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3.7 Om boka og mitt valg av bok

3.7.1 Skriv i sanden

Tal qual se apresenta em fóruns e enquetes do Orkut, o namoro virtual converteu-se num fenômeno a ser discutido e questionado. Até aqui, tal aspecto parece não oferecer objeções, embora seja ainda imprescindível levantar uma questão: em que se enredam tais debates? Trata-se de uma resposta complexa. A parte III desta pesquisa estará ocupada em sugerir respostas. Por agora, inferimos que as discussões sobre namoros virtuais estão envoltas por um discurso permeado pelas emoções. Esse argumento não é em nada original, caso consideremos, como Le Breton (2009), que arranjos sociais (no nosso caso, os fóruns e as enquetes) são também arranjos emocionais185. Já vimos, na perspectiva desse antropólogo, que todas as ações humanas são baseadas em sentimentos, sejam elas quais forem. A relação do homem com o mundo é orientada por emoções186. É, portanto, com base nessa referência

185 Segundo Illouz (2010, p. 10-11), é trivial dizer que “a divisão e a distinção mais fundamental que organizam

quase todas as sociedades do mundo – a divisão que existe entre homens e mulheres – baseiam-se nas culturas afetivas (e se reproduzem através delas). Ser um homem de caráter exige que o indivíduo demonstre coragem, racionalidade fria e agressividade disciplinada. A feminilidade, por outro lado, requer bondade, compaixão e otimismo. A hierarquia social produzida pelas divisões de gênero contém divisões afetivas implícitas, sem as quais homens e mulheres não reproduziriam seus papéis e identidades”.

186Nessa abordagem, não há como separar, por exemplo, razão e emoção, isso porque “mesmos as decisões mais

racionalizadas envolvem afetividade [...]. O coração e razão, longe de dispersarem, entremeiam-se de forma necessária”. (LE BRETON, 2009, p. 112).

teórica que tomamos as emoções enquanto produtos permanentes dos fóruns e das enquetes que discutem namoros virtuais.

Nesses espaços de discussões, a emoção torna-se uma categoria através da qual se põem em prática as definições culturais da individualidade, tal como se expressam em relações concretas e imediatas, isto é, tais emoções, que surgem nesses espaços de debates, passam a revelar o eu e a relação do eu com outros culturalmente situados. A tese que se defende aqui é aquela em que a vida afetiva impõe-se, mesmo que de forma inintencional, nos debates sobre namoros virtuais e as emoções se incidem de tal modo que, ao final, expressam- se formas variadas de individualidades. Elas materializam-se num discurso sobre o amor, a dor, a alegria, a felicidade, a angústia, a tristeza, o sofrimento etc.

Em suma, estamos tratando as emoções como personagens centrais dos debates sobre namoros virtuais no Orkut. Nesses fóruns e enquetes, os debatedores trazem o eu e suas relações com os outros para o primeiro plano. Isso ocorre dessa maneira porque a própria estrutura na qual se travam os debates engendra tal empreendimento. De maneira geral, trata- se de uma condição operada pela própria internet, isto é, o eu aparece em primeira instância porque a produção afetiva e pública do eu está sustentada nos recursos oferecidos pela tecnologia da internet. É assim que os debates sobre namoros virtuais tornam-se também práticas sociais que convertem a experiência privada em discurso público.

Façamos um parêntese para observar que os conceitos de esfera pública e privada da vida têm sido centrais no pensamento político do Ocidente, ao menos desde o século XVIII. Em alguns aspectos, eles têm sua origem no pensamento grego clássico. Segundo Sennett (1988, p. 30), “as primeiras ocorrências da palavra público em inglês identificam o público com o bem comum na sociedade. Setenta anos mais tarde, havia-se acrescentado ao sentido de

público aquilo que é manifesto e está aberto à observação geral”, enquanto que a noção do

privado remetia para “uma região protegida da vida, definida pela família e pelos amigos”. Estava intimamente ligada à noção de individualidade, na medida em que surgia da percepção da separação entre o eu e o mundo. Relacionava-se também ao desenvolvimento da noção de subjetividade.

A respeito dessas noções, a filósofa política Susan Moller Okin (2008, p. 305) defende uma perspectiva que nos é bastante cara. Segundo ela, “perpetua-se a ideia de que tais esferas [público e privado] são suficientemente separadas, e suficientemente diferentes a ponto de o público ou o político poderem ser discutidos de maneira isolada em relação ao privado ou pessoal”. Contudo, o que Okin (2008) defende na verdade é que os termos público e privado dependem do contexto histórico em que são utilizados, já que “algo que é público em relação

a uma esfera da vida pode ser privado em relação a uma outra”, existindo uma “multiplicidade de significados, ao invés de um significado dual”. (OKIN, 2008, p. 307). Com base nessa asserção, sustentamos que a emergência de fóruns e enquetes vem levantar novas questões sobre distinções prévias entre as esferas pública e privada. A consequência de tal argumento obriga-nos a formular novas questões, mesmo sem a pretensão de respondê-las: como tais noções são usadas hoje? Que novos significados oferecem?

Para os propósitos desta pesquisa, o que deve ser levado em conta é que as definições atribuídas às noções de público e privado estão sendo criadas e negociadas no cotidiano das relações entre indivíduos na internet. O que se quer defender, aqui, é que as atuações humanas públicas ou privadas não se qualificam por si mesmas, mas pelo cenário no qual têm lugar. A questão que surge hoje é a da possibilidade de novas configurações de privacidade ou

publicidade que ultrapassem o sentido atribuído desde suas origens e que tornem as antigas

definições carentes de atualização. (THIBES, 2008). Nos fóruns e enquetes, estão presentes muitos elementos da vida privada das pessoas. Entretanto, tais elementos são revelados não por que os indivíduos sejam ingênuos ou desejem aparecer, mas por que a própria dinâmica desses fóruns e enquetes é estruturada de modo a revelar a vida pessoal dos usuários. Haveria, decerto, um embaralhamento nas fronteiras do que se toma por público e privado, principalmente em face de um material altamente subjetivo, considerado íntimo, que se posta, de variadas formas, em fóruns e enquetes do Orkut.

Após essa digressão sobre as noções de público e privado, precisaríamos retornar à discussão que a deu início, embora a esse ponto necessitemos, de igual modo, chamar a atenção para outro aspecto bastante relevante, qual seja: o contexto em que se inscreve o fenômeno das discussões sobre namoros virtuais em fóruns e enquetes é aquele que reflete outro fenômeno em particular: o processo de racionalização das relações íntimas, o qual surge a partir da emergência das literaturas de aconselhamento, cujo fenômeno se estende, doravante, para outros campos, como grupo de apoio, programas de entrevistas, aconselhamento, sessões terapêuticas ou internet. É provável que literatura e locais sociais de aconselhamento tenham juntos desempenhado um papel importante na configuração dos vocabulários pelos quais o eu compreende a si mesmo. São produtos contemporâneos que fazem um relativo sucesso, mas se são significativas é por que apontam para uma importante transformação cultural da conduta do eu nos relacionamentos íntimos, o que resultou ainda na ascensão de novas normas de igualdade ou liberdade, transformando a textura afetiva desses relacionamentos.

Nessa conjuntura, o eu, a vida e os sentimentos converteram-se em objetos comensuráveis, isto é, os relacionamentos íntimos, no nosso caso os namoros, transformaram- se, nos fóruns e nas enquetes, em eventos a serem expostos, analisados, avaliados e questionados de acordo com uma dada métrica. Esse fator ocorre também porque o modo como funcionam os fóruns e as enquetes, através da escrita, mobiliza os internautas à reflexão. Já foi referido que em sendo as mensagens, nesse tipo de comunicação, trocadas sob a forma de textos escritos, ocorre a possibilidade de um maior controle reflexivo sobre o conteúdo destas, o que facilita, por exemplo, a confecção de uma resposta mais adequada, já que há uma melhor compreensão responsiva. A leitura, todos sabem, propicia uma melhor compreensão que a audição, mas também a resposta é produzida de forma escritural e, assim sendo, o ato objetivo de responder e, consequentemente, a compreensão responsiva como um todo são afetados. Dito de outra forma, a natureza escrita desse tipo de comunicação afeta de forma especial tanto o ato de tomar posse dos conteúdos da interpelação do emissor quanto o ato de construção da resposta do receptor. (JUNGBLUT, 2004). Nos fóruns e nas enquetes, isso se dá em função de um forte entrelaçamento da textualidade com a experiência afetiva.

A escrita emocional faz o indivíduo desligar-se do caráter fluído e não reflexivo da experiência. Os fóruns e as enquetes transformam a experiência afetiva em palavras escritas e, dessa forma, num conjunto de entidades analisáveis e manejáveis. Através deles, os namoros virtuais tornam-se objetos a serem pensados, expressados, abordados, discutidos e justificados. Nesses fóruns e enquetes, os indivíduos participam da esfera pública através da interpretação e da exposição de sentimentos privados e, desse modo, reescrevem a história de sua vida (ou trechos delas). Ao reescreverem suas histórias, como veremos no capítulo IV, esses indivíduos privilegiam as histórias de amores felizes. No momento que recriam, reinventam tais histórias, optam pelos eventos alegres, o que é considerado mais um indício de que são espaços de ficção, espaços para contar vidas, para vivê-las de forma diferente.

É nesse sentido que os debates sobre namoros virtuais se adaptam particularmente bem ao gênero autobiográfico. Com efeito, na autobiografia que descreve namoros virtuais, o eu é descoberto e expresso na experiência do amor e na compreensão dos sentimentos que se adquirem ao contar a história. Os debates sobre o amor servem para constituir a identidade da pessoa em questão (uma identidade sempre móvel, momentânea e situacional). Desse modo, as discussões sobre namoros virtuais revestem-se de instrumentos muito eficazes para estabelecer a coerência e a continuidade do eu e para construir um relato capaz de abarcar várias etapas dos ciclos de vida. Os debates que ali se travam são performáticos e, nesse sentido, são mais do que histórias: reorganizam a experiência, ao narrá-la. O que queremos

defender, aqui, é que tanto a ideia de amor quanto o eu estão no centro desses debates sobre namoros virtuais e, desse modo, entrelaçam-se com um projeto de autoconhecimento, não sendo possível separar os debates sobre namoros virtuais dos debates sobre amor e eu.

Afirmamos que os debates sobre namoros virtuais estão fortemente relacionados com a modernidade tardia, tema de nosso próximo capítulo. Como veremos a seguir, a

modernidade tardia conclama os indivíduos a prestarem uma atenção muito mais criteriosa ao eu. Os fóruns e as enquetes, ao seu modo, abordam a natureza volátil da identidade e das

relações sociais na modernidade tardia, no sentido de que podem servir também para estruturar biografias divergentes, proporcionando uma tecnologia para conciliar a individualidade com as instituições em que ela atua, para lidar com as rupturas que se tornaram inerentes às biografias modernas e, o que talvez seja o mais importante, para preservar a posição e o sentimento de segurança do eu. Podem mobilizar, por fim, os esquemas culturais da individualidade e ordenar a estrutura caótica das relações sociais.