Os relatórios dos trabalhos de campo são escritos à secretária com base em apontamentos diários e transcrições. A aproximação interpretativa e narrativa relacionada com Felisberto foi para mim a mais difícil. Dele tenho, sem sombra de dúvida, a maior quantidade de material e tive a sensação de que me estava a afundar num verdadeiro mar de textos transcritos.
Foi difícil encontrar o ponto-chave que me conduziu até Felisberto. As circunstâncias externas dos meus encontros com ele contam-se em poucas palavras. Visitei-o várias vezes na sua pequena casa, situada na estrada que vai de Vila Nova de Milfontes para Odemira. Sentávamo-nos no sofá, eu ligava o gravador e Felisberto começava a contar. Contos tradicionais, quadras, décimas, anedotas, adivinhas e as histórias da sua vida entrelaçavam-se num longo monólogo sem paragens, parecendo apenas cortado pelo fim das fitas magnéticas.
Felisberto falava da sua infância como orfão, do medo que tinha de morrer à fome, do trabalho para o seu patrão como trabalhador agrícola e da ditadura, da polícia política e da exploração económica. Contava contos sobre mundos mágicos, nos quais as coisas se transformavam, aconteciam milagres e outras coisas inacreditáveis. Falava de almas penadas, de mortos-vivos, de mau olhados e da forma como ele esconjurava estas e outras desgraças com benzeduras. Pelo meio, exclamava: "Dá-me um fundamento"; eu dizia "fome" ou "a estrada" ou "jardim do mundo", e ele imediatamente recitava uma quadra feita sobre a minha "deixa". Falava sobre a vida do poeta que vai fazendo as suas quadras enquanto trabalha atrás dos seus bois; dizia que o mais difícil não é o fazer as quadras, mas sim memorizá-las.
As minhas gravações sonoras das vozes dos poetas do Sudoeste contêm muitas vezes elementos incómodos. No caso de Dimas Duarte e do Mestre Boavista, ouvem-se ruídos de fundo da aldeia ou da paisagem rural – um cão que ladra, um trovão, uma voz que chama alguém. No caso das gravações do Felisberto, os ruídos de fundo condensam-se num só soundscape. Entrelaçadas nas suas declamações e nas minhas perguntas, ouvem-se automóveis, camiões, e motorizadas que passam por nós, aproximam-se velozes e afastam-se em ritmos irregulares, distintos. Este soundscape define para mim o ponto central no mapa "poético-político"dos meus encontros com o Felisberto, que é a intersecção entre o moderno – a via rápida – e o fenómeno cultural da poesia popular. Felisberto encaixa assumida e perfeitamente na categoria clássica do "poeta popular", no sentido em que se coloca conscientemente de um dos lados de um jogo dicotómico que distingue tradição/ moderno, nacional/regional, povo/elite, letrado/iletrado, oral/escrito, popular/ erudito, etc. A "poética cultural" da sua poesia e a "poética cultural" da poesia popular tomada como objecto científico e parte integrante de uma identidade nacional encontram-se em interdependência directa, e resolutamente no campo da política.
Na leitura das transcrições das conversas que tive com Felisberto, despertou- me a atenção uma das passagens da história da sua vida, que eu espontaneamente tinha entendido apenas como prova da sua extraordinária memória. Certa vez, recitou-me de memória, em cadência acelerada, uma história que tinha lido num livro escolar do tempo do Estado Novo. A análise posterior das transcrições tornou clara para mim uma outra dimensão deste exercício. O ponto de partida da nossa conversa que deu lugar à recitação foi a história sobre o modo como o Felisberto aprendeu a ler. Quando era ainda rapaz, punha-se a escutar atrás da porta do patrão quando este ensinava a sua filha a ler. A curiosidade do jovem chamou a atenção do patrão, que lhe trouxe um livro escolar da longínqua vila de Odemira, descontando-lhe o preço do salário mensal de 15 escudos. Contudo, o patrão não o
ensinou a ler, esta tarefa foi desempenhada por um "ganhão" quando se juntavam no palheiro à noite, para dormir, depois do dia de trabalho que ia desde o nascer até ao pôr-do-sol.
A obsessão do Felisberto por aprender a arte de ler e as condições sociais em que a aprendeu, espelham a estranha história no livro escolar que ele me recitou de memória, a de um casal de turistas ingleses descobrem um pequeno pastor que lia enquanto guardava o gado, ficam tão comovidos que propõem à sua família levá-lo com eles para Londres. O jovem consegue chegar à universidade, tira um curso, torna-se bibliotecário e acaba por comprar uma casa para a sua mãe, na aldeia de onde tinha sido levado.
Também o jovem Felisberto se tornou num homem das palavras, não escritas mas orais, bibliotecário de uma biblioteca viva com obras próprias e aprendidas, que ele guarda no cérebro e convoca quando lhe são requisitadas. Mas, ao contrário do seu alter ego, o pastor da história do livro escolar que recebera do patrão, não enriqueceu, nunca pôde ultrapassar as barreiras de classe, apesar de todos os seus esforços e das suas evidentes capacidades. Os "ingleses", como eu, passam agora por sua casa, mas a oportunidade de ser "descoberto" foi entretanto perdida: Felisberto não passa de um poeta popular; reduzido a esta função. Os "ingleses" que visitam Almograve podem assim continuar seguros da sua identidade nacional e classe social.
Artigos dos jornais que ele me mostra, orgulhoso, são prova da sua fama de poeta. Num artigo de 1976, Felisberto é apresentado por um comandante da Revolução de Abril, que passou um serão sua na companhia em Almograve, como a personificando a inspiração latente de todo um povo injustiçado e revolucionário. Em 1996, foram publicados no quinzenário Maré Alta dois artigos folclorísticos sobre ele. Um elogia a "inspiração do povo", e vem ornamentado com as quadras do Felisberto; o outro relata, desta vez em alemão, a figura "feliz Berto", destacando os seus conhecimentos no campo das plantas medicinas. Feliberto conhece bem o valor filológico da sua poesia. Mostrou-me um volume da colecção Riqueza dos
Falares Originais que lhe foi oferecido pessoalmente pelo seu compilador, Manuel
João da Silva. Os contos aí apresentados e comentados filologicamente jogam com as diferenças de classe entre alentejanos e lisboetas, que são supostamente niveladas por meio das particularidades linguísticas do falar alentejano.
Uma tarde, durante uma das nossas conversas, entrou em sua casa um lisboeta, com talvez cinquenta anos, usando calções azuis e uma camisa de marca Lacoste que evidenciava a grande barriga. Foi nesta ocasião que tive a oportunidade de apreciar o quanto a função do Felisberto enquanto superfície de projecção se sobrepõe à sua poesia. O lisboeta, seu vizinho do outro lado da rua, era um empresário que costumava fazer férias no lugar, com uma consciência inabalável
da sua pertença a uma qualquer elite, passou de imediato a conduzir a conversa, explicando ao Felisberto (e a mim) quem ele é. Expressava-se exageradamente alto, como se faz frequentemente na presença de pessoas de idade, falando com a mesma condescendência altaneira com se elogiam empregados e crianças. Sublinhou a esperteza de Felisberto, referindo que certa vez este o convidou para uma caldeirada sem peixe, feita apenas com ervas. Lamentou a vida dura que o Felisberto teve enquanto trabalhador agrícola e, no mesmo passo, elogiou a sua casa modesta e o sucessor de Salazar, Marcello Caetano, graças ao qual, sublinhava, os mais pobres dos pobres puderam passar a receber uma pensão de reforma (esquecendo- se, no entanto, de referir que a mulher de Felisberto continua a cultivar a terra, agora sozinha, porque a reforma que recebem é ridiculamente baixa e o Felisberto não a pode ajudar devido a uma doença incapacitante). Explica-me a mim, mas principalmente ao Felisberto, que o comunismo que este canta em tantas das suas quadras, nada tem que ver com o comunismo de hoje. O comunismo do Felisberto é, dizia o lisboeta, um comunismo de matriz cristã e não o comunismo dos oportunistas que controlam Odemira – carreiristas – e muito menos o comunismo do "regime criminoso soviético de antigamente". Pouco depois, despediu-se de nós e regressou à sua mansão.
O Felisberto foi um parceiro de entrevista ideal. Muitas vezes o fui encontrar esperando-me à porta da sua casa, um pouco curvado, com as articulações inchadas devido à gota e ao reumatismo (a maldição dos trabalhadores agrícolas que tiveram que passar a maior parte das suas vidas subnutridos e fazer tarefas insanas). Enquanto lá fora os automóveis passavam velozes, ele falava-me sobre o "poético-político" da vida como terapia para aliviar as dores e curar as feridas. As dificuldades que tive em transcrever as nossas conversas não foram apenas causadas pelo ruído dos automóveis velozes que se sucediam ao longo das gravações. São dificuldades que sublinham, sim, a exigência da tarefa do antropólogo que pretende realizar uma pesquisa sobre poetas locais do Sudoeste Alentejano sem se tornar ele próprio um "inglês", alguém seguro da sua própria identidade, neste caso como académico que fala, para os seus "semelhantes", da riqueza da cultura popular, da poesia popular, das representações dos "outros".