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The scope and terms of reference of the evaluation

Não se faz pastoral verdadeira a partir dos sonhos elaborados nos gabinetes dos intelectuais puros ou das burocracias. Faz-se numa comunidade real com forças reais. Essas forças não se fabricam nas oficinas de pastoral. Elas estão presentes na sociedade, ou não existem, nem poderão existir 286.

O trabalho de evangelização deve levar em conta o terreno, as condições sociais, econômicas e políticas onde o evangelizador/missionário irá atuar. Isto não tem novidade nenhuma. A novidade está em como fazer e quem irá fazer e não o que fazer. A experiência evangelizadora das CEBs, principalmente nas décadas de 60 e 70 do século passado, foi uma verdadeira luz para aqueles que participaram daquela experiência. Por princípio aqueles que conduziram as diversas experiências, reconheceram toda a precariedade do cotidiano da população, sem participação na vida política, econômica e religiosa. Atuaram em áreas onde a população assistida não tinha formação religiosa, educacional e era economicamente excluída, mas tinha uma grande piedade e religiosidade popular. Todos os exemplos estudados partiram de uma participação, de companheirismo, de democracia entre clero e leigos. Abandonou-se o binômio do mando e da obediência cega, do leitor-ouvinte, do professor-aluno, do padre-leigo, do governo-povo, do eu mando vocês obedecem. A experiência evangelizadora das CEBs pressupôs, em primeiro lugar, o entendimento das condições reais de vida do povo a ser evangelizado, e tem objetivos de médio prazo, pelo menos. Mais ainda, o testemunho de padres e religiosas vivendo no local onde viviam os seus fieis, com as mesmas dificuldades e precariedades, ou seja, houve uma convivência, uma harmonia, uma cumplicidade entre o evangelizador e o evangelizado. Em síntese, vive-se o que se reza e se reza o que se vive. Resistiu-se à tentação do poder, do ter, do ser, de construir, de crescer, de se tornar paróquia, de se ter mais estruturas burocráticas, mais visibilidade, mais “clientes”; a qualidade era preferível à quantidade. O modelo preferiu aprofundar o Evangelho em poucos, do que catequizar superficialmente muitos. A experiência equivale a outros momentos do passado da Igreja onde tudo parece caminhar em sendas contrárias aos caminhos do Senhor e, por obra do Espírito Santo, surgem esperanças de reconduzir a Igreja pelo caminho adequado, assim com surgiram os profetas, os mártires, os fundadores das ordens religiosas, os santos e as

      

286 COMBLIN, José. Comunidades Eclesiais e Pastoral Urbana. Revista Eclesiástica Brasileira, Petrópolis:

santas que, com seus exemplos de vida cristã, levantaram a Igreja do Senhor Jesus. Assim também foi com as Comunidades Eclesiais de Base.

Assim como o Vaticano II teve suas raízes fora da Igreja, e esta soube interpretar as necessidades e aflições do fiel, e inserir-se no mundo moderno, mudando sua postura pastoral, sua liturgia, seu contato com os leigos, sua visão social, também a Igreja no Brasil, ou parte dela, soube ver as dificuldades básicas da população mais carente, começando pela educação, pela saúde e moradia, decidiu trabalhar em prol dos mais humildes e agiu decididamente nessa direção, através do Evangelho. A Igreja instituição nesse período de novos ares, também proporcionou os meios teóricos e municiou suas bases de documentos e conceitos bíblico-teológicos que indicavam uma mudança de rumos. Tanto através da CNBB como do CELAM, os documentos dão subsídios para uma reforma nas estruturas já ultrapassadas, inadequadas e ineficientes. Todos, que têm acesso a tais documentos, sabem o que se deve fazer, mas poucos sabem como fazer, ou pior se sabem, não querem fazer. Como vimos, a evangelização dá muito trabalho, que deve ser repetido, talvez várias vezes. Quando se pensa que alguma etapa foi superada, volta-se ao ponto de partida pois, ao contrário do que se pensava, os obstáculos não foram devidamente superados. A evangelização que tem por objetivo levar a uma mudança integral do ser humano requer total despojamento e foco na ação dos empreendedores. Não se enquadra em esquemas de carreirismo, clericalismo, legalismo, não é trabalho para se tornar famoso. Outro aspecto muito claro que a pesquisa demonstrou é que a evangelização deve ser feita a partir dos pobres, das periferias, dos lugares remotos. Aqui entra um novo elemento. A evangelização precisa de um modelo adequado à região a ser evangelizada, portanto, não será por canais de mídia massiva ou de grande exposição, isto é por excelência, superficial. A evangelização precisa ser liderada por um elemento do clero, o povo de Deus não respeita um leigo nessa matéria, por mais que ele tenha, hipoteticamente, competência. Assim o clérigo deve estar desapegado do fator econômico, pois viver como pobre é estar na pobreza real. Hoje, na sociedade capitalista neoliberal, nada é mais comum do que encontrar clérigos que querem fazer de sua vocação uma melhoria de sua vida financeira, que têm como ideal serem funcionários do altar, ou se preocupam em “vender curas e milagres” ao povo. Encontrar pessoas preparadas e dispostas ao sofrimento material para ficar ao lado dos pobres, com o objetivo de evangelizar e transformá-los, transformando as estruturas opressoras é um enorme desafio, difícil saber como superá-lo.

O egoísmo dos homens levados pelo desejo de um poder centralizador, as modificações na política e na economia, as mudanças da sociedade para uma sociedade de espetáculo, de fazer para ser admirado, elogiado, de se fazer para as grandes massas, para as grandes mídias, aparentemente tiraram o brilho das CEBs, que retrocederam, como modo de ser Igreja, apesar de estarem ativas pelo menos numericamente. A Igreja Católica no Brasil tem grandes desafios a vencer: por mais que seja apenas um dado, e que a hierarquia não se manifeste oficialmente preocupada, a porcentagem dos que se declaram católicos vem caindo, sistematicamente, desde 1950. Naquele ano segundo dados do censo do IBGE, cerca de 97% da população se declarava católica, em 2010 esse número caiu para 64% e nada indica que essa curva irá se flexionar para cima. A principal corrente de crescimento é das igrejas neopentecostais, fenômeno esse combatido, ou assimilado dentro da instituição católica por movimentos carismáticos que privilegiam o louvor, as orações e não as ações. Os encontros intereclesiais já relatam as tensões entre esses movimentos desde a década de 80. De lá para cá, aqueles movimentos só cresceram e as CEBs, pelos motivos já expostos retrocederam. Mas, em um plano de evangelização, certamente não deve haver conflitos, entre movimentos e pastorais. As CEBs, como instrumento de evangelização, não tiram o trabalho e o valor do trabalho paroquial, dos movimentos ou das pastorais. O que precisamos entender é que a paróquia atende aos fieis que já foram evangelizados, ou que, atraídos por um carisma de algum movimento ou pastoral, procura a paróquia e sua estrutura, para atendê-lo em geral em suas vicissitudes espirituais. Caberá, naturalmente, ao pároco e sua equipe, a missão de aprofundar a fé daquela pessoa, oferecendo trabalhos pastorais, formação, estudo bíblico, conhecimento da Doutrina Social da Igreja, etc. A estrutura paroquial é e continuará sendo necessária ainda que se limite a ser cartorial, sacramental e celebrativa, mas “nem teológica, nem historicamente, a paróquia fundada para um determinado território será o único elemento básico possível da estrutura eclesial”287. As CEBs são em sua essência missionárias, ou seja, devem sair dos limites do templo em busca das ovelhas perdidas e que desejem a salvação. É possível que uma pessoa evangelizada e participante de uma CEB não se acomode em uma estrutura paroquial, mas isso não significa, necessariamente, que a paróquia deva mudar. O que deve mudar é o nosso olhar para a realidade, quem evangeliza não pode cuidar de uma paróquia, com toda a sua burocracia, seus horários, e seus vários compromissos cotidianos. A

      

287 RAHNER, Karl. Estruturas em mudança: tarefa e perspectivas para a Igreja. Tradução: Ir. Marília

evangelização requer tempo integral e total dedicação, as CEBs não precisam ou não devem estar ligadas umbilicalmente a uma paróquia. Os trabalhos de uma comunidade de base e de uma paróquia deveriam ser sinérgicos e complementares, mas não dependentes. “A Igreja do futuro há de ser uma Igreja construída a partir da base, das comunidades que se formam pela própria iniciativa e livre associação dos interessados. E tudo devemos fazer para não impedir esta evolução, e, sim, para fomentá-la e orientá-la” 288.

Que falar de um futuro projeto de evangelização no Brasil? Primeiro deve-se compreender profundamente as condições sociais, políticas e econômicas do país. Apesar de uma melhora sensível em termos sociais se comparado a 1960, o Brasil ainda está muito longe de uma situação ideal: a situação de educação básica ainda é precária, cerca de 9,5% da população é analfabeta e 25% é considerada analfabeta funcional, dados do censo de 2010; 50% dos domicílios brasileiros não tem saneamento básico; a situação na saúde pública é calamitosa; a violência deixou de ser urbana e passou a ser geral; cresce o consumo indiscriminado de drogas; as grandes cidades carecem de transporte e sofrem com o trânsito, poluição; a corrupção é endêmica e a classe política é vista como uma tragédia nacional. Na economia o país continua dependente de matérias primas que exporta, ou seja, continua um país periférico e por conta de uma ausência de políticas corretas, está sofrendo uma desindustrialização, mesmo antes de ter atingido uma renda per capita condizente de país economicamente avançado, o que poderá representar no futuro uma maior dificuldade para uma melhor distribuição de renda; a má distribuição de renda continua a ser uma das mais injustas do mundo, apesar de esforços terem sido feitos para minimizar esse mal, ele continua; o país sofre com uma alta taxa de tributação, onde quem mais sofre são os mais pobres, pois não há retorno por parte do governo, em benefícios para os mais fracos. No campo político tivemos inegáveis avanços, apesar dos pesares, após a queda da ditadura e a aprovação da constituição de 1988, o Brasil vive uma democracia em pleno estado de direito, porém estamos muito longe de uma qualidade aceitável de cidadania, a classe política simplesmente não governa para o povo, mas sim para seus próprios interesses eleitorais, as estruturas injustas continuam, as elites seguem oprimindo. Há uma verdadeira liberdade de expressão apesar dela ainda não influir o suficiente, mas já há mecanismos para o povo se fazer ouvir. Assim, como ocorreu no continente europeu após a segunda guerra mundial, o cidadão brasileiro está aprendendo a

      

288 RAHNER, Karl. Estruturas em mudança: tarefa e perspectivas para a Igreja. Tradução: Ir. Marília

se manifestar, a participar da vida nacional, a exigir seus direitos. É verdade que estamos muito longe de um ideal, mas houve avanços. Essa vontade de participação se faz sentir também no campo religioso. Mesmo de modo tímido o fiel quer participar mais, já não se contenta com explicações pré-formatadas e fora do contexto. Neste campo, o trabalho de evangelização será muito mais difícil, pois hoje, o cidadão comum tem ideias próprias que estão além da compreensão de uma Igreja com conceitos antigos e, se ele não concorda, simplesmente não segue. A sociedade já pode viver sem as referencias religiosas do passado, hoje já não é mal visto quem não se casa na igreja, ou simplesmente não se casa nem no civil, ou não batiza seus filhos, ou não se confessa. A sociedade brasileira está cada vez mais secularizada. Um trabalho de evangelização requer hoje muito mais dedicação, muito mais esforço e muito mais conhecimento do que no passado. Outro dado a ser levado em conta é que atualmente, mais de 85% da população brasileira mora nas cidades, onde temos as mais variadas “tribos”, que não necessariamente se relacionam, e que já formam suas próprias comunidades. Nada indica que esse fenômeno irá diminuir, mas ao contrário tende a aumentar. Assim, temos várias culturas em uma mesma região da cidade e, de novo, o trabalho do evangelizador não poderá ser pasteurizado, pré-formatado, igual para todos. Isso não é nenhuma novidade histórica, acontece desde os tempos de Paulo apóstolo. O problema hoje em dia é que temos a tentação de pensar em comunicação de massa, grandes auditórios, mídia de massa, novos areópagos, internet, grandes exposições, vender milhões de livros, educação massiva. Isso é o sucesso do sistema capitalista neoliberal. Mas não funciona como um projeto de evangelização, de transformação do individuo e da sociedade pois, por definição, aquele método é superficial, enquanto a evangelização precisa ser profunda. Neste sentido as comunidades de base representam o anti sistema, a contramão da história de sucesso, como aliás foi o ministério de Jesus de Nazaré; mais uma vez não há novidade, a novidade será segui-lo fielmente.

Rejuvenescer as CEBs será um grande desafio para a Igreja no Brasil, desde que ela queira encará-lo. Significa ter seus melhores talentos, ou os mais bem preparados, despojados de qualquer tipo de riqueza ou ostentação, viver pobremente como tantos santos de outrora, trabalhar incessantemente para transformar uma população carente de tudo e não receber nada em troca, a não ser o infinito Amor de Deus e saber que está incluindo os evangelizados em seu Reino.

ANEXO 1