3 The Committee’s assessment
3.4 Societal relevance
Os documentos e textos pesquisados não registram o etnônimo Caxixó e a memória social do grupo contemporâneo não registra informações sobre outro idioma falado por eles além da língua portuguesa. Este fato inviabiliza, nos tempos atuais, a especulação acerca de uma “tradução” ou atribuição de significado específico para o etnônimo.
A prática de tradução de nomes indígenas é registrada na historiografia desde o século XVI, quando da chegada dos primeiros colonizadores ao país. O interesse por compreender as línguas nativas motivou o interesse pelo conhecimento do significado das autodenominações dos povos autóctones. Nesse contexto do conhecimento-aprendizado das línguas indígenas, muitas foram as atribuições dadas pelos colonizadores a esses povos.
De acordo com estudos etnográficos, a maioria dos nomes indígenas (autodenominações), quando passíveis de tradução para o português, freqüentemente remetem ao termo “nós”, “gente”, “humano”; em oposição às denominações externas atribuídas por outros grupos étnicos, que com freqüência significam “o outro”, “inimigo”, “não humano”.
O cacique Djalma, quando questionado sobre o significado do etnônimo de seu povo, responde: “Caxixó é caxixó, uai!”; “Caxixó somos nós” (1998). “Caxixó é da terra mesmo. Do mesmo jeito que Deus criou o mundo, criou os caxixós aqui!” (Djalma, 21/09/2003).
O etnônimo, para ele, configura a afirmação da etnicidade de seu povo. Mantido em “segredo” por muito tempo, somente no final da década de 1980, ele foi revelado à sociedade nacional. Segundo o cacique, o processo de dominação e a acirrada disputa fundiária na região foram os motivos que os caxixós mais velhos tiveram para orientar seus parentes a não manifestarem o etnônimo, pois se afirmar indígena, intensificaria a ação
violenta dos donos de fazenda. Como estratégia de sobrevivência e permanência naquelas terras, a “invisibilidade” foi uma das soluções criadas pelos caxixós.
Agora nós podemos falar que nós somos Kaxixó mesmo. Mas de primeiro, a mãe falava, contava nós desde menino: ‘vocês fala assim: índio caboclo da Várzea do Galinheiro, e não é! Nós chamamos é Kaxixó. Mas não pode falar até hoje. Vocês não precisam inventar falar isso, vocês vai ser morto! Não pode falar não!’ Nosso bisavô explicava tudo (Caldeira et alli; 1999: 37).
A revelação do etnônimo e da história indígena ocorreu quando os caxixós sentiram a ameaça concreta de dissolução de sua base territorial. Foi em uma reunião entre a comunidade do Capão do Zezinho, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Pompéu (STR) em 1986, que Djalma revelou a identidade indígena de seu povo. Questionado sobre o direito de ocupar aquelas terras, ele afirmou: “somos índios” (Caldeira et alli; 1999: 09).
O estudo realizado pelo Cedefes em parceria com ANAI (1999); o laudo de Santos (2003) e o relatório técnico elaborado por Oliveira (2003) não apresentam informações acerca de um momento específico para a revelação do etnônimo. Paraíso (1994), em seu laudo para o órgão indigenista oficial, afirma que a origem do etnônimo é contemporânea, e atribui sua criação a membros de entidades não governamentais que tiveram contato com os caxixós na década de 1980. Segundo a antropóloga, Caxixó seria “uma forma sincrética de Kaiapó (Ka) e Pataxó (xixó)”27, grupos indígenas com quem os caxixós teriam mantido “intensa relação” (apud Santos; 2003: 113).
27 De acordo com o mapa etno-histórico de Curt Nimuendaju ([1944]1981), muitos povos indígenas da região
leste do Brasil possuíam ou possuem etnônimos com a terminação fonética “xó”: Monosó, Mapasó, Kaposó, Kutasó, Kumanasó. Todos esses povos foram classificados por Nimuendaju como falantes da língua maxakali, tronco lingüístico macro jê. Turner (1992: 313) ao citar Von den Steinen, apresenta o etnônimo “Kayaxó”. Segundo Turner, “os Bakairi disseram a Von den Steinen que um grupo que chamavam de Kayaxó tinha se unido a eles para expulsar os Suyá da região do rio Verde para o Alto Xingu. Von den Steinen identificou esses ‘Kayaxó’ aos ‘Coroados’ dos relatos brasileiros, e equiparou ambos os termos a ‘Kayapó’, mas parece nunca ter feito distinção entre os Kayapó setentrionais e meridionais. Seus relatos devem, portanto, ser vistos como se referindo aos Kayapó meridionais, e não os setentrionais (Von den Steinen, 1894: 395-5).” No caso do etnônimo “Kayaxó”, não há dados lingüísticos que nos permitam afirmar se de fato identificados como Kayapó, seu tronco lingüístico também seria macro jê.
A intenção de tal observação é apenas demonstrar que a construção fonética do etnônimo Caxixó não se apresenta distante dos registros históricos de etnônimos no leste brasileiro.
A comunidade caxixó do Capão do Zezinho não confirma a afirmação apresentada por Paraíso. Djalma, conforme relato descrito, atribui à sua mãe (Sérgia) o momento em que ouviu o nome Caxixó pela primeira vez. Bem como Djalma, os principais representantes caxixós atribuem a apresentação do etnônimo aos seus parentes mais velhos ou então ao próprio cacique.
A afirmação de que o nome seria uma forma sincrética criada por membros de organizações não governamentais, na opinião de Paraíso, implicaria na falta de autenticidade do nome e conseqüentemente em dúvidas com relação à identificação indígena Caxixó.
A discussão sobre autenticidade de etnônimos nos remete ao debate sobre tradicionalidade. Para Paraíso, o fato de o etnônimo não constar nos documentos por ela pesquisados e a possibilidade deste ser uma construção recente, seja ela intra ou extra grupo étnico, implicaria na dúvida sobre sua identidade indígena.
No entanto, “a ausência de registros históricos de um etnônimo constitui elemento insuficiente para a avaliação da condição étnica de um grupo social” (Santos; 2003: 113). Várias são as lacunas, imprecisões e confusões presentes na historiografia oficial brasileira no que diz respeito à história indígena (Turner; 1992; Carvalho; 1933; Gomes da Silva; 1902)28. Assim sendo, a ausência de registros oficiais não implica obrigatoriamente na inexistência passada do grupo étnico.
Oliveira afirma em seu relatório sobre a identificação indígena caxixó que nada nos permite “estabelecer uma igualdade entre verdade e fonte documental” (2003: 151). Se
28 Já no início do século XX, pesquisadores já apontavam para imprecisões das fontes historiográficas. Gomes
da Silva, em seu texto “Excavações ou apontamentos históricos da cidade de Pintanguy”, relata sua dificuldade em realizar pesquisa documental sobre a região:
Aqui interrompe-se o manuscripto, precioso fornecedor desta notícia, bem que sucinta, interessante, todavia, àquelles que se deleitam com as escavações do passado.
Pefunctorios e resumidos, com relação ao desdobramento de factos longamente occorridos no decurso de três quartos de século, estes apontamentos históricos,
comquanto deficientes e incompletos, irradiam sobre os primodios da velha serrana uma
luz escassa, é verdade, mas em todo caso, preferível às burmas do desconhecido que, porventura, a constituíssem filha espúria, enrubescendo se por não poder exhibir aos olhos investigadores da história sua escriptura de perfilhação.
Com o auxillio daquelle documento podemos jornadear pelo dilatado estádio que decorre de 1709 até 1798, sem que nos fosse de mister invocar a reminiscência dos
velhos, como aconteceu para poder prosseguir em nossa tarefa de 1798 por diante (1902:
considerarmos o contexto da criação dos etnônimos, a busca em documentos oficiais antigos torna-se ainda menos eficaz como instrumento de pesquisa e fonte da verdade histórica. A ausência de dados oficiais sobre um povo indígena, além de representar a possibilidade de imprecisão no trabalho de registro, pode apontar para a recriação de etnônimos. Segundo Sampaio, inúmeros povos que vivenciaram um intenso processo de reorganização social e étnica recriaram, no passado recente, suas designações étnicas. De acordo com esse antropólogo, no nordeste brasileiro, muitos são os casos: Kapinawá, Pankararé, Tingui-Botó, Wasu, Kambiwá, Atikum e Kantaruré. Segundo ele, nenhum desses etnônimos possui referência em fontes históricas oficiais, pois “foram adotados em tempo bastante recente e por meio de processos diversos de ‘escolha’ ou ‘descoberta’, dos quais o mais comum parece ser o de consulta aos ‘encantados’ durante sessões xamânicas ou de possessão associadas ao complexo ritual do Toré” (Sampaio; 1995: 245-246).
Oliveira (1993: 07) também destaca contextos em que chefes ou líderes históricos, em função de seus poderes mágicos, conseguem promover a re-fundação da aldeia e o ‘encontro’ do ‘verdadeiro’ nome daquele povo, logo adotado como etnônimo.
O processo de recriar (inventar) nomes, ao contrário do que a expressão pode imediatamente remeter, não caracteriza produção de falsas verdades ou de fatos gratuitos. Segundo Pierre Sanchis, “inventar é pretender reencontrar a história” (1998: 09). Citando Hobsbawn, ele afirma que “toda tradição inventada utiliza, na medida do possível, a história como legitimadora das ações e como cimento da coesão grupal” ([1984] 2002: 21). Inventar, em se tratando de uma análise sobre identidade étnica, seria um ato de “visitar” o passado, um diálogo constante entre a memória e a descoberta.
A considerar que a identidade étnica não deve ser compreendida como um estado de permanência, mas sim um processo dinâmico em constante elaboração, a invenção se configura como o re-criar a história, não se caracterizando como ato fortuito e aleatório. Dessa forma, a (re)criação recente de designações étnicas não deslegitima a autenticidade da identidade étnica de um grupo. “Constituindo o nome uma criação individual ou coletiva, sua autenticidade e a autenticidade do que representa independem da época de seu surgimento, seja esta pré-colombiana, colonial ou pós-colonial” (Santos; 2003: 113-4).
Quando assumido pelo grupo, também independe da autoria de sua construção, seja ela intra ou extra grupo.
Autêntico, o nome atribui identidade, unicidade de um grupo no campo da alteridade. Ele remete à origem, ao nascimento e à individualização do ser coletivo. O nome classifica, especifica, faz conhecer. No caso em estudo, o etnônimo enuncia a origem indígena, até muito recentemente silenciada como estratégia de acomodação do conflito. Sob a alcunha de “caboclos”, eles conseguiram garantir sua permanência nas terras de origem e sua vida enquanto coletividade – situação esta que acreditam teria sido difícil garantir mediante um confronto declarado.
Para os caxixós do Capão do Zezinho, o nome de seu povo foi apresentado por seus antepassados (ainda que recentes), “portanto, sua designação étnica é um elemento da tradição, cuja origem no tempo é indeterminada e, justamente devido a esse caráter, não requer grandes explicações” (Santos; 2003: 114).
Ninguém sabe exatamente a origem do termo Caxixó, mas isso não afeta os membros da coletividade. O que importa é que sabem perfeitamente a opção política e social que o nome significa, que a aceitam e incorporam (Oliveira; 2003: 172).