• No results found

SKOLENS ORGANISERING FOR PEDAGOGISK BRUK AV IKT

In document Monitor 2011 Skolens digitale tilstand (sider 132-138)

Xaquín S. Rodríguez Campos

O turismo cultural internacional invade hoje todas as nações do planeta, atraído pelo desejo de contacto com o extenso e diverso património existente. Pensa-se, com alguma frequência, que o turismo é um dos grandes inimigos da conservação do património cultural dos povos, dado que contribui para a homogeneização de estilos de vida e leva as gentes a abandonar os meios de vida tradicionais para se dedicar ao comércio e aos serviços turísticos. Mas hoje podemos considerar que o grande inimigo da preservação dos patrimónios culturais (e das identidades locais) já não é, como aconteceu no passado, o progresso social das populações, mas uma certa aversão política às tradições da cultura popular, proveniente, em parte, do poder político central dos estados modernos e, por outro, das forças económicas do capitalismo industrial.

Poderemos assim continuar a apoiar as ideias que Claude Lévi-Strauss expressa em Tristes Trópicos, onde afirmava que os inimigos que desejam a destruição das tradições e os seus patrimónios não são os viajantes que as procuram para se purificar, e se escandalizam com a destruição sobre elas cometida, mas são antes os próprios estados nos quais essas culturas estão integradas, e que sentem por elas "espanto e repugnância" (1976:29). Anos mais tarde, num famoso discurso pronunciado na UNESCO, em 1971, Lévi-Strauss referiu-se às quimeras que o mundo ocidental alimenta relativamente à sua suposta capacidade de fácil assimilação de outras culturas, advertindo para os perigos do etnocentrismo e do racismo a essa utopia pode conduzir:

"Convido os meus ouvintes a duvidar com prudência, e com melancolia se o desejarem, da chegada anunciada de um mundo no qual as culturas, tomadas por uma paixão recíproca, aspiram a celebrar-se mutuamente, numa confusão na qual cada uma perderia o atractivo que podia ter para as outras, além da a sua própria razão de existir (Lévi-Strauss, 1984: 15).

Os estados europeus não podem ser considerados uma excepção no que diz respeito às políticas de assimilação das diferenças culturais e distinções identitárias. Basta uma simples observação das frequentes discussões que têm hoje lugar sobre a não aceitação do uso da indumentária islâmica nas instituições educativas francesas ou espanholas para compreender a facilidade com que as identidades europeias se

sentem ameaçadas pela proximidade das identidades "orientais", sobretudo quando estas expressam visões divergentes sobre a condição humana. Porém, quando se sentem ameaçadas, e apesar da sua suposta flexibilidade para gerir diferenças culturais, as sociedades europeias não renunciam ao que consideram ser a sua razão própria de existir.

Alguns estados ocidentais, como o espanhol, mostram ver com desconfiança o que pensam ser uma perturbação aos costumes nacionais causada pela presença invasiva de turistas no interior das suas fronteiras – apesar de, desde os anos sessenta, esse turismo se ter revelado um importante recurso económico. Em geral, podemos afirmar que os Estados europeus modernos viveram num forte isolamento cultural até o último terço do século XX, preservando com orgulho as suas fronteiras, cultivando um grande número de tópicos negativos sobre o carácter nacional das nações vizinhas, sublinhando a cada passo uma superioridade moral própria. Em cada Estado apenas se preservavam como patrimónios culturais os que constituíam representações da unidade cultural da nação-Estado. A reflexão intelectual sobre o carácter nacional espanhol tendia a nunca distinguir entre galegos e catalães, da mesma forma que, no Reino Unido, se preferia não insistir nas diferenças entre escoceses e ingleses.1

No referido contexto, o turismo, caracterizado como um movimento pendular unilateral de pessoas procedentes dos estados mais ricos para os mais pobres, constituiu uma experiência esxpontânea que viria a romper o isolamento cultural das nações mais pobres, motivando um encontro, nem sempre isento de tensões, entre várias populações europeias. Numa entrevista recente, um autarca que foi presidente da câmara da cidade espanhola de Benidorm durante os anos sessenta (uma cidade da costa mediterrânea espanhola que mais cedo se abriu aos turistas europeus) lembrava as dificuldades por que passou para convencer Franco a não impedir as turistas estrangeiras de usar biquini nas praias do concelho. Uma versão actualizada do etnocentrismo espanhol continua patente nos frequentes tópicos populares que denunciam a perturbação cultural sofrida pelas populações da costa mediterrânea com a chegada de europeus que ali residem agora. Hoje, comprova- se que a realidade da integração dos europeus em zonas de Levante e da Andaluzia é muito mais variada, rica, recíproca e dialogante com a população espanhola do que as anteriores crenças populares faziam supôr.

1 O pensador espanhol Salvador de Madariaga, exilado em Inglaterra nos tempos da ditadura de

Franco, não foi uma excepção dessa produção dos caracteres nacionais (espanhóis, franceses, ingleses, etc.) porque, para a mentalidade da época, "uma nação é sempre um carácter", uma uniformidade psicológica não questionável (Madariaga, 1973: 94).

O suposto carácter superficial do turista que calcorreia uma nação sem dela nada entender continua a ser uma ideia muito comum, derivada das já referidas tendências isolacionistas e etnocêntricas das nações europeias, provindo de uma época em que estas se encontravam relacionadas por meio do comércio mas não por meio da cultura. As próprias culturas periféricas existentes no interior destes Estados-nação foram votadas ao esquecimento, desprezadas pelo poder político central, que apenas valorizava as danças folclóricas e as gastronomias regionais como manifestação da diferença cultural. A superficialidade da cultura nacional gerada pelo Estado só reconhecia o outro enquanto objecto mercantil, privado de um sentido profundo de cultura.

Hoje, nas nações ocidentais há uma nova cultura dita erudita que promove as identidades colectivas assentes no direito universal à conservação da especificidade cultural dos povos. O direito a conservar a própria cultura é afirmado em conexão com outros direitos da nova cidadania ilustrada, como o direito à protecção ambiental ou o direito ao lazer. Na modernidade recente, o conceito de cultura converte-se assim, não numa utopia romântica, mas num programa pragmático para uma demanda política organizada por parte dos cidadãos, que assim constroem solidariedades comunitárias que se convertem em organizações para reclamar direitos cívicos. Como observa o antropólogo Terence Turner, a diferença cultural afirma-se hoje como uma nova base de legitimidade para o activismo cívico (Turner, 1999: 65). O conceito de cultura é absorvido pelo jogo do poder, servindo para questionar a legitimidade dos sistemas políticos vigentes transformando a cultura em em arma de arremesso político dessas cidadanias ilustradas contra as formalidades do sistema. Os povos alcançam, desta forma, o direito a preservar os patrimónios culturais para consolidar, a partir deles, uma leitura própria da história nacional e também uma politização da acção cívica.

A descoberta dos patrimónios culturais periféricos é entendida como algo politicamente perigoso para os Estados nacionais, na medida em que confere legitimidade cultural a movimentos políticos de cidadania. Estas vêm questionar, por um lado, a racionalidade dos sistemas políticos liberais e por outro, os interesses económicos do capitalismo industrial que desejam reduzir a cultura e a paisagem a valores materiais, e transformá-los em carapaças ocas. A questão que devemos então colocar é: como é possível contestar, por dentro, os programas culturais dos sistemas político-partidários, a politização da cidadania e questionar o poder dos Estados centralizados?

In document Monitor 2011 Skolens digitale tilstand (sider 132-138)