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1. A few notes on Material Semiotics

1.2. Method Assemblages and othering

1.2.2. Situatedness

O livro de História e Geografia, conforme a autora Hulda Raquel Salcedo Rodrigues Moreira, foi desenvolvido com base na formação dos autores e no “entendimento de História” e de Geografia. A proposta apresentada pretendeu partir das raízes culturais do estudante e depois disso, construir a “ideia do todo, do Brasil e posteriormente do Mundo”.

O estudante, considerado sujeito “tanto da construção do conhecimento como do espaço ao seu redor”, necessita ser conhecedor, primeiramente do próprio lugar. Ao conhecer, imagina-se que desenvolverá a identidade e, a partir dela, o respeito pela história, o sentimento de pertencimento e a valorização pelas feituras dos outros, enquanto constrói a própria maneira de ser no mundo.

Acredita-se que, em um país com a multiculturalidade percebida no Brasil, exija um livro que remeta o estudante para o seu entorno social e, “a partir de então,

ele vai ter condições de compreender as diferenças para relacionar-se com o diferente”.

[...] nós pensamos que não basta a gente disponibilizar para o aluno o conteúdo pelo conteúdo. Nem de geografia e nem de história. O conteúdo ele tem que ser uma ferramenta para que o aluno, utilizando-se desse conhecimento, ele vai compreender o seu lugar, o seu entorno, a sua vida, e é assim que nós trabalhamos. Com a pesquisa. A pesquisa é a chave para que ele possa, então, compreender o seu lugar e relacionar-se com os outros.

Ao viajar pelas diferentes regiões do Brasil, para realização dos programas de formação continuada, os autores ampliam a visão de cultura regional e observam peculiaridades, divulgando maneiras de aplicar o livro didático às diferentes situações emergentes.

No aspecto da geografia eu observo assim [...] o espaço geográfico de cada lugar se constrói com base no substrato natural da região. Se é no litoral, se é na floresta, se é no campo, se é no semi-árido. Cada um com sua peculiaridade. E aí, então, observando o espaço geográfico urbano, praticamente a gente não consegue notar uma diversidade cultural. No aspecto urbano. Por quê? Porque a globalização tomou conta. Então a gente vê as cidades, todas são quase iguais, assim, nos seus prédios, nas suas ruas, nas suas propagandas. Praticamente não se vê diferença. Agora, o que vai marcar, realmente, o aluno no seu estudo, é o quanto ele vai investigar os detalhes do seu espaço geográfico.

Daí, para os autores, a importância de os estudantes serem remetidos para a investigação da rua, do bairro, dos monumentos, da história dele, para observação dos prédios, das árvores, para questionar os porquês de cada uso, costumes e transformações, para comparar a minha cidade com a do outro, “[...] aí realmente ele vai estar desenvolvendo a consciência de que seu lugar é único.”

A autora, Moreira, documenta em sua memória uma das experiências em um espaço recém povoado por processo de expansão territorial. Ela relembra que os estados mais novos do Brasil, no que se referem à organização cultural, por exemplo, Rondônia, onde esteve reunida com um grupo de professores, imaginava que encontraria descendentes indígenas, por estar na região amazônica. No entanto, “[...] a maioria das professoras eram de pele clara, cabelo loiro, e olhos claros.”

Ao travar conversa com elas a respeito desse tema, a autora foi remetida “à história da ocupação agrícola, principalmente do sul da Amazônia, Rondônia, Mato

Grosso”. O sobrenome delas apresentou histórias originárias de descendências ou de nascimento nos estados do Sul, especificamente de SC, Paraná e RS. Os pais foram para lá, após venderem as terras no sul, e “[...] foram desenvolvendo a vida, já um pouco reduzidas às possibilidades do trabalho na zona rural, pela floresta, enfim, e essas professoras não tinham consciência dessa história.” Esse grupo não apresentava uma identidade cultural com tradições alicerçadas, como no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, exemplifica ela.

É diferente ir à Bahia, em que os aspectos culturais tradicionais estão muito presentes. Em Rondônia, não é assim. O Estado é novo, considerando a invasão do homem branco nos espaços, com pessoas de diversos lugares do Brasil, sem consciência enraizada de uma história local. Não foram encontrados, com facilidade, por exemplo, produtos típicos do lugar. A cultura valorizada é a dos outros estados, que também é a deles nem na capital não foi possível identificar produtos típicos de lá.

Observa-se que, nesses estados ou nessas cidades, provavelmente seja muito mais difícil de construir com os estudantes uma identidade cultural específica. Porque não é uma história antiga. O que eles têm é recente e ainda não apresentam muitas histórias marcadas nos livros, ou que tenham monumento evidenciando aquele aspecto. Eles estão construindo, na pesquisa e vivências do local “para poder se situar e se identificar”.

Com as migrações internas do Brasil que foram muito intensas, hoje já não se vê uma diferenciação muito grande. O Sul por ser mais extremo, parece não apresentar tanta interferência de outras culturas regionais como São Paulo, que é uma mistura de todos os povos.

Concluindo a conversa, uma das autoras afirma que, com essas realidades,

[...] a gente vê que se o aluno,realmente, não for remetido para o seu lugarzinho, ele tem que partir da sua rua, na conversa com seus vizinhos, dos monumentos que ele tem ali, dos prédios, enfim, da sua própria história, do seu próprio olhar, do seu próprio nome , do seu próprio sobrenome. Ele realmente não vai conseguir se situar. Porque, na verdade, o que mais pesa, é o mundo globalizado. É o todo. E se o aluno cair direto no todo, no mundo globalizado, ele nunca vai saber quem ele é.

Para ela, só é possível se dar conta real da importância da cultura regional, da identidade de si como pessoa e como pertencente a um lugar “[...] quando eu

estou fora dele.” Por isso a importância do intercâmbio, das viagens culturais, das leituras sobre as outras culturas, para compreensão da sua própria. Moreira busca na memória uma lembrança de algo que está registrado no material de história, no manual do professor a autora “[...] cita uma frase: ‘é preciso conhecer para amar, e quando a gente amar a gente vai cuidar, a gente vai preservar’. Tanto no patrimônio natural como no cultural.”

Conforme Moreira, os autores são orientados, pela CPB, a trabalhar com uma metodologia que possa ser aplicada em cada situação e em todas as regiões do país. É dentro desse quesito que foi escolhida a metodologia de investigação e que a formação dos conceitos acontece, e os livros didáticos de História e Geografia são produzidos.

Com a metodologia em mente, o livro é escrito e submetido à análise da comissão do livro didático, assim como é encaminhado aos departamentos de educação das regiões e estados, para receber aprovação dos professores que usam o material nas escolas. Em conversas informais com os professores, soube-se que nem sempre tais livros chegam às mãos dos professores para essa análise, entretanto, não se chegou a enumerar percentuais desse trabalho realizado, especialmente por não ser o foco dessa pesquisa.

No entanto, quando o autor de geografia, por exemplo, divulga seu livro e participa de programas de formação continuada como palestrante observa-se que o professor apresenta algumas necessidades.

A primeira delas é uma necessidade quanto aos conhecimentos específicos das disciplinas de história e geografia, pois como os professores não têm a formação específica na área, necessitam desses conhecimentos para entenderem as necessidades do estudante e como trabalhar com o material. Por outro lado, há necessidade de tratamento específico do trabalho metodológico, especialmente porque ainda se observa o modo tradicional de ensinar na prática de muitos professores e, a partir disso, a cobrança por conteúdos decorados em listas. Alguns exigem a construção de um livro com informações específicas, como as mais tradicionais dos livros de geografia, citando nomes de rios, entre outros aspectos.

Pelas percepções dessas, entre outras necessidades, os autores dos livros de história e geografia dizem que “[...] nós trabalhamos disponibilizando a eles um pouco de conteúdo, aliado a metodologia.” Procuram trabalhar conteúdos que estejam de alguma forma relacionados ao seu lugar, em que o professor possa se

ver ali, naquele conteúdo. Normalmente trabalha-se com oficinas dando ênfase aos conhecimentos da cartografia, que vão permitir transitar pelo espaço geográfico, enquanto teoria, tanto nos livros quanto nos mapas, com a interpretação das paisagens, especificamente nos espaços geográficos. São alguns dos modos de trabalhar o fundamento e a metodologia adequada para que o professor possa aplicar o livro.

Com a história, a autora trabalha da mesma forma, conforme Moreira. Com temáticas ligadas à cultura, à identidade, e ao local.

E os professores se sentem muito satisfeitos com isso porque eles conseguem compreender que determinado capítulo do livro não é um conteúdo a mais que está ali no meio da unidade, mas que ele tem um significado de um fundamento dentro das ideias centrais que se pretende que um aluno obtenha [...]

Foi entregue à pesquisadora alguns arquivos usados nos trabalhos de formação aos professores de diferentes regiões do Brasil. Conforme a autora, há subsídios consistentes para trabalhar a realidade, porém é necessária a iniciativa regional para o professor ampliar o conhecimento, especialmente aqueles que não apresentam formação na área.