4.6 Inventory assessment
4.6.3. b. DAF treatment system inventory
O diálogo sela o ato de aprender, que nunca é individual Paulo Freire1
Os conceitos de diálogo e autonomia foram igualmente importantes para o desenvolvimento desta pesquisa. Se por um lado, o objeto de estudo deste trabalho é o processo colaborativo no seu conjunto, por outro, é importante ressaltar que esses dois conceitos específicos, presentes na metodologia, destacam-se do ponto de vista pedagógico. Sendo assim, percebe-se que uma reflexão acerca desses dois conceitos é tão importante quanto à análise e a contextualização do processo colaborativo em si.
Dessa forma, para discorrer sobre esses assuntos são utilizados neste trabalho, em especial, os pensamentos de Paulo Freire2, expressos em algumas de suas obras
como, por exemplo, a Pedagogia da Autonomia (2015) e o pensamento de Mikhail Bakhtin3, revelados em algumas de suas obras e por meio de artigos reunidos pela
pesquisadora Beth Brait (2005), que é especialista na obra de Bakhtin no Brasil. No caso de Bakhtin, incluem-se as análises dos conceitos de dialogismo4e polifonia5que se
relacionam diretamente ao que é discutido do ponto de vista do processo colaborativo. Embora Freire (2015) seja reconhecido, principalmente, como um pensador na área da pedagogia e Bakhtin (2005) na área da linguística e da literatura, a opção por utilizá-los, nesta pesquisa, deve-se ao fato de ambos discorrerem sobre esses conceitos de uma forma apropriada e correlata a maneira como eles se manifestam na prática do processo colaborativo. Ou seja, a diferença de contexto de atuação entre os dois autores não invalidam as suas contribuições para a compreensão da autonomia e do diálogo na metodologia estudada.
1 Paulo Freire no livro Medo e Ousadia (1986).
2 Paulo Freire foi um dos mais importantes educadores brasileiros. Seu pensamento propunha uma
prática de sala de aula que pudesse desenvolver a criticidade dos alunos. Mesmo após a sua morte, sua obra continua sendo referência para educadores do mundo todo. Para Freire, a educação deveria ser uma arma de libertação que conscientizasse o aluno e que fizesse com que este saísse da sua possível condição de oprimido.
3 Mikhail Bakhtin foi um filósofo russo que revolucionou a linguística no século XX. Um dos pontos de
maior destaque da sua obra é a concepção de linguagem como um processo de interação mediado pelo diálogo no qual o verbal e o não-verbal influenciam na construção dos discursos.
4 O dialogismo seria o fator mais importante da língua para Bakhtin.
É sabido que o processo colaborativo é dialógico por natureza. Por se tratar de um processo artístico, sabe-se também que tal dialogismo tem características verbais e não-verbais. O compartilhamento de lideranças é um dos procedimentos que mais se destacam nesta metodologia do ponto de vista do diálogo. A busca por uma horizontalidade nas relações implica em estar aberto ao jogo interativo. Isso ocorre porque somente o diálogo entre as lideranças permite que o processo siga o seu curso. É importante destacar, no entanto, que a apropriação do conceito de diálogo nesta pesquisa é feita de maneira diferente nos dois autores escolhidos. No caso de Mikhail Bakhtin, o dialogismo6é utilizado para descrever a dinâmica de interação da linguagem
como um todo, já em Paulo Freire a reflexão se relaciona à educação dialógica. A flexibilização das hierarquias, presente no processo colaborativo, implica na participação mais ativa e autônoma de todos os colaboradores. Isso se deve ao fato de não haver uma única figura centralizadora das decisões. Certamente, é possível entender que o jogo interativo proposto por essa metodologia requer colaboradores que estejam dispostos a se envolverem de maneira ativa dentro do processo. Sendo assim, ocorre que cada colaborador torna-se responsável por suas próprias escolhas dentro do trabalho sem que haja a necessidade de uma autoridade que determine as suas ações. Percebe-se, portanto, que se trata de uma metodologia que tem o diálogo e a autonomia como elementos que coexistem e se relacionam.
Do ponto de vista da utilização do processo colaborativo como metodologia de ensino existem alguns apontamentos na literatura que revelam seus benefícios. A respeito da aprendizagem colaborativa , as pesquisadoras Patrícia Lupion Torres (2014) e Esrom Adriano F. Irala (2014), em Aprendizagem colaborativa: Teoria e prática, afirmam:
(. . . ) se reconhece nessas metodologias o potencial de promover uma aprendizagem mais ativa por meio do estímulo: ao pensamento crítico; ao desenvolvimento de capacidades de interação, negociação de infor- mações e resolução de problemas; ao desenvolvimento da capacidade de autorregulação do processo de ensino-aprendizagem. Essas formas de ensinar e aprender, segundo seus defensores, tornam os alunos mais responsáveis por sua aprendizagem, levando-os a assimilar conceitos e a construir conhecimentos de uma maneira mais autônoma.(TORRES; IRALA, 2014, p.61)
Embora Torres e Irala não discorram no artigo, especificamente, sobre o trabalho colaborativo teatral, é possível afirmar, a partir das características gerais apontadas, que este tipo de processo possui os seus benefícios do ponto de vista pedagógico. Segundo
6 O dialogismo, para Bakhtin, pressupõe um jogo de tensões entre dois discursos. Não há necessaria-
os seus defensores, ao valorizar o papel da interação e da autonomia no processo de ensino aprendizagem, o processo colaborativo pode estimular o aluno a ampliar a sua visão de mundo instituindo uma cultura da colaboração.