1. Introduction
5.7 Social challenges and coping mechanisms
3.3.3 Comunidade do Boa Vista e o Sítio Ramal Cupuaçu
A comunidade do Boa Vista sofreu o processo de desapropriação da CODEBAR em 1981. Seus moradores foram deslocados para o Bairro do Laranjal. Antes deste processo, seus sítios eram entrelaçados pela parentela da família Pinheiro, descendentes dos irmãos Cordolino da Silva Pinheiro116 e Feliciano da Silva
Pinheiro117, que, juntos, tinham posse coletiva da terra e dos recursos comuns.
R. Esses Pinheiro aqui tinham conflito com os outro Pinheiros, mas ali era o porto deles, o pai deles era Cordolino Pinheiro, aí do meu avô era Feliciano Pinheiro, aí quando meu avô morreu esse Cordolino quis ficar com toda a terra, aí sempre tiveram uma picuinha entre eles.
P. Eles também foram remanejados na época da CODEBAR?
R. Foi todo mundo, só que parece que eles ocuparam a nossa área, deu origem a Boa Vista, o porto deles era mais pra ali assim. Desse lado ficava os Pinheiros, e desse lado eu não sei te explicar porque ficava uma família que não conhecia118. (informação verbal).
O senhor Aldair Pinheiro narra como ocorreu a ação da CODEBAR no seu território.
[...] quando foi em 82, minha filha tava com três meses de nascida, aí chegou o Dr. Luís Reis, Dr. Luiziano, Dr. Lobato, Dr. José Maria e a Drª Yara, os cobras da CODEBAR, que vieram, disque, melhorar a situação do caboco na época, porque a CDI passou primeiro negociando um tal de Wanderlei passou negociando com os caboco do lado de lá do Murucupi, até no Burajuba, dando 400 cruzeiros, 500, até 150 cruzeiros, 90 foram dando pros cabras né, naquelas casinha de palha eles davam 90 cruzeiros naquele tempo e as casinhas de telha eles já davam mais um pouquinho, aí começou, o pessoal começaram a reclamar [...] (informação verbal).
A ação de desapropriação desestruturou a família Pinheiro. Os descendentes do senhor Feliciano da Silva Pinheiro saíram de suas terras e, como afirma o seu Adair Pinheiro, ficaram espalhados pelos “quatro cantos, batendo manivela e sem rumo”119. Eles foram deslocados para Laranjal e espalhados pelo Itupanema,
Barcarena Velha e Belém.
116 Oziel da Costa Pinheiro, Marta da Costa Pinheiro, Carlos da Costa Pinheiro, Antônio da Costa
Pinheiro, Francisca da Costa Pinheiro, Elza da Costa Pinheiro, Marinéia da Costa Pinheiro, João da Costa Pinheiro e Manoel da Costa Pinheiro.
117 Seus filhos são Enoe da Cruz Pinheiro Pinheiro, Wilson da Cruz Pinheiro, José Maria da Cruz
Pinheiro, Lazaro da Cruz Pinheiro, Maurício da Cruz Pinheiro, Cacilda da Cruz Pinheiro e Aldair da Cruz Pinheiro.
118 Narrativas de Maria do Socorro Pinheiro, que faz a descrição do croqui da comunidade na época
dos sítios em torno do Murucupi.
O senhor Cordolino da Silva Pinheiro e seu filho mais velho, Oziel da Costa Pinheiro, permaneceram no território do Boa Vista. A senhora Elza da Costa Pinheiro, em suas narrativas sobre este passado, faz as seguintes revelações:
Foi o meu pai tava vivo, eles chegaram aqui que era pra desocupar a terra que a terra era deles. Olha tinha era muita gente aqui, mais de 30 pessoas nessa beira e ia até lá na casa da Joana. Tinha muita gente, aí um bocado foi embora [...]
Nós fomos pra Barcarena, minha irmã tinha uma casinha lá ela deu pra gente morar, e nós moramos até a gente comprar a nossa. Meu pai disse que daqui ele não saía, só se o trator passasse por cima dele, e ele não saiu. Aí de vez em quando a gente vinha, ajudava ele na roça e passava a semana aqui com ele, quando era dia de sábado a gente ia embora pra Barcarena. Aí foi e foi até que nós voltamos.
[...] Não, ele saiu mas foi quando ele morreu. Meu irmão também o Oziel que é o primeiro, o mais velho ele também só saiu quando morreu. Tinha a casinha dele de madeira aqui do lado, que o papai fez ainda, mas aí depois a gente não quis mais que o papai ficasse aí porque a pernamanca já tava toda estragada, a gente disse: “não o papai não pode mais ficar aqui, que de repente ele cai e se quebra tudo”, aí nós fizemos outra casa, grande de madeira.
[...] Aí depois que o Oziel morreu quem veio pra cá primeiro?
Elza: Foi eu com essa outra minha irmã a Martinha, engraçado que a gente sentava ali e ficava conversando, “ah Marta, eu acho que eu não venho mais pra cá, eu só venho pra cá por causa do Ziel, eu tenho uma pena de deixar ele sozinho”, que nada, foi aí que nós viemos mesmo, aí a gente vinha com os meninos pra cá, a gente passava a semana aqui, e era assim. (informação verbal).
Vale ressaltar que o plano urbanístico da CODEBAR não chegou a atingir o território do Boa Vista, e por isso seu Cordolino e Oziel resistiram e permaneceram no local. João da Costa Pinheiro e Manoel da Costa Pinheiro foram morar no Laranjal, mas a proposta de progresso e desenvolvimento divulgada entre os sitiantes de Barcarena não atingiu os filhos de seu Cordolino. Portanto, Jango e Manoel iam trabalhar em seus sítios no Boa Vista todos os dias e retornavam para dormir no Laranjal com suas famílias.
Jango (João Pinheiro) continuou na atividade de pesca, e, segundo Socorro Pinheiro, ele não desistiu do rio. Sua esposa, Professora Lolita, tinha uma escolinha na comunidade e passou a lecionar na Escola Francisco Cravo (no Bairro do Laranjal). Da época que nos se mudou pra cá melhorou pra ela, que o trabalho dela era de escola, professora, pra mim não. Eu tinha que andar todo dia lá pro Sítio, tinha que trabalhar lá que não me deram trabalho, eu não larguei lá não, trabalhava direto.
P. Mas a Codebar não se incomodou de o senhor estar indo pra lá?
João: Que nada, depois que jogaram a gente pra cá não quiseram nada. Não ligaram pra nós não, por isso que nós não largamos de trabalhar lá. Trabalhamos direto, aí pronto foi que nós cadastramos o lote das terras lá, e todo mundo voltou depois.
Esposa do seu João: Nós se mudamos pra cá em 84, quando foi em 87 nós fomos de volta pra lá, e começamos a fazer as casas.
[...] Eu ainda pesco, pra banda da Vigia, pesco de rede artesanal, eu arrumo uma corda e teço ela. Eu pesco de 10, 15 dias, pra vender e consumir. A farinha a gente vende pouco, é mais pra consumo, a família é grande. Nós fizemos ontem três baldes, só trouxemos um. A gente vive mais lá. Quando o barco tá na água, ele agora tá em terra, nós estamos com vontade de arriar ele agora semana que vem, já fomos limpar o motor, estamos esperando a maré crescer pra levar lá em Barcarena pro cara dar um check up. Enquanto a Dilma não libera dinheiro para as firmas pros meninos se empregarem, tão aí na pesca. Tem um barco com motor 22, eles já não sofrem muito com o remo não, ele fica lá no porto, ficar aqui é arriscado porque o pessoal mexe.120
(informação verbal).
Compreender as resistências dos agentes sociais do Sítio Cupuaçu consiste em relacionar a sua história com as memórias que eles têm do rio Murucupi, antes da chegada das empresas, pois a comunidade do Cupuaçu é composta por parte dos antigos sitiantes da Comunidade Boa Vista, a qual pertence à família do Senhor Feliciano da Silva Pinheiro, que retornou para uma parte do seu território no ano de 2010. Assim o senhor Aldair da Cruz Pinheiro explica121:
A gente morava lá nas margens do rio Murucupi, na beira desse terreno aqui nas margens do rio, aí como o governo nos tirou aí entrou os sem-terra tomaram uma parte nossa aí tudo e tal né, aí quando nós conseguimo recadastrar as terras nós já tinha perdido mais da metade, aí o que acontece aí nós se repartimo cortamo o terreno no meio ficou, do meio pra lá pros primo e do meio pra cá pra nós.
P.São duas famílias então aqui?
R. É, são quatorze herdeiros do terreno Boa Vista. P.Quatorze herdeiros.
R. Sete irmãos, sete irmãos do meu tio e sete do meu pai, Feliciano da Silva Pinheiro. (informação verbal).
A comunidade do Cupuaçu está localizada em um ramal que dá acesso ao igarapé do mesmo nome. Este ramal, também denominado Cupuaçu, foi ocupado com o retorno das famílias do senhor José da Cruz Pinheiro e de Aldair da Cruz Pinheiro. As trajetórias de vida e os projetos dessas famílias foram completamente alterados, como expõe, em suas narrativas, Maria do Socorro Pinheiro122 quando fala
sobre o cotidiano em torno da margem do rio Murucupi e sobre a forma de organização dos Silva Pinheiro, antes da instalação das empresas. A sua memória reconstrói, no croqui, a paisagem resistente da sua juventude quando morava na Comunidade Boa Vista, antes de serem expropriados e deslocados.
120 Entrevista realizada em 01 de maio de 2015. 121 Entrevista realizada em 15 de outubro de 2013.
Nas suas narrativas, o senhor Adair da Silva Pinheiro descreve como os “agentes do desenvolvimento” da CDI e da CODEBAR atuaram no processo de expropriação dos moradores:
[...] quando foi em 82, minha filha tava com três meses de nascida, aí chegou o Dr. Luís Reis, Dr. Luiziano, Dr. Lobato, Dr. José Maria e a Drª Yara, os cobras da CODEBAR, que vieram, disque, melhorar a situação do caboco na época, porque a CDI passou primeiro negociando um tal de Wanderlei passou negociando com os caboco do lado de lá do Murucupi, até no Burajuba, dando 400 cruzeiros, 500, até 150 cruzeiros, 90 foram dando pros cabras né, naquelas casinha de palha eles davam 90 cruzeiros naquele tempo e as casinhas de telha eles já davam mais um pouquinho, aí começou, o pessoal começaram a reclamar, aí veio o padre primo e o padre Joãozinho, o padre Joãozinho só vivia pescando sabe, aí descobriram que saiu lá de Brasília 10.000 Cruzeiros na época pra dar pros cabocos né, que moravam no mato, na lavoura, depois de descobriram e foram em cima, arrumaram dois advogados pra pegar o resto do dinheiro do pessoal, aí de repente o padre Joãozinho morreu, aí ficou o padre primo, com três advogados, aí de três em três meses próximo da política aí todos nós em Belém, no edifício na Santo Antônio lá em cima assinar o papel, chagava lá todo mundo tacava a caneta lá, olha o monte de papel, todas as políticas a gente tinha que tá lá, olha, vai sair o pagamento de vocês, todo mundo pra lá, chegava lá, assinava tudo, pá, quando foi no final das contas, agora já, ano passado que nós viemos saber que quem pegou esse dinheiro foi o padre primo e olha (gesto com a mão) se arrancou, e hoje nem falam nada mais do dinheiro da indenização da nossa benfeitoria que na época foi válida em 17.000 cruzeiros na época né, o meu sítio, me deram 1.371 cruzeiros, e não deu pra fazer uma casa. (informação verbal).
A partir de 2007, os parentes do senhor Feliciano da Silva Pinheiro retornaram para o território que restava, longe do rio onde ficavam as roças de dentro de seus sítios na época anterior das empresas. Este território, da agora comunidade Sítio Cupuaçu, dos remanescentes Silva Pinheiro, de Boa Vista, está sob disputa com a COHAB e com os Empreendimentos Habitacionais do Programa Minha Casa Minha Vida, da empresa da Senhora Luziane Cravo. Desta forma, não conseguiram na sua totalidade retornar de vez para as suas terras, mantendo apenas suas roças clandestinas e criações de animais.
Os descendentes do senhor Feliciano da Silva Pinheiro, seus oito filhos e netos, esperam o retorno de pelo menos parte do território que lhes pertencia. Eles requereram, junto à Secretaria do Patrimônio da União (SPU), a pequena área que ainda resta. Por várias vezes organizaram tentativas de retorno e, em setembro de 2014, por meio da Associação, iniciaram a ação de retorno, mas sofreram o enfrentamento com a força policial, que os considera invasores.
Em oficina de cartografia, os membros da comunidade elaboraram um croqui que reflete as formas de organização social. No mapa, devidamente georreferenciado, visualizam-se as roças clandestinas, fornos de farinha e carvão.