• No results found

As doentes internadas no serviço de psiquiatria do CHL apresentavam frequentemente comportamentos de isolamento do grupo, ou, por outro lado, comportamentos de excessiva dependência e intimidade com outros indivíduos internados, não ancorados em relacionamentos estruturados, o que pode denotar limitações na construção de relações sociais adaptativas.

Pretendemos com esta intervenção promover o desenvolvimento psicológico em interação com o ambiente social, estimulando a reflexão sobre os relacionamentos e comportamentos sociais e sobre os sentimentos e fantasias colocadas nas relações, com o objetivo de promover contactos adequados entre os indivíduos internados, o desenvolvimento da capacidade de escuta e a reflexão sobre o papel social no grupo de doentes internados face aos outros grupos em que se incluem.

O Regulamento dos Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem Especializados em Enfermagem de Saúde Mental (2011, p.16) cita a definição de reabilitação psicossocial publicada no Relatório Mundial da Saúde (WHO, 2002):

“A reabilitação psicossocial é um processo que oferece aos indivíduos que estão debilitados incapacitados ou deficientes, devido à perturbação mental, a oportunidade de atingir o seu potencial de funcionamento independente, na comunidade. Envolve tanto o incremento das competências individuais como a introdução de mudanças ambientais. Os principais objetivos são a emancipação do utente, a redução da descriminação e do estigma, a melhoria da competência social individual e a criação de um sistema de apoio social de longa duração.”

Mullen (2009), num artigo de revisão da literatura, analisou a implementação de intervenções psicossociais por enfermeiros de saúde mental em internamentos de agudos. O autor refere que, apesar de frequentemente isso não acontecer, faz imenso sentido disponibilizar intervenções eficazes em contexto agudo, com os enfermeiros de saúde mental na linha da frente desses processos terapêuticos. Reconhecendo que é necessária muita energia para se manter o envolvimento em programas de intervenção psicossocial estruturados, Mistral et al (2002) citados pelo mesmo autor, demonstraram que, independentemente de quão caótica ou stressante for a unidade, podem ser obtidas melhorias significativas nos doentes e no ambiente do serviço, utilizando princípios de

intervenção comunitária para abordar problemas relacionados com a cultura da unidade e o ambiente caótico.

Desenvolvimento

A intervenção decorreu em sala, no serviço de Psiquiatria do CHL. Durante a sessão foram explorados os sentimentos de cada paciente no grupo, bem como o que cada uma considerava serem comportamentos adequados na sala de estar do serviço, a relação da adequação dos comportamentos com o contexto e o papel do grupo como regulador de comportamentos.

A abordagem foi efetuada tendo por base a Teoria das Relações Interpessoais de Peplau (1952), tendo o enfermeiro assumido os papéis de estranho, professor e conselheiro. Quanto às fases do grupo, consideramos que a intervenção decorreu na fase de orientação, uma vez que procuramos ajudar as utentes a reconhecer o problema associados a comportamentos desajustados, envolvendo-se com as utentes na exploração da resolução do problema e orientando as pacientes acerca do problema e implicações, com o objetivo de tentar relacionar a sua experiência atual com as anteriores e futuras.

A intervenção de enfermagem foi focalizada no sentido de ajudar as pacientes a adquirir uma aprendizagem construtiva e as utentes responderam, enquanto grupo e algumas individualmente, identificando os elementos essenciais do problema, identificando-se com o enfermeiro, pelo que a relação passou progrediu para a fase de identificação.

Avaliação

Das dezassete doentes internados foram todas selecionadas para participarem na intervenção, de entre as quais duas recusaram por se apresentarem sonolentas e pretenderem descansar.

A intervenção focalizou as utentes no grupo de doentes internadas e no seu funcionamento, sublinhando a individualidade da cada uma das utentes como membro do grupo. Foi conseguida uma participação ativa das utentes, que defenderam a sua visão da interação adequada entre as utentes e colocaram questões diversas relacionadas com as regras de funcionamento do serviço. A valorização das capacidades, crenças e valores das utentes, bem como o estabelecimento de uma relação de confiança com o grupo, vai de

encontro ao estabelecido no primeiro enunciado descritivo do Regulamento dos Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem Especializados em Enfermagem de Saúde Mental (2011), dirigido à satisfação dos clientes.

Partindo da apreciação subjetiva de cada utente, foram colocadas em perspetiva as análises individuais, sugerindo a inversão de papéis entre as pessoas com diferentes opiniões, com o objetivo de sublinhar a importância de uma atitude empática entre as utentes, promovendo, deste modo a construção de um ambiente mais saudável e promotor da saúde mental e a promoção de competências interpessoais das utentes. Estes aspetos estão alinhados com o segundo, terceiro e quinto enunciados descritivos do Regulamento dos Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem Especializados em Enfermagem de Saúde Mental (2011), relacionados com a promoção da saúde, a prevenção de complicações e a adaptação.

Foi abordada a importância da relação de amizade como suporte na gestão dos problemas do dia-a-dia e a definição de “amigo” segundo os próprios. Foi estimulado o sentido crítico dos participantes no sentido de clarificar a construção de relações de amizade como relações adaptativas.

No final foi feito um resumo da sessão, com validação dos aspetos mais valorizados pelas participantes, enquadradas com os princípios de relações adaptativas validadas pelo grupo e elaborada uma ficha síntese da intervenção (ANEXO IV)

Com esta intervenção desenvolvemos as competências enunciadas no Quadro 7.

QUADRO 7: Competências desenvolvidas com a implementação da intervenção “Eu e os outros”

COMPETÊNCIAS COMUNS EE Regulamento 122/2011

COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS EESM Regulamento 129/2011

A1. Desenvolve uma prática profissional e ética no seu campo de intervenção.

F1. Detém um elevado conhecimento e consciência de si enquanto pessoa e enfermeiro, mercê de vivências e processos de auto - conhecimento, desenvolvimento pessoal e profissional.

COMPETÊNCIAS COMUNS EE Regulamento 122/2011

COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS EESM Regulamento 129/2011

A2. Promove práticas de cuidados que respeitam os direitos humanos e as responsabilidades profissionais.

F2. Assiste a pessoa ao longo do ciclo de vida, família, grupos e comunidade na otimização da saúde mental.

B1. Desempenha um papel dinamizador no desenvolvimento e suporte das iniciativas estratégicas institucionais na área da governação clínica.

F3. Ajuda a pessoa ao longo do ciclo de vida, integrada na família, grupos e comunidade a recuperar a saúde mental, mobilizando as dinâmicas próprias de cada contexto.

B3. Cria e mantém um ambiente terapêutico e seguro

F4. Presta cuidados de âmbito psicoterapêutico, socioterapêutico, psicossocial e psicoeducacional, à pessoa ao longo do ciclo de vida, mobilizando o contexto e dinâmica individual, familiar de grupo ou comunitário, de forma a manter, melhorar e recuperar a saúde.

C1. Gere os cuidados, optimizando a resposta da equipa de enfermagem e seus colaboradores e a articulação na equipa multiprofissional

D1. Desenvolve o auto-conhecimento e a assertividade

D2. Baseia a sua praxis clínica especializada em sólidos e válidos padrões de conhecimento