5.1 Normal well slop water management impact assessment
5.1.1 Offshore injection disposal system impact
“Teatro pode ser feito em qualquer lugar. O teatro pode até ser o lugar.” Aluna do Leve Supra Cena13
Nesta etapa de construção do trabalho, também foram feitas experimentações na rua propostas por um dos professores. Essas experimentações deram origem a alguns textos, cenas e personagens que foram para o espetáculo. O diálogo com a rua teve muita relevância para a discussão do tema, uma vez que aproximou a temática do espetáculo aos espaços da cidade e proporcionou aos alunos e aos professores uma reflexão sobre o lugar em que vivem. Uma das alunas fez a seguinte observação sobre a reflexão de leitura de espaço proposta por um dos professores:
De fato, nunca havíamos estudado o “espaço” como um meio que também provoca mudanças em nós mesmos (. . . ) Compreendemos o quanto nós moldamos o espaço e o quanto ele também nos molda. Diversas vezes nos colocamos em diferentes lugares e pontos de vistas para entender e perceber todos os lados de uma mesma situação – tanto no palco e na rua, como em qualquer ambiente, fisicamente e psicologicamente falando. Com isso, percebemos como invisibilizamos muitas coisas e muitas pessoas presentes no espaço automaticamente ou até por comodismo. ( Relato de uma das alunas em texto produzido no dia 16/03/2016)
Durante a oficina, uma série de exercícios foram aplicados com o intuito de ampliar a percepção dos alunos acerca dos espaços da cidade. A reflexão sobre a
13 Citação retirada de uma entrevista que a aluna concedeu a uma outra estudante sobre os procedi-
espacialidade e sobre o espaço urbano bem como a sua utilização do ponto de vista cênico é uma das discussões presentes no processo colaborativo, principalmente por grupos como o Teatro da Vertigem, que já realizou espetáculos em hospitais, igrejas e no rio Tietê (São Paulo). Araújo (2008) faz o seguinte relato sobre a encenação do espetáculo O livro de Jó em um hospital:
Entre outros procedimentos, a direção idealizou formas de se aproximar do lugar, de “entrar” em seus interiores, de perceber a sua “respiração”, a fim de descobrir o teatral dentro do arquitetônico, de trabalhar a sua atmosfera e memória como recursos para a interpretação dos atores, e ainda, de experimentar diferentes trajetórias espaciais para o espetáculo que dialogassem com a estrutura da dramaturgia. Para tanto, o grupo destinou dois meses de ensaio, antes da estréia, apenas ao processo de ocupação e apropriação cênica do hospital. (ARAÚJO, 2008, p.100)
No caso do “Leve Supra Cena”, alguns lugares da cidade foram utilizados para a realização dos exercícios de percepção e intervenção. Embora o espetáculo não tenha se realizado na rua, vários elementos encontrados pelos atores nos espaços urbanos serviram de recursos para a criação dos atores. Seguem imagens de dois momentos de intervenção:
Figura 9 – Intervenção realizada em um parque de Brasília
Nesta foto, os alunos estão em um parque localizado em Brasília. Neste local, eles realizaram ações interventivas inusitadas como andarem em fila indiana ou em duplas com os pés grudados. As ações inusitadas chamavam a atenção das pessoas que estavam caminhando, uma vez que interferiam na lógica esperada por elas para aquele lugar. Ainda neste espaço, os alunos realizaram observações e entrevistaram pessoas que passeavam pelo local. As proposições relacionadas ao espaço foram conduzidas por um professor a partir do seu objeto de pesquisa e em diálogo com o tema do espetáculo.
Além da sensibilização dos alunos para os espaços da cidade, os exercícios também ampliaram a visão dos estudantes sobre a utilização do espaço no teatro. Desse modo, eles puderam perceber que o fenômeno teatral poderia ocorrer em qualquer lugar.
Segue a foto de um dos alunos feita por um professor na intervenção urbana que propunha participação dos transeuntes. Os alunos pediam que os passantes regassem o aluno. Essa cena integrou o espetáculo e foi adaptada ao espaço fechado:
Figura 10 – Intervenção urbana realizada em um parque de Brasília
Fonte: Arquivo pessoal do grupo. Foto tirada pelo professor Hugo Nicolau.
Além do parque da cidade, foram realizadas experimentações na rua W3, tam- bém localizada em Brasília. Abaixo segue a foto de um dos alunos em sua intervenção
na qual estava trajado como um morador de rua:
Figura 11 – Intervenção urbana realizada em uma rua de Brasília
Fonte: Arquivo do grupo. Foto tirada por Gabriel Paulin.
O personagem criado pelo aluno registrado na foto acima surgiu a partir da experimentação do estudante em uma rua de Brasília. A experiência como morador de rua foi incorporada ao espetáculo. Muitos elementos que ele encontrou ao vivenciar o personagem na rua foram levados para a cena como, por exemplo, a questão da visibilidade e da invisibilidade de moradores de rua.
A partir dessas intervenções nas ruas, os alunos ampliaram a sua percepção acerca do espaços da cidade, bem como acerca da relação dos homens com essa cidade. Observaram, por exemplo, o quanto o ser humano é capaz de tornar invisíveis outras pessoas ou outras coisas dependendo do ponto de vista que adotam. Em relação a essa atividade, uma das alunas diz o seguinte:
Logo depois saímos em duplas para observar (o aluno) que estava de mendigo. No início do exercício não aconteceu nada (. . . ) (O aluno) atravessou a pista e os policiais logo perceberam ele (. . . ) Quando os policiais estavam chegando perto dele percebi como estava “invisível”
até aquele momento. (Relato de uma das alunas em diário de bordo no dia 21/05)
É importante ressaltar que, com esse exercício, os alunos também tiveram a oportunidade de exercitarem a sua autocrítica. Ao observarem a reação de outras pessoas acerca do que estava acontecendo, eles puderam se perguntar como eles mesmos reagiriam naquela determinada situação.
Assim, a exploração do tema para a construção do espetáculo proporcionou aos alunos uma percepção que foi muito além do estudo da linguagem cênica. As atividades propostas promoveram uma reflexão do aluno sobre si e sobre o meio. Certamente, é possível observar também o quão amplo pode ser um campo de pesquisa em teatro quando estes campos partem de temas geradores ao contrário de textos dramáticos propriamente ditos.
Dessa forma, a partir das proposições dos alunos em sala de ensaio e no espaço urbano surgiram os primeiros canovaccios propostos pela dramaturgia. Tratavam-se, portanto, de roteiros de trama larga que dialogavam com as propostas de cenas já esbo- çadas pelos alunos. A cada aula esses roteiros eram experimentados e redesenhados a partir de ideais que foram surgindo no decorrer dos ensaios e intervenções.