4.3 System description
4.3.2 Slop water characteristics and volume
dialogismo entre os núcleos criativos implica em uma constante interferência estética e ideológica no trabalho alheio. Sendo assim, toda interferência é delicada e exige maturi- dade dos colaboradores. No caso dos atores, por exemplo, a utilização do depoimento pessoal como material cênico, que é muito comum neste tipo de metodologia, implica, de certa maneira, na acumulação de funções que transforma o ator em ator-autor.
A respeito da autoria no processo colaborativo a atriz Miriam Rinaldi (2006) diz o seguinte:
(. . . ) é preciso reconhecer que a autoria no processo Colaborativo está localizada numa zona de fronteira, de acordos delicados e tensos, pois tenta lidar com as exigências do coletivo, ao mesmo tempo que reclama o reconhecimento individual. Trata tanto da autoria de grupo, à medida que todos são criadores e agentes de múltiplas apropriações e transformações, quanto da autoria articular, que acontece quando determinado artista opera a reunião, a filtragem ou a organização dos materiais apresentados pelo coletivo. (RINALDI, 2006, p.2)
A dinâmica de criação do processo colaborativo implica em um jogo de acordos e proposições. Ou seja, em uma constante relação entre o diálogo e a autonomia. Sendo assim, a autoria no processo colaborativo é construída a partir das múltiplas relações que se estabelecem entre o individual e o coletivo.
No caso do “Leve Supra Cena”, a primeira cena construída pelos alunos sobre o tema surgiu a partir da pergunta Quem eu sou?. Inicialmente essa pergunta serviu como inspiração para a escrita de um texto pedido por um dos professores. No entanto, no diálogo com essa ideia, outro professor solicitou aos alunos que transformasse o texto em cena já que esta pergunta poderia se relacionar ao tema central do espetáculo: O que me modela?
Assim, a partir dessa reflexão inicial, que gerou a produção de uma redação, foi proposta a criação de uma cena individual a ser realizada em forma de depoimento pessoal. Em relação ao depoimento pessoal e a sua relação com a autoria Antônio Araújo (2002) diz que:
o depoimento pessoal não funciona apenas como instrumento de pes- quisa – no caso temática – mas também como o próprio material bruto de concretização da cena. Além de se constituir em um exercício in- terpretativo de caráter investigatório, ele também conclama o ator a
assumir um papel de autor e criador da cena, construída a partir do material que ele mesmo traz para os ensaios. (ARAÚJO, 2002, p.84)
No processo de criação do espetáculo “Dispa-se”, a maioria dos personagens surgiu a partir dessa expressão individual, que foi o depoimento pessoal. Contudo, ocorreu que, em alguns casos, o depoimento pessoal de um aluno serviu como mote para a criação do personagem de outro estudante. Desse modo, como é previsto pelo processo colaborativo, não existiu cena ou personagem que não pudesse ser realizado por pessoa diferente da que a criou. Assim, tudo o que foi criado colaborativamente pertenceu ao processo, e não aos criadores individualmente. A seguir segue a foto de um dos alunos na apresentação de depoimento pessoal do dia 05/05/2015:
Figura 7 – Aluno em cena de depoimento pessoal
O depoimento pessoal desse aluno gerou a criação do seu personagem no espetáculo. A cena inicial apresentada por ele a partir da pergunta “Quem eu sou?” originou a figura de um travesti, que acabou fazendo parte da peça. Na cena de origem, o aluno fazia uma dublagem todo paramentado com uma capa e um salto alto. A partir dessa cena, na qual o aluno esboçava a figura de um travesti, iniciou-se um processo de criação dramatúrgica e de direção orientadas pelos professores para o aprofundamento da história da personagem.
Assim, da mesma forma como ocorreu com esse aluno, os outros estudantes também passaram a investir nas suas cenas individuais com o intuito de encontrar histórias e personagens que pudessem dialogar com o tema do espetáculo: O que me modela? Dessa forma, foi pedido aos alunos que preparassem workshops investindo em determinados personagens esboçados nas primeiras cenas, e em outros casos, inspirados nas cenas dos colegas. Segue a foto do mesmo aluno, já com o personagem construído para o espetáculo:
Figura 8 – Personagem construída a partir de depoimento pessoal
Fonte: Arquivo do grupo. Foto de autor desconhecido tirada em um dos dias de apresentação.
No decorrer desse processo de criação a partir de depoimentos pessoais alguns personagens foram surgindo e deram origem a cenas individuais e/ou coletivas. Na elaboração das cenas, os próprios alunos construíam seus textos, que eram experi- mentados nas apresentações em sala e passados para a equipe de dramaturgia sob a supervisão de um professor.
Todavia, é importante ressaltar que nem todas as cenas criadas a partir de depoimentos pessoais geraram personagens aproveitados pela dramaturgia. Iniciou-se, então, um processo de apropriação no qual uma única ideia de cena poderia ser relida por alunos que, originalmente, não tinham relação com aquela determinada história. Assim, é possível perceber, a partir desse exemplo, que uma das características do processo colaborativo aplicada no “Leve Supra Cena” foi a produção de material de natureza coletiva para o espetáculo.
Ainda em relação à autoria, Rinaldi (2006) aponta:
(. . . ) podemos perceber que a autoria no processo colaborativo não está relacionada apenas à gênese dos materiais, mas à forma como eles se processam e se transformam. No contínuo jogo de dar e receber que acontece entre os atores, existe uma operação autoral de apropriação. Se por um lado esse processo exige desapego do ator – (..)que deve aceitar o corte da cena bem escrita ou mesmo da personagem não realizada, por outro deve ter disponibilidade de fazer da idéia do outro a sua própria. (RINALDI, 2006, p.2)
Pelos exemplos apresentados até o momento, também é possível perceber a importância para o desenvolvimento do trabalho colaborativo da adoção de uma postura autônoma na criação das cenas, bem como a necessidade de que esses mesmos colaboradores estejam dispostos a dialogar verbalmente e esteticamente. E, nesse sentido, é importante observar, que no processo do “Leve Supra Cena” o papel de estimuladores dessa postura autônoma e dialógica, que inicialmente estava nos professores, foi, aos poucos, também sendo redistribuídos aos alunos.
Com isso, os estudantes foram percebendo, ao longo da produção das primeiras cenas que eles não podiam se omitir diante do que era proposto, uma vez que somente uma cena melhor poderia refutar uma cena anterior. Essa dinâmica, que é própria do processo colaborativo, foi proporcionando aos alunos um espaço de fala cada vez maior. As vozes do coletivo foram se manifestando na medida em que as discussões sobre o tema foram se aprofundando.
Nessa fase do trabalho, na qual os personagens estavam começando a se consolidar, o treinamento passou a ser mais focado na questão da construção desses personagens. Ou seja, diferentemente do que ocorreu inicialmente, com um treina- mento mais amplo, a segunda fase de treinamento permitiu aos alunos verticalizar os conhecimentos adquiridos até então.
A construção dos personagens foi orientada pelos professores na medida em que eram criados. Assim, embora o grupo tenha se dividido em núcleos de criação, cada grupo de alunos possuía um dos três professores como responsáveis que dividiam a liderança com mais um ou dois alunos, dependendo da área. Um dos alunos fez a
seguinte declaração acerca da sua relação com o Processo Colaborativo até aquele momento:
Esse trabalho de fazer as coisas em grupo, sem existir um “chefe” vai me ajudar a ser menos mandão e autoritário. Tive uma curta experiência com o “processo colaborativo (não chegou a ser, de fato, o processo colaborativo mas estava nesse rumo. . . ) e não foi tão bom. Mas até agora na oficina está sendo bem interessante” (Aluno do “Leve Supra Cena”, em notas do seu diário de bordo no dia 14/05)
A fala desse aluno exemplifica um fenômeno que foi sendo revelado ao longo do processo. À medida em que os alunos criavam juntos e tinham que dialogar e propor eles foram se autoconhecendo. E, ao se autoconhecerem puderam descobrir a importância das suas vozes dentro do coletivo.