacientes procuram fazer o possível para evitar novas recaídas.
“Eu tive toxoplasmose. Aí, estava começando a dar tonteira. [O tratamento] está sendo bom demais pra mim. Eu engordei, cheguei a engordar bem. Eu fiquei a ficar com 51 quilos, hoje estou com 61, 62 quilos.” (O118, I268)
“No começo do meu tratamento, pra mim... eu achei que estava tudo acabado, né? A gente faz planos de vida, de querer um casamento... Eu fiquei desanimado, fiquei muito pra baixo, até começar o
tratamento mesmo, começar a vir no CTR, tomar os remédios... Aí, vendo o que poderia acontecer mais na frente, eu comecei a ficar mais animado. Os remédios começaram a fazer efeito. Eu mantive o peso. Quando saiu o resultado, eu tinha ficado duas semanas internado sem andar... E, a partir do momento que eu iniciei, que eu comecei a tomar os remédios, eu comecei a voltar ao meu peso normal. O médico que tá me tratando conversou muito comigo e explicou que a vida tem que continuar, né?" (O302, I468)
“Não fico sem os anti-retrovirais, não. Só fiquei nos dias da quimioterapia, internado. Por exemplo, eu tive diarréia logo no início. Tive diarréia, perda de peso, tive cândida, não me alimentava. Aí, foram os efeitos colaterais da quimioterapia e do tratamento com anti-retrovirais foram ajuntados, entendeu? Então o Dr... falou assim: Olha, a diarréia e a cândida, essa feridinha na boca, é típico do tratamento, da medicação que você está tomando, dos antiretrovirais. Agora, você está perdendo peso, o seu sistema imunológico está caindo muito. Isso tem muito a ver com a quimioterapia, que realmente abaixa o sistema imunológico, e muito.’ Fiquei sete dias sem tomar os antiretrovirais. Eu não conseguia colocar nada na boca, nada, nada. Então, durante o tratamento todinho, foi a única vez que eu parei de tomar os antiretrovirais, sete dias seguidos. É duro, mas sei que preciso deles.” (O373, I325)
Apesar de silenciosa para a maioria dos pacientes, a aids pode causar em algumas pessoas a ocorrência de manifestações características da síndrome, mesmo para aqueles pacientes em terapia anti-retroviral, o que pode estar relacionado com o tempo de infecção e início da utilização dos ARVs . Tais manifestações podem confundir os pacientes, que associam o surgimento do sinal ou sintoma com o uso da medicação, o que interfere negativamente na aderência. Contudo, a maioria dos relatos aponta para a adesão à medicação como forma de ocultar ou impedir a ocorrência ou exacerbação de indícios que atestem sua condição de portador de HIV. Discutindo isso, Nemes et al. (2000, p. 66) declaram que
[...] a questão dos sintomas ou dos sinais de gravidade da doença é provavelmente muito mais complexa do que os trabalhos têm revelado. A melhora dos sintomas pode levar ao sentimento de não necessidade de medicação. Já a ocorrência de sintomas durante o tratamento pode ser atribuída aos efeitos da medicação.
A análise dos depoimentos dos entrevistados apresenta-se na mesma direção do estudo de Metha et al. (1997, p. 1668), que encontraram uma relação entre
melhora dos sintomas e interrupção da medicação entre um grupo de pacientes não aderentes, indicando a necessidade de convecer esses pacientes a manterem o uso constante da medicação, mesmo nos períodos assintomáticos. Acúrcio e Guimarães (1999, p. 79) explicam por que a maior aderência ao tratamento tem sido observada entre os indivíduos sintomáticos. Citando Singh et al. (1996), relatam que indivíduos assintomáticos podem perceber-se menos vulneráveis a futuras complicações e, portanto, ter menos motivação para cumprir o tratamento recomendado, podendo negar a possível evolução da doença.
Nesse sentido, Silveira e Ribeiro (2005) afirmam que é preciso instrumentalizar ao paciente portador de doença crônica para que ele próprio reconheça, em seu processo de saúde/doença, formas de identificar, evitar e prevenir complicações, agravos e, sobretudo, a morte precoce. Da mesma forma que a ausência de sintomas atrapalha o seguimento do tratamento da tuberculose (GONÇALVES et al., 1999, apud LEITE; VASCONCELOS, 2003, p. 778), a aparente inexistência de sinais e sintomas em algumas fases do processo de adoecimento é também um dos fatores citados para a não adesão à terapia da aids, conforme afirmam Teixeira et al. (2000).