CHAPTER 5 DATA COLLECTED IN FIELD VISIT
5.4 Social Services for Families with Dementia in Hong Kong
Uma das formas de pensar a sociedade Ž atravŽs da perspectiva te—rica cl‡ssica da sociologia, inserida no paradigma da ci•ncia moderna, que ensina que as sociedades s‹o compostas por pessoas e pelas rela•›es entre elas, caracterizadas por lutas de classes e processos estruturados por rela•›es historicamente determinadas, de organiza•‹o e distribui•‹o de meios de produ•‹o e poder. Os meios de produ•‹o distribuem-se e s‹o apropriados de formas desiguais pelas v‡rias classes sociais dando origem a lutas sociais. A produ•‹o Ž organizada em rela•›es de classes que estabelecem as formas de consumo (uso e troca) dos produtos e da apropria•‹o e acumula•‹o dos excedentes de produ•‹o. O poder tem a ver com a imposi•‹o da vontade de uns sobre os outros tendo por base o estado e o seu monop—lio institucionalizado do uso da viol•ncia, como prop™s Maquiavel na sua teoria do Estado (CARVALHO FERREIRA, 1995, p. 22/92/155, p.22; MAQUIAVEL, 2000).
Mais recentemente, e j‡ evocando a teoria sist•mica, Giddens define sociedade como
um grupo, ou sistema, de modos institucionalizados de conduta. Falar de formas ÔinstitucionalizadasÕ de conduta social Ž referir-se a modalidades de cren•a e comportamento que ocorrem e recorrem Ð ou como expressa a terminologia da moderna teoria social, s‹o socialmente reproduzidas Ð no tempo e no espa•o (GIDDENS, 1984, p.15).
TambŽm o soci—logo e te—rico dos processos culturais Stuart Hall, defende que Òa sociedade n‹o Ž como os soci—logos pensaram muitas vezes, um todo unificado e bem delimitado, uma totalidade, produzindo-se atravŽs de mudan•as evolucion‡rias a partir de si mesma, como o desenvolvimento de uma flor a partir do seu bulboÓ, mas pelo contr‡rio, ela est‡ Òconstantemente sendo ÔdescentradaÕ ou deslocada por for•as fora de si mesmaÓ. O autor acrescenta que, na modernidade tardia, as sociedades Òs‹o caracterizadas pela Ôdiferen•aÕ; elas s‹o atravessadas por diferentes divis›es e antagonismos sociais que produzem uma variedade de diferentes Ôposi•›es de sujeitoÕ Ð isto Ž, identidades Ð para os indiv’duosÓ (HALL; 2006, p. 17).
Na sua defini•‹o de sociedade ou sistema social, Capra come•a por explicar que os sistemas vivos se caracterizam pela tr’ade forma, matŽria e processo.
Quando estudamos os sistemas vivos a partir do ponto de vista da forma, constatamos que o padr‹o de organiza•‹o Ž o de uma rede autogeradora. Sob o ponto de vista da matŽria, a estrutura material de um sistema vivo Ž uma estrutura dissipativa, ou seja, um sistema aberto que se conserva distante do equil’brio. Por fim, sob o ponto de vista do processo, os sistemas vivos s‹o sistemas cognitivos no qual o processo de cogni•‹o est‡ intimamente ligado ao padr‹o de autopoiese (CAPRA, 2002, p. 84).
No decorrer dos seus argumentos o autor postula que a compreens‹o sist•mica da vida tambŽm pode ser aplicada ao dom’nio social se ˆ tr’ade descrita anteriormente acrescentarmos o ponto de vista do ÔsignificadoÕ que Ž usado como Òexpress‹o sintŽtica do mundo interior da consci•ncia reflexiva, que cont•m uma multiplicidade de caracter’sticas inter- relacionadasÓ (CAPRA, 2002, p. 85). Sob este ponto de vista, a compreens‹o da sociedade e dos fen™menos sociais tem de partir da integra•‹o destas quatro perspectivas: da forma enquanto rede autogeradora, da matŽria com estrutura dissipativa, do processo de cogni•‹o com padr‹o autopoiŽtico e do significado, do mundo interior dos conceitos, ideias, imagens e s’mbolos, isto Ž, da dimens‹o hermen•utica.
Philip Anderson foi pr•mio Nobel da f’sica em 1977 pelos seus estudos te—ricos e investiga•›es sobre a estrutura eletr™nica de sistemas magnŽticos e desordenados. Escreveu um artigo na Science em 1972 no qual afirmou que as agrega•›es de tudo, desde ‡tomos a pessoas, exibiam um comportamento complexo que n‹o podia ser previsto atravŽs da observa•‹o das partes componentes (ANDERSON, 1972, p.393). Partindo da proposi•‹o de que Biologia n‹o Ž s— qu’mica aplicada, e a qu’mica n‹o Ž s— f’sica aplicada, Clay Shirky, autor de ÔEles v•m ai: o poder de organizar sem organiza•›esÕ (2010)7, retoma os escritos de
Anderson, afirmando que
[...] n‹o podemos compreender todas as propriedades da ‡gua ao estudar os ‡tomos que a constituem isoladamente. Este padr‹o no qual aglomerados exibem propriedades novas tambŽm se aplica ˆs pessoas. A sociologia n‹o Ž s— psicologia de grupos aplicada, e psicologia n‹o Ž s— biologia aplicada - os indiv’duos em ambientes de grupo exibem
comportamentos que ninguŽm consegue prever atravŽs do estudo de mentes individuais (SHIRKY, 2010, p.34).
Efetivamente, a g•nese desta abordagem pode estar nos escritos de um dos principais fil—sofos da complexidade, Edgar Morin, que j‡ anteriormente tinha constatado o fato de que,
se o conceitos de f’sica se amplia, se complexifica, ent‹o tudo Ž f’sica. Eu digo que ent‹o a biologia, a sociologia, a antropologia s‹o ramos particulares da f’sica; do mesmo modo, se o conceito de biologia se amplia, se complexifica, ent‹o tudo o que Ž sociol—gico e antropol—gico Ž biol—gico. A f’sica e tambŽm a biologia param de ser redutoras, simplificadoras e tornam-se fundamentais. Isto Ž quase incompreens’vel quando se est‡ no paradigma disciplinar em que f’sica, biologia, antropologia, [sociologia] s‹o coisas distintas separadas, n‹o comunicantes (MORIN, 1991, p.41)
Na linha das ideias expressas por Giddens, Hall, Capra, Morin, Anderson e Shirky, a sociedade pode ent‹o ser pensada a partir de refer•ncias filos—fico-cientificas do pensamento complexo, da complexidade e do paradigma emergente, onde a sociedade nos aparece como uma realidade, fractal, hologram‡tica na qual Òa rela•‹o antropossocial Ž complexa, porque o todo est‡ na parte, que est‡ no todoÓ (MORIN, 1991, p.79). Com essa perspectiva a sociedade pode ser vista de forma sist•mica, nomeadamente atravŽs da teoria sociol—gica ou da teoria de sistemas sociais de Niklas Luhmann (1927-1998). Essa teoria sociol—gica conceitua a sociedade como sistema de comunica•›es e para se iniciar a compreens‹o da teoria de sistemas sociais de Luhmann, Ž necess‡rio superar tr•s obst‡culos epistemol—gicos, obst‡culos esses que em outras teorias sociol—gicas s‹o premissas b‡sicas para se entender a sociedade. O primeiro Ž a premissa de que a sociedade Ž constitu’da por pessoas e rela•›es entre pessoas. De acordo com a teoria sist•mica de Luhmann, a sociedade enquanto sistema n‹o Ž constitu’da por pessoas mas sim, e exclusivamente, por comunica•›es. As pessoas s‹o outro tipo distinto de sistema chamado de sistema ps’quico, que se situa no ambiente do sistema social. O segundo obst‡culo diz que as sociedades t•m fronteiras territoriais e/ou pol’ticas mas como o sistema social Ž composto unicamente por comunica•‹o e esta n‹o pode ser controlada no espa•o, conclui-se que n‹o existem fronteiras territoriais e/ou pol’ticas entre as diversas sociedades. H‡ um œnico sistema social mundial que inclui todas as comunica•›es. O terceiro obst‡culo Ž a separa•‹o entre sujeito e objeto que para o soci—logo n‹o existe, n‹o havendo nenhum observador externo ao sistema social que possa analis‡-lo com dist‰ncia e imparcialidade (STOCKINGER, 1997).
Luhmann considera quatro tipos de sistemas que s‹o os n‹o vivos, vivos, ps’quicos e sociais e, ao caracterizar a sociedade como um sistema social que envolve a totalidade das comunica•›es, tudo o que n‹o Ž comunica•‹o n‹o faz parte do sistema, e portanto, n‹o sendo comunica•‹o, os sistemas vivos (que incluem as cŽlulas, os animais, o corpo humano, compostos por opera•›es vitais respons‡veis pela manuten•‹o do sistema) e o sistema ps’quico (que Ž a consci•ncia e Ž composto pelos pensamentos) s‹o ambiente do sistema social, isto Ž, os seres humanos e os pensamentos fazem parte do ambiente da sociedade. Entretanto, para Luhmann, o ambiente n‹o Ž aquilo que sobra quando se subtrai o sistema, sendo que
para a teoria de sistemas autorreferenciais o ambiente Ž antes de mais uma pressuposi•‹o da identidade do sistema, porque identidade Ž apenas poss’vel quando h‡ diferen•a É nem ontologicamente, nem analiticamente o sistema Ž mais importante do que o ambiente. Porque ambos s‹o o que s‹o apenas em rela•‹o ao outro (LUHMANN apud STOCKINGER, 1997).
Em resumo, importa reter que, a ideia forte Ž que a sociedade Ž concebida como a rede de comunica•›es em que as pessoas s‹o (ÔapenasÕ) os pontos de entrela•amento para a comunica•‹o.